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16.10.19

Energia nuclear: desmistificando o pecado original

Observatório

Por John M. A. Forman, geólogo e ex-Diretor da ANP.

Na disputa pelo contrato para a conclusão de Angra 3, há quatro grupos empresariais. Rosatom (Rússia), China National Nuclear Corporation (China), EDF (França) e Westinghouse (EUA). A Rússia opera um grande número de reatores e tem outros em construção, com perfeito domínio da tecnologia; a China é o país que mais constrói reatores nucleares no mundo, como forma de mitigar a intensa poluição causada pelo uso intensivo do carvão, grave ameaça à saúde da sua população; a França gera a maior parte da sua energia a partir de reatores nucleares e ainda exporta os excedentes a países vizinhos que optaram por fechar seus reatores próprios; os Estados Unidos possuem a maior capacidade de geração nuclear instalada do mundo, contando com um número de usinas nucleares maior do que qualquer país.

O governo federal pretende apresentar até o fim do ano um plano de expansão da energia nuclear com a construção de seis a oito novas usinas até 2050. A ideia é que haja parceiros privados, com 49% de participação nas novas usinas. Um modelo foi avaliado com 70% para a União e 30% para o sócio privado. Mas, nas simulações do fluxo de caixa, os grupos privados não conseguiriam amortizar o investimento com as receitas geradas pelas usinas. É uma nova investida para uso da geração nuclear no país, tentada anteriormente e abandonada por diferentes razões.

É costume dizer-se que a energia nuclear sofre de um pecado original, por ter se tornado conhecida pelo uso das bombas atômicas, com seus devastadores efeitos que seriam eternos. No entanto, quem visitar, hoje, Hiroshima e Nagasaki, no Japão, encontrará belas cidades, totalmente recuperadas, com uma população grande, e não um deserto estéril e desabitado como se chegou a supor. A lista de acidentes, como Three Mile Island (Estados Unidos, 1979) Chernobyl (Ucrânia, pertencente à antiga União Soviética, 1986), Fukushima (Japão, 2011) deveria ser mais bem estudada.

Em Three Mile Island, o núcleo do reator iria fundir e chegar ao centro de terra; não aconteceu, não houve acidente. Chernobyl foi o resultado de um teste irresponsável de gradiente térmico, recusado por outras usinas semelhantes, que saiu de controle. Foi feito em um reator em piscina, sem vaso de contenção e sem um prédio próprio que o contivesse. Causou grandes danos, mas não foi um acidente, por ter causa conhecida. A Rússia é uma das potenciais fornecedoras de reatores ao Brasil, cuja segurança já testada e assegurada. Em Fukushima, a usina foi danificada por um tsunami, fenômeno natural, de intensidade acima das previsões, que afetou um projeto mais antigo, que dependia de bombas elétricas para sua segurança. Os projetos atuais, usam a gravidade para a água de arrefecimento, não dependendo de bombas. As reações nucleares se dão dentro de vasos de contenção de aço, localizados no interior de um prédio de concreto, que os protege de fenômenos externos e asseguram a contenção de eventuais e pouco prováveis vazamentos. O Japão retomou a construção de reatores.

Mas, e os resíduos nucleares, altamente radioativos e perigosos? Para os reatores em funcionamento, foram desenvolvidas soluções muito seguras para o armazenamento de rejeitos, como por exemplo na França, ou podem ser reaproveitados para gerar energia usando o urânio não enriquecido isotopicamente. É interessante mencionar que no Gabão, na África, foi identificada em uma jazida de urânio, em  Oklo, a presença de elementos transurânicos, como o plutônio, mostrando que lá houve um reator nuclear que funcionou por muitos anos, sem que com isso causasse qualquer alteração a flora e fauna locais. Reatores naturais foram comuns no processo de evolução da terra, em eras passadas.

Há, assim, a necessidade de se pensar uma campanha de esclarecimento da população, a qual foi submetida a um programado processo para temer os potenciais efeitos da radiação e os danos eternos e irrecuperáveis que ela poderia causar. É sempre mais fácil ser contra aquilo que não é bem conhecido do que contra algo conhecido e desmistificado.

O cientista britânico James Lovelock, de fama internacional, criador do moderno conceito de Gaia, que entende a terra como um organismo vivo, que reage e se adapta às mudanças geológicas, climáticas ou quaisquer outras que venham a incidir sobre nosso planeta. Em seu livro “A Vingança de Gaia”, de 2006, ele faz um comentário que deve ser lido e compreendido:

“Preferimos até agora ouvir os conselhos bem-intencionados, mas insensatos, daqueles que acreditam em uma alternativa para a ciência. Sou um verde e seria classificado entre eles, mas acima de tudo sou um cientista. Por isso, rogo aos meus amigos verdes que repensem sua crença ingênua no desenvolvimento sustentável e na energia renovável, e que poupar energia é tudo que precisa ser feito. Eles precisam, sobretudo, abandonar sua objeção equivocada à energia nuclear. Mesmo que tivessem razão sobre seus perigos – mas não têm –, seu uso como fonte de energia segura e confiável representaria uma ameaça insignificante, comparada à ameaça real de ondas de calor intoleráveis e letais e a do aumento do nível do mar, atemorizando as cidades costeiras do mundo.”

Conhecer permite compreender; desconhecer leva à incompreensão, ao medo e à manipulação da sociedade.

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16.09.15

Fissura

Os russos da Rosatom estão sem rumo. Com a prisão do ex-presidente da Eletronuclear, Othon Pinheiro da Silva, perderam seu grande aliado na estatal para participar do projeto de Angra 3.

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29.06.15

Lava Jato resfria o programa nuclear brasileiro

A Lava Jato empobreceu também o urânio brasileiro. O desenfreado cerco a s grandes empreiteiras praticamente paralisou o programa nuclear nacional. Que o diga a russa Rosatom, virtual parceira do governo brasileiro para a instalação de novas usinas atômicas. Nem mesmo as boas relações entre Dilma Rousseff e Vladimir Putin e os seguidos acordos bilaterais entre os dois países resistiram ao juiz Sergio Moro. A aliança entre a Rosatom e a Camargo Corrêa, que já haviam assinado um memorando de entendimentos para investimentos na área nuclear, desintegrou- se. Forçada pelas circunstâncias, a construtora cancelou qualquer novo projeto no setor. Desde então, os russos seguem em busca de um nome para ocupar o vazio deixado pela Camargo Corrêa, de preferência também uma grande empreiteira – afinal, que outro setor no Brasil tem tamanha familiaridade com o negócio? Praticamente todas as construtoras do primeiro time criaram uma área de defesa e segurança: a Odebrecht, por exemplo, participa do projeto de montagem do primeiro submarino nuclear brasileiro. Neste momento, no entanto, é mais fácil os russos acharem cé sio 137 sob o asfalto da Rua das Flores, em Curitiba, do que encontrar uma grande construtora que não tenha sido atingida pela radioatividade do petrolão. Uma coisa puxa a outra. Nos últimos meses, as conversações entre a Rosatom e o governo brasileiro esfriaram consideravelmente. Havia a expectativa de que a própria presidente Dilma Rousseff fizesse uma viagem a  Rússia no mês de maio, quando se encontraria com Vladimir Putin para dar continuidade ao projeto. No entanto, a visita não se confirmou. Ruim para a Rosatom, que apostou um monte de fichas no programa nuclear brasileiro. A companhia instalou uma subsidiária no país, a Rusatom Overseas Network, montou uma representação no Rio de Janeiro e designou um de seus mais promissores executivos para comandar os sete funcionários locais, Ivan Dybov. Muito barulho por nada. Por ora, a Rosatom fechou apenas um contrato com a Comissão Nacional de Energia Nuclear para o fornecimento de molibdênio-99, usado na medicina nuclear.

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