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28.10.19

Um ecossistema chamado Homem

Observatório

Por Leonardo Braga, Capitão Submarinista da Marinha Brasileira.

Em abril deste ano um estudo publicado na Revista Nature apontou resultados positivos no tratamento de doenças do espectro autista usando uma técnica aparentemente inusitada: o transplante de fezes. Não tome esta notícia como apenas uma curiosidade científica. Trata-se de uma revolução comparável à promovida por Copérnico e Galileu, com impactos que vão muito além dos benefícios imediatos à saúde humana. A concepção de vida microbiológica que habita o senso comum no século XXI foi mormente forjada a partir dos conhecimentos e procedimentos biomédicos desenvolvidos entre a Revolução Industrial e as pesquisas sobre os antibióticos no período que abrange as duas Grandes Guerras.

A invenção do microscópio no século XVII permitiu a descoberta dos então “animalúculos”, pequenas criaturas invisíveis a olho nu que pareciam estar em toda parte, sem que ninguém soubesse de onde vinham ou como surgiam. No século XVII, entre as teorias formuladas, mostrou-se vitoriosa a proposição de Pasteur, de que tais criaturas nasciam de outras por reprodução, em contraponto à ideia de que os micro-organismos surgiam de matéria não viva, por geração espontânea. Das experiências e técnicas de esterilização de Pasteur à compreensão de que os micro- organismos eram agentes causadores das doenças foi um pulo. Os tais pequenos animais ganharam nomes, e o termo bacteria surgiu para designar as cepas de bactérias em forma de bastão, tornando-se no século XX o termo utilizado para a categoria em geral.

No final do século XIX, a concepção de “agente patogênico” já estava consolidada, e a partir dela desenvolveram-se boa parte das medidas de higiene, tanto aplicadas ao ambiente hospitalar quanto aos espaços urbanos em geral; além, é claro, das medidas de saúde pública, incluindo o combate às doenças infectocontagiosas por meio das ações de prevenção, incluindo a prática de vacinação em massa e o saneamento básico. Os ganhos em expectativa de vida foram notáveis e ampliaram-se com o desenvolvimento dos antibióticos a partir da Segunda Guerra Mundial. Os micróbios tornaram-se inimigos, ora inertes e sorrateiros, ora agressivos e perigosos. A história das grandes epidemias mais do que justificava tal concepção. Mas, após o mapeamento do DNA humano no final do século XX (e a decepção quanto ao tamanho reduzido, em relação a outras espécies supostamente mais simples), seguiu-se um projeto menos pomposo, de mapeamento da microbiota humana.

Os resultados decorrentes desse projeto foram muito bem compilados e divulgados pelo trabalho da bióloga Alanna Collen em seu livro “10% Humano” (2015, editora Sextante). Collen aponta, para a surpresa geral, que o intestino sozinho tem mais micro-organismos do que o corpo tem células. E que no total apenas 10% das unidades que nos compõe são nossas de fato. Alanna aponta, a partir de vasto conjunto de evidências, que esse ecossistema participa ativamente de diversos processos metabólicos centrais, suplementando as capacidades que seriam proporcionadas exclusivamente pelo genoma humano, e que seu desequilíbrio precisa ser compreendido como um problema de saúde grave. E o mais importante: aponta como hipóteses promissoras que doenças como diabetes, obesidade, alergias e doenças do espectro autista poderiam ter no desequilíbrio da microbiota o fator preponderante.

Segundo Collen, o aumento das doenças no século XX coincide com… voilá… a disseminação do uso de antibióticos – armas de destruição em massa que não destroem somente os patógenos das doenças perigosas, mas também as espécies necessárias ao bom funcionamento do corpo. A equipe liderada pela pesquisadora Rosa Krajmalnik-Brown, partindo dessa hipótese, obteve resultados robustos e positivos fazendo transplantes de microbiotas saudáveis para os intestinos de pacientes vitimados por doenças do espectro autista. Outros cientistas têm se dedicado a estudar as conexões peculiares entre microbiota e comportamento humano, encontrando resultados igualmente surpreendentes. Nos próximos anos essas pesquisas poderão mudar radicalmente a forma como tratamos as doenças. E o mais importante – como compreendemos os seres humanos em geral. Em vez de organismos, somos verdadeiramente ecossistemas peculiares e conscientes.

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