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03.05.21

Butantan

A espetaculosa operação de marketing socioambiental da JBS foi toda idealizada pelo Rasputin de saias da companhia. A influente figura comanda a comunicação da empresa e é temida dentro da corporação por sua influência e seus métodos.

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29.04.21

As lições do passado e o estelionato ambiental

Antigas ideias podem resolver novos problemas. A frase remonta a projetos não realizados de dois pensadores, antípodas, que estavam muito à frente do seu tempo. O sociólogo Betinho e ex-presidente da FGV Jorge Oscar de Mello Flores, nos idos da década de 80, já estavam buscando respostas para a validação dos efetivos cuidados com o meio ambiente. Betinho tentava encaixar a proposta do selo socioambiental no projeto pioneiro do balanço social. A ideia das demonstrações contábeis foi aprovada pela CVM, mas com a exclusão do selo. O conceito da certificação era simples: definir variáveis de sustentabilidade que deveriam ser cumpridas obrigatoriamente, com auditoria das práticas. Se os resultados positivos fossem comprovados, a empresa estaria a apta a imprimir o selo, que seria aplicado nas embalagens de todos os produtos. Seria, então, feita uma campanha para o cidadão decidir pela compra dos bens que tivessem o selo, ainda que o comprovante não fosse obrigatório. A iniciativa induziria mais e mais corporações a se adequarem às práticas socioambientais corretas.

Já o Dr. Flores defendia a criação de um balanço social de verdade, onde se encontraria uma fórmula de cálculo para definir ativos e passivos socioambientais no tempo – vide o caso JBS (RR de 27 de abril). Por esse modelo, empresas como a Souza Cruz não poderiam cometer estelionato ambiental, pois carregariam um enorme passivo em mortes que não seria compensado, por exemplo, com um ativo de redução de dióxido de carbono. As ideias de Betinho e Jorge Oscar de Mello Flores estão guardadas na gaveta da história, prontas para serem resgatadas por alguém que passe um pente fino na contribuição das empresas ao meio ambiente.

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27.04.21

Publicidade da JBS não apaga seu passivo ambiental

O compromisso público da JBS de investir US$ 1 bilhão até 2030 para reduzir as emissões de carbono é, por si só, uma notícia positiva. No entanto, é preciso avaliar se a cifra é uma fração pequena para compensar o passivo da empresa no quesito sustentabilidade. A JBS é uma corporação condenada pelo seu passado – também nessa área. Que o diga a britânica Global Witness, uma das mais respeitadas entidades do terceiro setor em todo o mundo. Em dezembro, a ONG divulgou um detalhado relatório acusando a empresa de ter comprado gado de 327 fazendas do Pará nas quais ocorreu desmatamento ilegal. De acordo com o levantamento, somente na região de São Félix do Xingu a JBS fez negócio com 109 propriedades alvo de desmate criminoso entre 2017 e 2019.

A JBS contesta o estudo da ONG. Mas a Global Witness não está sozinha. Em outubro do ano passado, outra entidade mundial, a Mighty Earth, desacreditou os planos da empresa dos irmãos Batista de zerar sua contribuição para o desmatamento da Amazônia, classificando-os como mais uma promessa “de uma longa linha de compromissos públicos sem continuidade”. Segundo a Mighty Earth, há mais de dez anos a JBS anuncia que deixará de comprar gado de fazendas desmatadas ilegalmente, sem honrar sua palavra.

O descrédito se alastra também entre investidores. A gestora finlandesa Nordea Asset Management, que administra 200 bilhões de euros, vendeu todas as ações da JBS em carteira. A decisão foi motivada pela suposta ligação da empresa com a destruição ambiental da Amazônia. Ressalte-se ainda o estudo realizado pela Chain Reaction Research (CRR), consórcio de entidades de conservação do meio ambiente. Ao analisar o desmatamento na cadeia de fornecimento da JBS, a CCR identificou uma expressiva exposição a riscos associados à destruição ambiental que podem comprometer 26% do seu lucro e aumentar seu custo de capital em cerca de 30%.

Os cálculos provavelmente não levam em consideração o papel decisivo da JBS na destruição de pequenos abatedouros, inclusive fazendo campanha para que houvesse intervenção sanitária nessas empresas. O resultado foi uma carnificina de milhares de postos de trabalho. O passado, portanto, justifica o estardalhaço com que a companhia anunciou seu plano de reduzir as emissões de carbono, com anúncios pagos na capa das principais publicações impressas do país. Por ora, o tamanho da exposição da JBS na mídia mais indica que a companhia quer surfar na onda da sustentabilidade e fazer com que o seu passado seja esquecido.

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22.04.21

O crime dos irmãos Batista compensa

A rentabilidade da JBS é uma prova de que o crime compensa. Conforme informou o Valor Econômico na última segunda-feira, desde maio de 2017, quando estourou o escândalo da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer, o valor de mercado da empresa cresceu 223%. Esse número joga foco sobre uma lacuna da Lava Jato: mesmo com todos os delitos praticados e confessados à Justiça, Joesley e demais controladores da JBS seguem auferindo lucros expressivos – parte deles provenientes de facilidades geradas por crimes cometidos bem antes da conversa imprópria com Temer.

A JBS fechou um ótimo negócio vis-à-vis a proporção dos crimes cometidos e os ganhos obtidos. Em seu acordo de leniência, o grupo comprometeu-se a pagar uma multa de R$ 10,3 bilhões ao longo de 25 anos. Com a correção pelo IPCA, estima-se que o valor final chegue a R$ 20 bilhões, ou seja, uma “prestação” de aproximadamente R$ 800 milhões/ano. Para efeito de comparação, essa cifra equivale a 35% do lucro médio da JBS entre 2017 e 2020 (R$ 2,28 bilhões por ano). Ou a menos de 3% do faturamento da empresa só em 2020. Se pensarmos na multa imposta, na física, aos irmãos Joesley e Wesley Batista, a punição pelos malfeitos foi ainda mais irrisória: R$ 1 bilhão.

O RR já tratou do assunto em 25 de novembro de 2019. À época, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara chegou a discutir um projeto prevendo a desapropriação de empresas cujos controladores tenham sido condenados por crime de corrupção ou lavagem de dinheiro. Com o desmonte da Lava Jato, o tema volta à tona: é necessário criar algum tipo de mecanismo para evitar que esse primado da usurpação indevida se perpetue.

A Constituição prevê a possibilidade de expropriação, mas apenas de bens imobiliários. Na avaliação de juristas consultados pelo RR, a hipótese de desapropriação de companhias pertencentes a empresários condenados por corrupção exigiria uma PEC. Ressalte-se que, em 2016, o então ministro da Transparência, Torquato Jardim, chegou a propor ao Congresso mudanças na Lei Anticorrupção. Sua recomendação previa a venda compulsória do controle ou até mesmo a dissolução de empresas reincidentes em casos de pagamento de propina. Por ora, a JBS segue como se a Lava Jato sequer tivesse existido. Ainda que indiretamente, a compra da holandesa Vivera, anunciada na segunda-feira, é mais um bônus de negociações suspeitas realizadas no passado.

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10.09.20

O PIB brasileiro a caminho da América

O Grupo Votorantim seguiu os passos da JBS e está fazendo a América. Atualmente, parcela expressiva da sua arrecadação vem dos Estados Unidos. No último trimestre, a receita líquida dos Ermírio de Moraes na América do Norte atingiu R$ 1,5 bilhão, o que representa um aumento de 40% em relação ao mesmo período no ano anterior. É bem verdade que a valorização do dólar explica uma parte do pedaço. A pandemia impactou o setor de construção civil menos do que se esperava. A receita líquida no Brasil foi de R$ 1,8 bilhão, com crescimento de 9% em relação ao segundo trimestre de 2019. Não vai demorar muito e Votorantim e JBS vão transferir sua sede fiscal para os Estados Unidos. Em tempo: a JBS já tentou, e tomou gongo, nos idos de um BNDES muito diferente do que esse que aí está.

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19.08.20

Alta caloria

Para desgosto daqueles que torcem contra, a JBS não para de aumentar o seu peso na balança comercial e no balanço de pagamentos do Brasil. Para este ano, mesmo com a pandemia, o mercado já projeta uma receita líquida do grupo próxima dos R$ 250 bilhões, o que representaria um crescimento de 20% sobre o ano passado. A JBS surfa na alta do câmbio: mais de 85% da sua receita são em dólar. Os inimigos evitam comer carne.

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Orçamento e saneamento: bola com o governo

Dois temas importantes para o governo, que envolvem negociações com o Congresso, devem manter – e talvez aprofundar – espaço amanhã:

1) Discussão sobre planejamento – e cortes – no orçamento 2020. Ainda que haja apoio da mídia ao ajuste fiscal, diminui muito a tolerância para restrições ou indefinição de investimentos em áreas sociais e, especialmente, educação;

2) Novo marco do saneamento, com a perspectiva não apenas de enfrentar grave problema de infraestrutura, mas também de abrir o setor para a iniciativa privados. Questão ganhará mais força com declarações, hoje, de Guilherme Albuquerque – da área de parcerias público-privadas do BNDES, que estrutura o processo de privatização da Cedae – ao afirmar que a privatização da Companhia atrairá R$ 32,5 bilhões em investimentos. 

Vale ainda atenção, amanhã, para sinais de parlamentares acerca do tema.

A inflação acelera

A aceleração inflacionária, puxada pelo preço da carne e que afeta mais fortemente as faixas de menor renda, continuará a ser pauta no final de semana. E o IGP-DI de novembro (FGV), que sai na segunda-feira, deve alimentar a temática, ao atingir a faixa de 0,9%, frente a 0,55% em outubro. Mas não se trata de questão que preocupe analistas econômicos.

Salles, Weintraub e gabinete do ódio

Três fatores negativos devem pairar sobre o governo, de amanhã até segunda-feira:

1) O aumento de pressão sobre o ministro Salles, após série de matérias em diversos veículos atestando paralisia do Ministério do Meio Ambiente. O que se soma, hoje, ao posicionamento da Embaixada da Alemanha desmentindo que teria concordado com minuta sobre novo desenho do Fundo Amazônia, como chegou a afirmar o ministro; 

2) O novo embate entre Universidades públicas e o ministro da Educação, que já sofre enorme rejeição dos formadores de opinião;

3) O avanço – em declarações e ilações – da CPI das Fake News que, ao que tudo indica, ampliará o foco no suposto “gabinete do ódio”, que estaria instaurado no governo federal com o objetivo de atacar opositores. 

Os bastidores do Congresso

Já no Congresso, dois projetos vão provocar movimentações de bastidores amanhã, pelo grau de indefinição que ainda carregam: 

1) A tramitação da PEC Paralela, aprovada no Senado. Indicações, até o momento, apontam para possibilidade de inclusão de estados e municípios na reforma da Previdência, ainda que diversos outros pontos da PEC enfrentem forte rejeição na Casa;

2) O desentendimento entre Câmara e Senado sobre a tramitação de projeto que pode reinstituir a prisão após condenação em segunda instância. Nos bastidores, já está claro o incômodo de Rodrigo Maia com a articulação de senadores de ala “lavajatista” para assumir a frente do tema. Nesse contexto, Davi Alcolumbre, próximo a Maia, será figura central. 

Loggi e JBS

Decisão judicial, hoje, determinando a criação de vínculo trabalhista entre aplicativo de entrega (Loggi) e motoboys tende a ser revertida, mas vai provocar debate no final de semana – e certa insegurança jurídica. 

Também deve gerar polêmica a revelação de documentos indicando que a JBS teria a intenção de levar a sede da empresa para fora do Brasil. 

O efeito Queiroz

Retomada de investigações sobre Flavio Bolsonaro, pelo MP-RJ, mesmo que sob sigilo, levará o tema ao noticiário, particularmente no que se refere à associação do senador com o ex-assessor Fabrício Queiroz.

A temperatura do Fundo Eleitoral

Noticiário e análises de amanhã devem aumentar linha crítica a projeto da Câmara – quase consensual na Casa – que pretende elevar para R$ 3,8 bilhões o Fundo Eleitoral. Deputados sentirão a temperatura dos próximos dias e, a partir daí, será tomada a decisão de apostar na proposta ou abandoná-la. 

Carne, China e embaixada em Israel

Na política internacional, a conferir desdobramentos, amanhã, de: 1) Possibilidade de que a China acabe com taxas para importação de soja e carne de porco norte americanas; 2) Declarações de Eduardo Bolsonaro, hoje, salientando que embaixada brasileira em Israel ainda pode ser transferida para Jerusalém. 

Balança comercial e preços na China

Em relação aos indicadores internacionais, destaque para a China, com a divulgação, na segunda feira:

 1) Da Balança Comercial de novembro, que deve trazer resultados mais positivos que os de outubro, com superávit em torno de US$ 47 bilhões (contra US$ 42,02 bilhões no mês anterior), crescimento entre 1% e 1,5% de exportações (frente à queda de 0,9% em outubro) e recuo de aproximadamente  2% em importações (em comparação à retração precedente de 6,5%)

2)  Do Índice de Preços ao Consumidor de novembro, que tende para desaceleração, chegando até a casa de 0, 1%, contra 0,9% em outubro.

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25.11.19

“Nova fase” da Lava Jato pode cassar controle acionário; irmãos Batista devem puxar a fila

A Lava Jato pode renascer das cinzas com um vigor punitivo sem precedentes na história do país. O RR teve a informação de que o Congresso, mais especificamente a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, retomou, discretamente, as discussões em torno de um projeto de lei ou PEC propondo a transferência compulsória do controle de empresas cujos acionistas tenham sido condenados por crime de corrupção, lavagem de dinheiro e congêneres. Segundo o RR apurou, o Legislativo tem sido encorajado pelo Palácio do Planalto a levar a medida adiante. No círculo palaciano, a proposta é vista como passível de ser capitalizada pelo presidente Jair Bolsonaro, que tem sido acusado de agir para matar a Lava Jato e asfixiar ações de combate à corrupção por motivações óbvias e consanguíneas. A ressurreição da operação lhe traria dividendos políticos, ao vir acompanhada da mensagem de que o seu governo foi o mais rigoroso na punição dos criminosos de “colarinho branco”.

Todas as corporações investigadas ou mesmo condenadas na Lava Jato ou em operações afins – Zelotes, Greenfield, Carne Fraca etc – estariam potencialmente na linha de tiro da nova legislação. A título de exemplo do que vem sendo chamado no Congresso de “prêmio do crime”, não haveria caso mais emblemático, devido à relação valor da punição/lucro empresarial, do que a JBS, dos irmãos e corruptores confessos Joesley e Wesley Batista. Coincidência ou não, a proposta renasce no Congresso justamente no momento em que o procurador-geral da República, Augusto Aras, pede ao STF a anulação do acordo de delação dos Batista. A eventual suspensão do acordo representaria o fim da alforria que os irmãos Batista receberam pelos crimes flagrados na Lava Jato. A anulação retiraria toda a blindagem jurídica que hoje protege os dois empresários, abrindo caminho para a reabertura das ações criminais contra a dupla e, eventualmente, a sua condenação. Não por acaso, a JBS tem sido a referência nos debates do tema entre parlamentares.

O projeto em discussão é de que o dano causado à sociedade não pode ser transformado em prêmio à criminalidade deixando o acionista com o controle e os frutos da empresa mediante o pagamento de uma multa proporcionalmente inexpressiva. De fato, se há uma corporação no Brasil que faz parecer que o crime compensa é a companhia dos irmãos Batista, dada a dosimetria da punição que os empresários receberam. Diferentemente de outras empresas ou mesmo setores inteiros da economia devastados pela Lava Jato, como construção pesada e  indústria naval, os acionistas da JBS pagaram pouco, muito pouco pelos delitos que cometeram e os dividendos de prosperidade que auferiram. A multa imposta no acordo de leniência foi quase um presente vis-à-vis o faturamento e a lucratividade da companhia. Pelo acordo homologado com o MPF, Joesley e Wesley Batista comprometeram-se, em 2017, a pagar uma multa de R$ 10,3 bilhões ao longo de 25 anos. Corrigida, a cifra pode se aproximar dos R$ 20 bilhões, mas, para efeito de comparação, tomemos como base o valor de face da punição, assim como dos resultados da JBS.

A punição equivale a 6,4% do faturamento médio da companhia entre 2014 e 2018 (R$ 159,2 bilhões/ano), um pedaço do período mais recente em que os Batistas inflaram sua rentabilidade com o dinheiro do crime. Dividida em valores iguais pelo período de 25 anos, a multa equivale a aproximadamente R$ 412 milhões/ano. Não chega a um quarto do lucro médio auferido pela JBS nos últimos cinco anos (R$ 1,86 bilhão por ano). Representa ainda menos de um terço do lucro atribuído a sócios da empresa controladora no mesmo período, de acordo com o balanço da JBS – algo como R$ 1,4 bilhão, em média, por ano. Em um exercício meramente hipotético, se a lucratividade média da companhia nos últimos cinco anos se mantiver constante ao longo dos 25 anos de pagamento da multa, o grupo terá um resultado positivo de R$ 46,5 bilhões, quase cinco vezes o valor de face do acordo de leniência. Ressalte-se ainda que uma parte incalculável, mas certamente bastante expressiva, embutida nesses números, tanto a valor presente quanto futuro, decorre da “absolvição” dos Batista e da JBS em função do acordo de leniência.

Não por acaso, entre parlamentares, há quem diga que Joesley e Wesley cometeram o “crime perfeito”. Subornaram políticos e autoridades, trocaram favores com partidos políticos, se aproveitaram do desvio de recursos públicos, receberam empréstimos oriundos do erário e construíram um império erguido sobre a combinação dessas práticas, sem perder nem um hectare desse latifúndio empresarial com a descoberta de seus delitos. Ao contrário de outras corporações fisgadas pela Lava Jato, a JBS está onde sempre esteve e é muito maior. Diante da gravidade do assunto, o RR entrou em contato com a empresa, por intermédio do assessor de comunicação Guilherme Barros. Na última terça-feira, dia 19, encaminhou 10 perguntas elaboradas com o apoio de parlamentares. A JBS, no entanto, sequer retornou à newsletter no prazo dado para resposta das questões – última quinta-feira, dia 21, às 17 horas. A medida em discussão no Congresso é extremamente polêmica e exige um amplo e profundo debate entre os mais diversos setores da sociedade. Não obstante a gravidade dos crimes correlatos, a proposta de expatriação soa como algo pouco afeito a regimes democráticos. Mas não é estranha à Constituição.

Os artigos 182 e 184 da Constituição também estabelecem condições de tomada do controle privado pelo Estado, mas sempre com foco na propriedade imobiliária, seja ela urbana ou rural. Nos dois artigos, a expropriação é sempre vinculada a uma contrapartida, com o pagamento de indenização em dinheiro. A exceção está no Artigo 243, que versa sobre a hipótese de confisco – “expropriação imediata, sem direito à indenização”. O objeto são imóveis rurais, “glebas de qualquer região do País onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas”. Não, há, portanto, na Constituição menções específicas à possibilidade de expropriação de bens mobiliários, caso das ações de uma empresa. Por esta razão, no entendimento de juristas ouvidos pelo RR, a hipótese de punição de empresas criminalizadas mediante venda obrigatória do controle exigiria uma Proposta de Emenda Constitucional em nome da sua segurança jurídica. De toda a forma, a ideia não é nova.

Nos últimos anos, já espocou aqui e acolá, ainda que com nuances diferentes. Em 2016, no auge da Lava Jato, o então ministro da Transparência, Torquato Jardim, propôs ao Congresso mudanças na Lei Anticorrupção. À época, Jardim recomendou a venda compulsória do controle ou, em um movimento ainda mais radical, até mesmo a dissolução de empresas reincidentes em casos de pagamento de propina a autoridades e envolvimento em desvio de recursos públicos. O foco principal eram companhias que mantinham contrato com o governo. Mas as discussões não avançaram. No fim do ano passado, uma comissão de juristas – entre os quais os professores Carlos Ari Sundfeld (FGV-SP), Juarez Freitas (UFRGS) e Sérgio Guerra (FGV-Rio) – encaminhou a Rodrigo Maia um pacote de propostas para o combate à corrupção. Entre elas, uma emenda na Lei Anticorrupção (1.846/13), estabelecendo que os donos de empresas envolvidos em crimes desta natureza sejam obrigados a vender todas as suas ações em um prazo de dois anos.

Como forma de evitar casuísmos ou arbitrariedades, a premissa das discussões em curso no Congresso neste momento é que a expropriação somente se consumaria depois de o processo transitar em julgado, ou seja, esgotados todos os recursos jurídicos possíveis. Com o respaldo de juristas, membros da CCJ estudam se a medida poderia ser implantada apenas com a mudança na Lei Anticorrupção ou se trata de matéria constitucional, o que exigiria uma PEC. Em seu artigo 5º, a Carta Magna prevê a inviolabilidade do direito à propriedade. No entanto, como pontua o jurista Roger Stiefelmann Leal, doutor em Direto do Estado pela USP e professor de Direito Constitucional na Faculdade de Direito da USP, em seu trabalho “A propriedade como direito fundamental”, isso não significa que “a propriedade assume, em face da ordem constitucional, caráter absoluto, que inadmite restrições. A exemplo de diversos direitos fundamentais, o direito de propriedade comporta limitações e abrandamentos em sua aplicação em nome de outros valores também tutelados pelo texto constitucional.”. próprio artigo 5º, em seu parágrafo XXIV, diz que “a lei estabeleceráo procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição.”

A legislação penal até contempla hipóteses de confisco em situações que guardam mais proximidade com os crimes da Lava Jato e as discussões em andamento no Congresso. Mas o entendimento é que a medida se aplica ao “produto do crime”, ou seja ganhos pecuniários auferidos em razão de práticas ilícitas. O Artigo 91 do Código Penal determina a perda em favor da União – “com a ressalva dos legítimos direitos do lesado e do terceiro de boa-fé” – do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática de fato criminoso”. Dispositivo razoavelmente semelhante está previsto no Artigo 7º, I, da Lei no 9.613, de 1998, que dispõe sobre os crimes de lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores. Como ressalta Roger Stiefelmann Leal, “o confisco constitui, portanto, penalidade excepcional de privação da propriedade sem o pagamento de indenização, que somente cabe ser aplicada mediante expressa previsão em lei”.

A legislação que priva os controladores dos seus direitos pode ter uma amplitude e flexibilidade bastante variadas. Há dúvida se a expropriação atingiria os detentores de capital das empresas com prejuízos no período de prática corrupta, ou que estão em recuperação judicial. A premissa, um tanto o quanto tortuosa, é que, não havendo lucro, não haveria o “prêmio do crime”. Outra questão complexa diz respeito ao procedimento em relação aos acionistas com parentesco, tendo ou não havido transferência de ações dos controladores no período determinado. Não existiria o risco de favorecimento por aproximação familiar? Não estaria configurado um “laranjal de ordem natural”? Finalmente, não seriam os parentes acionistas sujeitos à mesma regra de expropriação? A proposta de cassação do controle, com venda posterior em leilão público, tem semelhanças com um ovo de serpente. Pode ser um destampatório de iniciativas contra a propriedade em um governo que, apesar da pegada liberal, tem um DNA autoritário e protofacista. O RR põe um pé atrás com esse tipo de medida. Mas não há como não concordar que os criminosos foram favorecidos, as multas foram baixas, eles poluem as empresas e estimulam outras contravenções. Roubar e acumular fortunas pagando um dízimo bem menor do que o retorno do capital pode ser considerado um bom negócio por muita gente.

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13.11.19

Crash da JBS?

O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, baixou “decreto”:a venda da participação de 22% na JBS é para ontem. O banco disputa uma corrida contra o STF e a possível anulação do acordo de delação dos irmãos Batista. Apenas para relembrar: em março de 2017, quando estourou o caso Joesley/Temer, o valor de mercado da empresa caiu 30% em apenas um mês.

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12.11.19

Higienização

Colegas de Corte têm aconselhado o ministro Vital do Rêgo a pedir licença do TCU o quanto antes para se defender das acusações de que recebeu propina da JBS. Tudo para tirar os holofotes de cima do Tribunal.

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