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Lázaro Brandão

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17.10.19

A despedida do “bancário” mais ilustre da Cidade de Deus

O RR conheceu o então presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, o “Seu Brandão” conforme era chamado no banco, quando foi formado o consórcio de empresas para a disputa do leilão de privatização da Vale do Rio Doce. Pedimos uma conversa com Mário Teixeira, diretor do banco responsável pela participação da instituição nas privatizações. Quem nos recebeu na Cidade de Deus, em Osasco, sede do Bradesco, foi Romulo Lasmar, chefe de gabinete de toda a diretoria. Todas as vezes que o RR visitou a Cidade de Deus, ao término da conversa, Teixeira fazia o convite de praxe: “Vamos cumprimentar o Chefe”.

Era a senha para seguir, acompanhado de Lasmar, em direção à sala da diretoria, enorme, com uma fileira de mesas de lado a lado. Em frente à mesa central, aguardando sempre de pé, estava “Seu Brandão”. A pergunta era sempre a mesma: “Como vai o Relatório? De onde vocês tiram tantas informações?”. Arrematava a cena virando de lado, de forma a que pudéssemos observar o RR sob sua mesa com trechos marcados com caneta bicolor. Irresistível! Ele gostava de parafrasear uma observação de Mário Henrique Simonsen, muito amigo da casa, que, inclusive, usamos em peça publicitária da newsletter: “O RR não é para ser tomado ao pé da letra, mas como subsídio para analistas argutos”. Posteriormente, Teixeira e Lasmar se aposentaram, e “Seu Brandão” assumiu a presidência do Conselho Consultivo, acumulando-a com a presidência executiva – sem nunca um dia ter deixado de ser um “bancário”, conforme expressão usual na casa.

Para o seu cargo seguiu o então presidente da Bradesco Seguros, Luiz Carlos Trabuco, filósofo, humanista, personagem especialíssimo no sistema financeiro. Criou-se, então, uma saudável disputa entre qual daqueles homens era capaz de promover maior encantamento junto aos seus interlocutores. Com “Seu Brandão” em plena forma, a competição era injusta. Fala rápida, raciocínio idem, olhos pequenos, sempre vestido com cores fechadas, “Seu Brandão” combinava, curiosamente, um perfil vetusto com um espírito travesso. Em uma das visitas do RR, Eike Batista, acompanhado de André Esteves, quase na véspera, tinha se reunido com a cúpula do Bradesco e feito uma oferta de compra pela Vale. Todos os jornais publicaram a proposta. De frente a Zeus, em uma daquelas sessões de cumprimentos, sapecamos a pergunta: “Vai vender?”. Resposta ao seu melhor estilo: “Fala muito esse rapaz. Que coisa, né? Todos os jornais! Se já não sabíamos antes, sabemos menos agora.” Eliezer Batista, pai de Eike e amigo de geração de “Seu Brandão”, ficou com a missão de pedir as desculpas.

No final da vida, “Seu Brandão” publicou pela editora da Fundação Getúlio Vargas um opúsculo autobiográfico. Em um desses encontros papais com o presidente do Conselho do Bradesco, ele perguntou ao RR se havíamos lido o livro. Após a assertiva, ficou alguns segundos calado e, com os olhos miúdos cravados, metralhou: “Mas leram mesmo, né? Com certeza?” O sucessor de Amador Aguiar, que fez o milagre de se tornar tão emblemático quanto o ex-patrão, não conversava como os comuns. Ele entrevistava as pessoas. Para não dar espaço para questionamentos, “Seu Brandão” não os deixava respirar: cravava todos de perguntas. O RR passou por várias sabatinas. Em um outro mundo, Lázaro Brandão poderia ser repórter. Um apurador nato. Melhor do que todos aqueles que labutam no pequeno RR. Faria bem qualquer coisa. Pena que se foi!

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