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As críticas do ministro Paulo Guedes ao professor Affonso Celso Pastore, porque ele serviu ao regime militar – foi presidente do BC no governo do general Figueiredo -, são desonestas. Guedes tinha em Pastore sua referência intelectual quando jovem. Trabalhou na Funcef à época em que a instituição era dirigida pelo seu atual desafeto.

De lá pulou para o IBMEC – sob a direção geral de Roberto Castello Branco e a presidência de João Paulo dos Reis Velloso. Muitos ouviram Guedes se rasgar em elogios a Pastore nas aulas e conversas com os professores da antiga instituição, quando ela se situava bem em frente ao Museu de Arte Moderna (MAM), lá pela década de 80. O atual ministro metia o malho em Mario Henrique Simonsen e afagava seu então dileto economista.

Depois virou casaca e passou a achar Simonsen “o maior de todos os tempos no Brasil”. O folclórico e falecido economista Augusto Bragança – uma espécie de “Roniquito” do setor (Quem conheceu Ronald Russel Wallace de Chevalier, irmão de Scarlet Moon e amigo de Simonsen vai entender a comparação) – implicou com os exagerados elogios. Um dia, Bragança, que também era pesquisador do IBMEC, cismou que daria “uma porrada” em Guedes se ouvisse ele repetir a cantilena de novo. A ameaça foi testemunhada por muitos pesquisadores da casa. E assustou uns e outros. Afinal, Bragança tinha um pé fora da casinha. Mas, ficou nisso. “Bragunça”, como era chamado, no fundo até gostava de Guedes. Achava ele engraçado. Pois é.

 

Um triângulo entre notáveis economistas – Parte II

O triângulo Affonso Celso Pastore, Mario Henrique Simonsen e Paulo Guedes, ainda que este último fosse à época apenas um coadjuvante, teve seus outros momentos de estranheza, no qual a dubiedade do atual ministro da Economia se fez presente. Em um deles, o general Golbery do Couto e Silva é quem pontifica. Guedes não gostava de Simonsen, que desdenhava de Guedes, que gostava de Pastore, que era do time de Delfim, que tinha pinimba com Simonsen.

Um episódio do qual o RR tem certeza foi o da participação do general Golbery em uma “fofocalhada”. Durante evento fechado para empresários, Guedes e Pastore meteram o malho em Simonsen, que era então ministro da Fazenda. Golbery, que adorava Simonsen, fez chegar a ele uma fita gravada pelo SNI, registrando as frases nada airosas de Pastore e Guedes. Pouco depois, Pastore e Simonsen teriam se encontrado no Aeroporto Santos Dumont, ambos indo para SP.

O primeiro estendeu a mão ao segundo, que não levantou a sua para cumprimentar o “melhor Chicago boy do Brasil” – título que disputava com outro presidente do  BC durante o regime militar, Carlos Geraldo Langoni. Pastore, que não era de levar desaforo para casa, baixou as mãos e deu de costas a Simonsen. E esfriaram relações durante um bom tempo. Porém, a animosidade não foi eterna. Pastore nunca entendeu o episódio, pois não sabia da fita do SNI. A partir daí aumentou o descaso de Simonsen por Guedes. É só uma historieta do desamor cruzado entre três grandes economistas.

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05.02.20

Simonsen, a corrupção e o escrivão Bartleby

Observatório

Coriolano Gatto, jornalista.

As novas regras para o combate a práticas de anti-corrupção, com a introdução de mecanismos refinados de compliance (aderência às normas), podem não ter o sucesso tão esperado. Elas permitem a contratação de bancas de advocacia, que fornecem uma espécie de selo de qualidade a companhias que mantêm relacionamento com o setor público. Uma espécie de detergente que deixa tudo clean. Há bancas que evitam fornecer a chancela a práticas de anticorrupção a companhias envolvidas em ações controversas com entes públicos por duvidarem dos propósitos de seus acionistas e de seus administradores. Nem é preciso falar de nomes das empresas ou dos advogados. São todos sobejamente conhecidos.

Apenas um singelo exemplo: a empresária bilionária corrupta Isabel dos Santos, filha do ex-ditador socialista de Angola Eduardo dos Santos, teve seus múltiplos negócios auditados pela PwC, Ernest; Young, Delloite e KPMG. O curioso: as auditorias continuaram a prestar serviços, mesmo depois das primeiras denúncias, no início de janeiro, de acordo com reportagens de um consórcio internacional de jornalistas. Só romperam depois da fuga de Santos para Dubai e Londres. Note que todas são multinacionais, sujeitas a uma legislação rigorosa.

Ninguém está exigindo que todo homem público aja como o professor Mario Henrique Simonsen (1935-1997). Inquirido, em uma entrevista, se em algum momento da sua vida pública fora alvo de uma proposta de corrupção, dada a à importância do cargo que exercera no governo Geisel (1974-1979) como ministro da Fazenda, quando controlava 400 empresas estatais, segundo as contas de Eduardo Gianetti da Fonseca.: ⁃ – O sujeito, para corromper um servidor público, precisa ter 90% de chances de que será bem- sucedido. A resposta lógica, cartesiana, no melhor estilo do velho mestre, ministro de Estado aos 39 anos, não deixou margem para continuar o tema.

Simonsen agiu como o escrivão do conto de Herman Melville (1819-1891), noves fora o lado caricatural. Certo dia, quando o narrador pede a Bartleby para revisar um documento, o jovem simplesmente responde: Eu preferiria não fazer. É a primeira das inúmeras recusas seguintes de Bartleby. Para a consternação do narrador e irritação dos outros escrivães, Bartleby executa cada vez menos suas tarefas. E permanece fiel à sua convicção. Corrupção não tem data, CPF ou ideologia. Imaginar o contrário é acreditar que um juiz de primeira instância possa resolver situações empresariais complexas. Ou acreditar em Papai Noel, como diria Simonsen, para os economistas que receitavam soluções mágicas para combater a inflação e a má distribuição de renda.

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27.03.19

Paulo Guedes busca inspiração em Simonsen para relançar refinanciamento compensatório

Os elogios recentes do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao professor Mario Henrique Simonsen podem revelar a atualidade e a inspiração em uma das ideias do mestre. Corriam os anos 70, e a economia derretia com a inadimplência de pessoas físicas e jurídicas. Simonsen, que nunca rezou pela cartilha da ortodoxia econômica, bolou uma forma de estimular a liquidez sem emissão monetária ou endividamento. Batizou o engenhoso instrumento de refinanciamento compensatório.

A receita de Simonsen determinava que o Banco Central liberasse recursos do compulsório bancário para que as instituições financeiras pudessem renegociar dívidas de empresas e pessoas físicas, evitando, assim, uma quebradeira em massa. Guedes, que à época não comungava com a medida, está tentando utilizá-la para sacudir o consumo. O assunto está em estudos pela equipe econômica. Sem expectativas de novos investimentos e com as despesas do governo contidas, o papel de desfibrilador da economia, neste ano, ficou restrito a algum aquecimento do mercado interno.

E qualquer resíduo a mais no PIB conta ponto. Durante a campanha presidencial, Ciro Gomes plagiou Simonsen e defendeu o refinanciamento de todas as pessoas físicas penduradas no SPC. No modelo original estavam incluídas as pessoas jurídicas. Hoje dar essa guarida para as empresas seria cometer um haraquiri político. Atualmente, mais de 60 milhões de brasileiros estão inadimplentes, sendo que a maior parte são idosos. A medida atinge, portanto, grande parte do público que é impactado pelas mensagens sobre a reforma da Previdência.

O “refinanciamento compensatório” vai direto na veia da taxa de desemprego, que está quase imóvel na faixa de 12%; suaviza a impopularidade das mudanças na Previdência; reconhece que os bancos, mesmo abarrotados de dinheiro, não acreditam mais na clientela, que se encontra com o nome sujo. O dinheiro seria carimbado. Somente poderia ser usado para renegociar as dívidas daqueles que penam no SPC e estão excluídos do mercado de consumo. Uma garantia para que os bancos voltem a emprestar. Seria uma iniciativa com impacto direto no bolso dos brasileiros que mais se ressentem da marcha lenta da economia. O fato de Paulo Guedes estudar a adoção da medida revela não só a atualidade do pensamento do mestre, mas também a inspiração em uma das suas ideias, que poderá ser relançada em breve. É um sincero, ainda que tardio, elogio a Mario Henrique Simonsen.

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