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29.01.20

Bertrand Russel, Paulo Guedes e o dilema moral

Observatório

Coriolano Gatto, jornalista.

Ao completar 80 anos, o filósofo liberal Bertrand Russel foi perguntado por um ingênuo repórter sobre o que ele achava da data. Russell, um homem sarcástico, respondeu sem pestanejar: “Diante da alternativa, eu acho ótimo”. Ele morreria somente 17 anos depois, aos 97, em 1970. Era um ferrenho defensor das liberdades individuais tal como o economista Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Prêmio Nobel em 1976, o guru da Universidade de Chicago. O ministro Paulo Guedes jamais esquecerá o dia em que desafiou o velho mestre para um debate, em 1976. Nem o contínuo do templo do liberalismo levou-o a sério. Muito menos a secretária do grande mestre, perplexa com a ousadia do jovem de um país distante e de uma língua estranha. A ousadia do estudante é uma marca registrada do economista, que está longe de ter uma equipe com o intelecto do time da PUC-Rio e da USP no governo FHC.

Guedes sempre foi um franco atirador e se orgulha da origem humilde. Ele acha graça do comentário maldoso de César Maia, à época em que ambos se opuseram ao famigerado Plano Cruzado (1986, Governo governo Sarney) por motivações políticas diferentes. “O Paulo é um monetarista de babar na gravata”. Nesta época, a Hermès era a preferida dos jovens banqueiros. Custava 100 dólares. Este Esse mesmo economista, que trinta anos depois decretaria a “uberização” da política, em uma conversa informal no aeroporto de Congonhas, (SP), embarcaria na campanha de Jair Bolsonaro, após um namoro com a candidatura frustrada de Luciano Huck, em 2017, defendida pelo ex- presidente Fernando Henrique.

Pergunte a Paulo Guedes o modelo de político que ele abraçaria sem pestanejar por um segundo, tal como Bertrand Russell diante do início da fatalidade biológica: Margaret Thatcher (1925-2013), a dama de ferro da Inglaterra, e Felipe González (1944-), um social democrata que assume a bandeira liberal na Espanha nos anos 1980/1990. Como o ministro Sérgio Moro, Guedes suporta as idiossincrasias do Capitão por um projeto maior. Como Russell, ele sabe que a alternativa é a desorganização da economia e, com ela, a volta de um projeto de esquerda (PT, PSOL). Ele manterá todas as suas incongruências acadêmicas (“às favas com os escrúpulos”, como diria o coronel Jarbas Passarinho, por ocasião do AI-5, em 1968) com vistas a seguir um projeto falsamente liberal. Com a liberação de FGTS, o aumento do salário mínimo e sem algazarra tributária.

Guedes se mantém no cargo menos por uma convicção ideológica, e sim pelo pragmatismo, perpetrado por alguns personagens de Liev Tolstói, no romance psicológico seminal “Anna Kariênina”. Aproxima-se de vários deles, mas o Paulo Guedes, que já teve pretensões acadêmicas, gostaria de ser identificado com o protagonista Liévin, um homem obsessivo que busca a verdade e no fim chega à desoladora conclusão de nada haver solucionado, como aponta a brilhante tradução de Rubens Figueiredo, na edição COSACNAIFYCosac Naify. Guedes enfrenta o mesmo dilema: entre agradar o populismo de direita de Bolsonaro, rasgando os corolários do liberalismo, que sempre lhe foi caro. Ser um neokeynesiano, para evitar o voo da galinha da economia, soa como um pecado imperdoável como a heroína de Tolstói, Anna.

Guedes vive o dilema de Liévin. Ex-banker, Guedes age como uma versão moderna do bucanneiro: sabe a hora certa do ataque e o momento correto do recuo. Joga pôquer no melhor estilo do stick. O Guedes lembra os velhos tempos de trader, em que acertou apostas contra o Cruzado e outrosplanos heterodoxos e errou no Lula 1, em 2003, como relatou um amigo de Chicago. Agora, ele quer jogar no lixo as velhas convicções do Chicago boy. Hoje tem 70 anos e jamais repetiria a cena em que ousou enfrentar Milton Friedman. E trocou Huck por Bolsonaro. Publicado originalmente no Observatório RR, que reúne notas técnicas sobre temas variados.

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28.01.20

A depreciação como motor da economia brasileira?

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior.

Evidentemente que os ativos e a riqueza de qualquer país, medidos em dólar, sofrem depreciação na razão direta da perda de valor da sua moeda. Até aí, do conjunto dos efeitos, um seria salutar: os produtos produzidos ficam mais competitivos e nova escala poderia ser alcançada, gerando maior faturamento e geração de caixa para as empresas em suas vendas aos mercados interno e externo, com a ressalva de que isso é absolutamente verdadeiro para os segmentos que não usam insumos importados, majorados pela desvalorização da respectiva moeda nacional. Vamos ao Brasil. Com a demanda interna debilitada pelo alto desemprego, alto endividamento das famílias e milhares sem acesso ao crédito por estarem bloqueados, o setor externo seria o segmento de resposta mais rápida e de escala ilimitada, teoricamente. Analisando as exportações brasileiras por segmento nos os últimos 12 anos, salta aos olhos que o crescimento de 13% da receita com vendas externas, assim como a participação setorial, nos indica que não teremos um impulso de vendas externas pelo motor da depreciação cambial.

Cerca de 49% das exportações brasileiras são de produtos de baixo valor agregado, e mesmo em alguns setores, como a soja, por exemplo, o país vem exportando maior valor de produto in natura que os processados, seja farelo ou óleo. O efeito da depreciação cambial sobre reorganização de setores industriais sem expressiva e tradicional participação em mercados internacionais é possível, mas demandam ciclo de investimento e outras condicionantes de prazos longos, acima de três anos. Pelo lado das commodities, o incentivo da depreciação cambial é imediato, isso quando não promove pressão baixista sobre as cotações internacionais, como foi o caso do café, que responde por 2,3% do valor global das vendas externas brasileiras.

Nos setores de maior valor agregado e com matriz insumo-produto mais sofisticada, a participação do Brasil deixa a desejar, e além desses setores revelarem perda de vitalidade no período de 12 anos considerado acima. Metalúrgico, indústria química, máquinas e instrumentos mecânicos, material eletrônico e material de transporte e componentes não vêm apresentando trajetória dinâmica no mercado externo, e o efeito cambial será incentivo de curso longo. Caso a opção de política pública seja, ao que parece deixar os fatores de produção e a suposta competitividade brasileira ser a matriz espontânea da expansão das nossas exportações, brasileiras teremos anos à frente de mais do mesmo: o setor externo não será nos próximos anos um polo importante no crescimento econômico do Brasil.

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27.01.20

O dólar furado

Observatório

Por Frank Geyer Abubakir, empresário.

Eu sou frequentemente perguntado se o dólar em R$ 4 é bom para as grandes empresas brasileiras. Tenho a percepção de que há uma dose de esoterismo nesse debate. É como se fosse uma tentativa de buscar uma relação entre as moedas, o que não faz sentido para o chão da fábrica. A cotação do dólar deve estar ligada diretamente aos custos de produção. É fácil de entender: se a nossa energia for quatro vezes mais cara e a nossa burocracia custar quatro vezes mais, se comparadas a países competitivos, a nossa moeda precisa valer muito menos. Isso porque precisamos compensar os custos mais altos para vender os nossos produtos no exterior. O câmbio, gostemos ou não, deve estar atrelado à nossa realidade para que possamos gerar mais empregos, especialmente no momento em que a taxa de desemprego ainda é muito elevada. Câmbio mais baixo – ou apreciado, como dizem os economistas – dá uma sensação de consumo em alta, como ocorreu até meados de 2013, mas no médio prazo é bom para uma minoria. Faça chuva ou faça sol, esses privilegiados sempre ganham muito dinheiro, enquanto muitos perdem os seus empregos, sobretudo na indústria. Dólar baixo lembra o faroeste “O Dólar Furado”, estrelado, em 1965, pelo ator Giuliano Gemma, que interpretou um soldado que retorna da guerra para lutar uma outra em casa. Sem que ele soubesse, seu irmão transformou-se num pistoleiro infame chamado Black Jack, que derrota os criminosos locais. Portanto, dólar baixinho é uma grande furada, um devorador de vidas, como no filme.

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23.01.20

Área externa começa a tirar o sono de Paulo Guedes e cia.

Os números sobre o crescimento dos investimentos diretos, no Brasil, apresentados em Davos, somente encobrem a preocupação da equipe econômica com a área externa da economia. O aumento de 25% no Investimento Direto no País (IDP), que teria produzido o “feito” de lançar o Brasil para o quarto lugar no ranking mundial dos maiores receptores desses recursos no mundo, ignora que a base de comparação é baixa – em 2018, o IDP teve o menor ingresso desde 2013. Não fosse o petróleo, o país teria tido uma performance sofrível.

O que chama a atenção de Paulo Guedes e cia. são o déficit em transações correntes e a balança comercial, que não refletem os números do IDP, e correm em uma raia própria de mau desempenho. Na balança comercial, o saldo de 2019 foi positivo em US$ 43,32 bilhões, mas 20% abaixo ao registrado no ano anterior, segundo o Ministério da Economia. Na área da conta corrente, o Brasil registrou um déficit em suas transações da ordem de US$ 50 bilhões – no início de 2019 a projeção era de US$ 36 bilhões. Para 2020, o BC prevê um aumento do buraco para US$ 57 bilhões.

A balança comercial e o déficit de transações correntes são imbricados, com a piora da primeira tendo impacto direto no segundo. Quem paga a fatura da conta do balanço de pagamentos é o IDP. Estão na essência dessa preocupação com a área externa as recentes medidas com as quais o governo busca afagar o capital internacional, como acabar com o direito de preferência da Petrobras nos leilões do pré-sal e abrir o mercado de compras públicas a estrangeiros.

O governo brasileiro tem de correr também com a aprovação do fast track, nomeação nas agências regulatórias e legislação para a desestatização. A avaliação mais recente que se tem do país não é empolgante para um governo que pretende fazer do capital externo a alavanca do crescimento nacional. Segundo o ranking da consultoria A.T. Kearney, o Brasil saiu pela primeira vez da classificação dos países confiáveis para o investimento estrangeiro. Estava incluído em todas as edições anteriores do estudo.

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23.01.20

Os trouxas, como os alquimistas, estão chegando

Observatório

Por Coriolano Gatto, jornalista.

O lendário investidor Luiz Affonso Cardoso de Mello de Álvares Otero (1926-1995), dono da maior corretora de valores até o início dos anos 1990 e de uma fortuna na casa de US$ 1 bilhão, evitava fazer previsões sobre a bolsa. O paulista quatrocentão, que escolheu o Rio para fazer fortuna, costumava dizer que era uma desonestidade qualquer exercício de futurologia. Se a previsão do analista era tão consistente, seria mais lógico que ele guardasse a informação para si e ganhasse dinheiro em vez de dar entrevistas. Otero, um homem elegante, colecionador de grandes obras de arte, ficaria chocado com a ousadia da Empiricus e de outras empresas de varejo de research.

É fato que a bolsa de valores experimenta valorização acentuada em meio a uma economia que ainda derrapa na curva. Os grandes investidores internacionais agem como o filósofo grego Pirro, o pai do ceticismo, e põem em dúvida a solidez de alguns indicadores econômicos. No ano passado, retiraram quase R$ 45 bilhões da bolsa – ou perto de 1% do valor de mercado das empresas listadas na B3 (R$ 4,9 trilhões). A cifra não assusta, mas revela um pequeno sinal de cautela: a ausência de um crescimento sustentável na economia real, embora alguns setores, como o da construção civil, apontem para o início de uma recuperação. As taxas de juros baixas – as menores da série histórica do Banco Central – não explicam, isoladamente, a valorização do mercado acionário diante de uma economia internacional que põe o pé no freio.

Empresas de research estimulam o pequeno investidor a entrar na bolsa, mesmo diante de um cenário que desafia até os invencíveis bancos brasileiros, que ganham dinheiro na euforia ou na recessão. A expansão das fintechs, que se multiplicam como farmácias ou salões de beleza, é um sintoma de uma assimetria no sistema financeiro, observa um arguto gestor de recursos. Para melhorar, “falta o trouxa”, complementaria o banqueiro Daniel Dantas, três gerações depois de Luiz Otero, ao mencionar, em entrevista, que na virada do século os negócios iam mal, mas a economia ia bem. Como os alquimistas da música de Jorge Ben Jor, os trouxas estão chegando; ou, para quem vai curtir os 50 dias de carnaval no Rio de Janeiro, lembra a marchinha de Dalva de Oliveira: “Oi! Zum, zum, zum, zum/Tá faltando um”.

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22.01.20

Heterodoxias fiscais: uma marca registrada do populismo político

Observatório

Por Marcos André Vinhas Catão, membro do Comite Científico da International Fiscal Association (IFA) e sócio de Vinhas e Redenschi Advogados; e Luis Felipe Vasconcelos Catão, pesquisador em Direito no King’s College de Londres.

Um dos maiores males das nações contemporâneas é a falta de estabilidade e segurança jurídica em relação às normas tributárias. Trata-se de autêntica afronta a uma das garantias mais valiosas ao constitucionalismo, que é o princípio da não surpresa fiscal. A sedução da desmedida edição de normas tributárias se deve ao fato de que governantes creem que mexer com a tributação pode ter os mesmos efeitos imediatos em se intervir na moeda ou no comércio internacional, porém sem o mesmo desgaste. Aos olhos do público, a tributação é sempre algo complexo e geralmente aborrecido.

Tal permite que medidas tributárias sejam difundidas de modo subliminar e sob a justificativa de um sem número de argumentos vazios. Mais recentemente, e, como cobrar tributos depende de previsão em lei, não raramente governos aumentam a pressão fiscal pela via da interpretação de leis existentes. A partir daí impõem autuações bilionárias, sem precedentes em países com economias muito mais desenvolvidas, para depois conceder anistias às próprias multas impostas, restando com algum ganho.

As heterodoxias possuem, via de regra, a cara de cordeiro, mas em pele de lobo. Criam- se tributos que não têm parâmetros científicos ou em outros sistemas tributários: aumentam-se alíquotas à máximos sob demandas menos elásticas como se o consumidor com menos capacidade econômica desses bens não fosse o mais afetado; contornam o princípio de reserva de lei, transformando a  interpretação da administração tributária uma norma; concedem-se isenções que distorcem a competitividade e privilegiam empresas e setores, entre outros. E, lamentavelmente, não só por aqui como em outras jurisdições, governos se esmeram em produzir desatinos tributários, contrariando uma ciência que tem centenas de anos de evolução.

Mas o que justifica o fato de que heterodoxias fiscais partem tanto de governos mais à direita, quanto ao centro ou de esquerda? A resposta é dada por outra ciência que não a da tributação, qual seja a ciência política. Quando analisamos essas heterodoxias, vemos que são a marca registrada de medidas ou de governos com o traço do populismo. Proliferam em governos de esquerda, centro ou direita, que não conseguem se manterem de pé, incapazes de comunicar a seus concidadãos a realidade e seus erros. Carecem da  sobriedade dos grandes líderes e pensadores que atravessaram as crises ensinando aos seus povos a necessidade de afrontar os fatos econômicos e sociais, como única forma de enriquecimento das nações, como fizeram Churchill e Hannah Arendt. E ante esse contexto, não é de se estranhar que em matéria de heterodoxias fiscais, vejamos tantas medidas paradoxais, onde governos liberais impõem medidas protecionistas e governos mais à esquerda concedem seletivas vantagens tributárias às empresas.

Ubíquos são os instantes nos quais o populismo fiscal atemoriza a estabilidade de uma nação. Recentemente, o governo conservador de Boris Johnson autorizou uma isenção de tributos à falida empresa de aviação Flybe em valores milionários. Em sua superfície, quis transparecer um objetivo nobre, visando à melhoria da infraestrutura e a criação de empregos em uma região da Inglaterra. No entanto, ante a natureza econômica de uma isenção, gerou uma justaposição com a ideologia de seu partido e que desmascarava seu eleitoreiro propósito de facto: dar benefícios a uma empresa de uma região aderente ao Brexit e, assim, consolidar a sua posição de líder por aquelas bandas.

Não bastasse, a medida veio acompanhada de reduções sobre o Imposto de Renda das Pessoas Físicas britânicas para o ano de 2020, o qual, como se sabe, será o primeiro ano pós-Brexit. Ou seja, uma forma populista de passar ao inconsciente inglês a ideia de que a vida ficou melhor a partir do Brexit. E tudo isso sob a pressão do mesmo partido que o está taxando de irresponsável e populista, uma vez que havia negado poucos anos antes medida idêntica em favor de uma empresa de aviação em situação similar. Nossa surrealista América Latina é um autêntico celeiro de heterodoxias fiscais. O Kirchnerismo, durante anos, impôs alíquotas de exportação às comodities argentinas pelo simples fato de que não lhes interessava o setor de agrobusiness forte, conquanto opositores do regime. Passados alguns anos, não só a inflação desandou como a produção do agrobusiness argentina se encontra em franca decadência, ano após ano, dada à instabilidade fiscal. Não menos curioso foi o kirchnerismo tributar a compra de passagens e gastos com hotéis de argentinos no exterior com um imposto de renda na fonte a uma inacreditável alíquota de 15%, para fazer controle cambial.

E por mais incrível que isso possa parecer, nosso atual governo, de direção liberal, acaba de elevar por meio de uma Medida Provisória a tributação na compra de passagens e hotéis por brasileiros no exterior, aos também inacreditáveis 14%, sob a justificativa de estimular o turismo interno. E para não parar por aí, não custa lembrar a desastrosa mudança de critério de pagamento da contribuição previdenciária sobre a folha para o faturamento de alguns setores e empresas (a chamada “redução” da folha). Partindo de uma experiência sem precedentes, e que contraria a lógica do sistema de custeio da seguridade social existente em todos os países, esse critério acaba por beneficiar alguns poucos e põe a amarga conta da previdência para muitos outros. Por tudo isso, e pelos maus resultados a curto prazo e desastrosos e disruptivos efeitos no longo, é sempre de bom alvitre evitar heterodoxias fiscais. Estabilidade e segurança jurídica são marcas de países desenvolvidos. Heterodoxias fiscais são experimentos econômicos sem fundamento e, como tal, marcas do populismo, do atraso e do empobrecimento.

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21.01.20

A difícil arte do equilíbrio fiscal

Observatório

Alessandra Bizoni, jornalista.

Equilíbrio fiscal é um conceito que parece estar distante da realidade financeira da maioria dos estados brasileiros. Dentre as 27 unidades da federação, apenas Espírito Santo, Rondônia e Amapá desfrutam de situação fiscal muito boa. Na outra ponta do ranking estão Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os estados com pior situação fiscal do país, segundo classificação elaborada pela Tendência Consultoria no mês passado. A dificuldade para equilibrar as contas, segundo especialistas, está no fato de que governadores costumam contrair dívidas e organizam despesas que são regulares — e em alguns casos crescentes —, contando com recursos provenientes de receitas flutuantes. Ou seja, os dirigentes fazem projeções de certo volume de recursos a receber e, baseados nessas expectativas, buscam empréstimos junto a entidades financeiras.

Porém, na maioria dos casos, os cofres públicos acabam não recebendo aquilo que projetam e ficam sem dinheiro para saldar suas dívidas. Em casos mais graves, falta dinheiro para pagar pessoal e até mesmo para arcar com dívidas de fornecedores e prestadores de serviços importantes, como limpeza de hospitais e manutenção de viaturas da Polícia Militar. Além da inaptidão no planejamento financeiro e tributário, acrescentam especialistas do setor, ocorrem, na maior parte dos casos, erros de gestão. Estados como o Rio de Janeiro e Rio Grande Sul, que passaram por situações gravíssimas e ainda estão longe de ter um refresco em suas contas, alargaram sua folha de pagamento por conta de acréscimo no número de servidores e enfrentam o prolongamento na expectativa de vida de seus aposentados.

Contando com despesas flutuantes, como royalties do petróleo, no caso do Rio de Janeiro, ou de commodities agrícolas, como no Rio Grande Sul, o desfecho foi desastroso. Oscilações internacionais no preço do petróleo e efeitos das mudanças climáticas transformaram projeções otimistas num emaranhado de dívidas. Contar com a arrecadação do ICMS, imposto dos serviços de caráter volátil, é uma falha constante. Essa estratégia levou as contas do Rio Grande do Norte — cuja economia engloba produção de sal e de um pouco de petróleo, indústria pesqueira e turismo — para o vermelho.

Diante da falta de recursos, alguns estados já conseguiram, junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), a manutenção dos repasses da União, mesmo sem quitar suas dívidas. No ano passado, o governo federal pagou R$ 8,353 bilhões em dívidas atrasadas dos estados e municípios. Como garantidor de operações de crédito junto às instituições financeiras, o governo federal arcou com o déficit. O primeiro passo para sair dessa situação, alertam especialistas em finanças públicas, é ter vontade política para cortar despesas e tornar os gastos mais eficientes. Outra etapa importante é a reforma da Previdência.

Alguns estados já se movimentaram e buscam fazer a reforma de previdenciária no âmbito estadual. Acre, Alagoas, Espírito Santo, Maranhão, Paraná, Piauí e Mato Grosso do Sul, por exemplo, aprovaram projetos para modificar as aposentadorias na esfera estadual. A desigualdade dos gastos com a previdência  é gritante no país. Enquanto em alguns casos juízes federais conseguem se aposentar com média salarial que varia de R$ 25 mil a R$ 30 mil, o novo teto para aposentadoria no setor privado para 2020 é de R$ 6.101,05. Diferenças acentuadas, diante de uma curva progressiva na expectativa de vida do brasileiro — a expectativa de vida média do brasileiro é de 76,3 anos, sendo 79,9 para as mulheres e 72,8 anos para os homens —, tendem a aprofundar as dificuldades fiscais dos governos e contrastes sociais. Na prática, o desequilíbrio fiscal se reflete em deficiências no atendimento à população em serviços básicos em áreas como saúde, educação e segurança pública, por exemplo. E não são raros os casos de atrasos frequentes no pagamento de salários a servidores e de benefícios a pensionistas e inativos. Desse modo, está na ordem do dia a efetivação de políticas de ajuste fiscal, de eficiência nos gastos e a busca pela equidade na aplicação dos recursos, de modo a garantir o funcionamento dos serviços do estado, aos que mais precisam.

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17.10.19

Banca busca vacina para juros negativos

O eventual ingresso do Brasil no circuito dos países que trabalham com taxas de juros negativas tem gerado especulações de toda a ordem. O único consenso é o de que será enrolado fazer com que o investidor se acostume emocionalmente com a redução do valor da sua poupança no extrato das aplicações. Uma instituição beligerante, tenaz e genial (coincidência pura o acrônimo do BTG) chegou a pensar sobre a hipótese de agrados e mimos para atrair o aplicador, ou mesmo alguma derivada dos sorteios realizados nas operações de capitalização. Não bastasse o embrulho das taxas negativas, correm em paralelo as fintechs, com uma capacidade competitiva superior à dos grandes bancos em ambientes de retorno mais baixo. Se a banca não reagir com ligeireza, sua monumental rentabilidade vai para o museu dos ex-lucros espetaculares.

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17.10.19

Nona semana

O Brasil tem a nona semana de fluxo negativo repetido. O resultado no acumulado de 12 meses é o pior em 20 anos. Só faltava o câmbio entrar na fila. Pois entrou, estúpidos!

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07.08.19

Bilionários brasileiros também vão pedir maior tributação sobre sua fortuna

Reconheçamos: os americanos representam boa parte da alegria existente neste mundo (apud Caetano Veloso). Contudo, se depender de alguns notórios magnatas norte-americanos, os yankees vão exportar muito mais do que diversão e arte, e, sim, cases hiperbólicos de distributivismo tributário e de sua régia filantropia imperialista. O “tubaronato” de boutique dos EUA quer pagar mais imposto. O desejo dos plutocratas é de contribuir mais com o Fisco. Ele serve também ao interesse de publicizar uma elite hegemônica que, pelos sinais de desprendimento, “deve ser melhor do que as congêneres internacionais” – é batata que vão dizer isso no devido tempo.

Mas mentiras sinceras nos interessam. Os americanos revelam compreensão de que o caro sai barato quando se trata de conter futuras erupções sociais. Sim, alguma coisa se quebrou ou está se quebrando na engrenagem da acumulação primária de capital. Mas quebrando para melhor. Os 19 bilionários do Tio Sam, que querem porque querem ser taxados, são em sua maioria de segunda geração. Os sobrenomes são reluzentes: Soros, Hughes e Disney. A jovem Liesel Pritzker Simmons, uma das bilionárias dedicadas à causa, pretende inaugurar uma diplomacia distributivista na Europa. Pois saibam que uma fonte do RR no Itaú Unibanco confidenciou a boa nova: um grupo de empresários graúdos tupiniquins estaria seguindo o exemplo e arregimentando signatários para uma carta ao governo brasileiro. O quanto a decisão é firme, porém, ainda se trata de uma incógnita.

Por ora, devido à concentração geográfica da riqueza brasileira, o documento pode ser chamado de “Carta da Av. Paulista”. O informante revela que o Itaú Unibanco é o hub dos ricaços dispostos a ceder parte da sua fortuna. Mas nem todos os biliardários têm convicções tão profundas sobre a importância de uma distribuição de renda mais aguda entre os segmentos polares da sociedade. O RR fez uma leitura diagonal do perfil de cada um. O médico José Luiz Setúbal, um dos donos da instituição financeira, prega a doação como uma obrigatória medida de consciência. Atualmente, o médico já doa cerca de um terço dos seus rendimentos. Faz ainda filantropia nas áreas hospitalar e de startups para o setor de saúde. Se depender dele, o Leão da Receita pode rasgar os seus bolsos com garras afi adas e levar boa parte da grana.

Neca Setúbal está bem próxima do irmão em sensibilidade para a pobreza e a tributação regressiva do Brasil. Os irmãos Walter Moreira Salles Jr., João Moreira Salles, Pedro Moreira Salles e Fernando Moreira Salles são todos príncipes, habitués no exercício da cidadania empresarial. Sua eventual disposição de apoiar uma maior justiça nos impostos estaria perfeitamente em linha com sua postura na vida pública. A mais aristocrática representante da casa bancária fundada por Eudoro Villela e Olavo Setúbal, a socialite Milu Villela, não está perto de configurar um modelo de ricaça preocupada com o social. A filantropia da Sra. Villela é a das bienais e do Museu de Arte Moderna de São Paulo, contribuições tão importantes quanto estereotipadas, que cabem à perfeição em seus vestidos de grife da Av. Champs Élysées. Guilherme Leal, da Natura, veste as medidas certas da visão corporativa social. A uma segunda vista, porém, Leal pende mais para o lado corporativo do que o social.

Digamos que mais para o ambiental. Sócios da Península, Abilio Diniz e Ana Maria Diniz estariam fracionadamente, em menor e maior condição, prontos para abrir a carteira. Abílio não exibe, em sua história empresarial, qualquer atitude que mostre coerência com a decisão de se imolar frente ao Fisco com o objetivo de ser mais justo. Se confirmada sua intenção, estaria surpreendendo mesmo os parentes mais próximos. Que Abílio é esse? Bem ao contrário da filha, Ana Maria, cuja dedicação à área de ensino e compreensão da diferença abissal que separa as classes abastadas e as mais sofridas tornam naturalmente crível sua opção por uma tributação social. A empresária Luiza Trajano tem uma physique du rôle dúbia para fazer parte do time. É conhecida pelo estilo de gestão humanitária, já perfilou do lado do PT e por pouco não foi ministra de Dilma Rousseff.

Suas características tendem mais para uma colecionadora de coletivos identitários, a exemplo do Grupo Mulheres do Brasil, que lidera desde 2012. Mas fica o benefício da dúvida para Luiza. Miguel Krigsner e Artur Grynbaum, sócios da Boticário, se enxergam em um espelho e veem Guilherme Leal. Não se sabe bem quem é a cópia, quem é o original. Jaime Garfinkel e Bruno Garfinkel são pai e filho, controladores da Porto Seguros. O clã não tem lá grande empatia com o social. Espanta sua presença na lista. Além da associação com o Itaú Unibanco, não há muito mais que os vincule aos empresários elencados. Quem os conhece afirma que ambos estão na ponta adversa, ou seja, querem pagar menos à Receita. O RR, frente ao inusitado da informação, procurou, é claro, cada um dos nomes citados na lista dos bilionários dispostos a contribuir mais junto ao governo.

Fez seguidas tentativas de contato, por telefone e e-mail, com todos. Nenhum deles quis comentar o assunto. Tampouco negou a iniciativa. Ao que parece, os afortunados preferem manter discrição sobre a tour de force distributivista. Ao menos, espera-se que o silêncio não seja sinal de recuo. Na ponta dos dedos, a carta prótributo dos brazucas tem somente cinco signatários a menos do que a dos norte-americanos, ou seja, 14 bilionários. Segundo a consultoria PwC, os abastados brasileiros pagam menos tributos do que os seus congêneres no G-20. Os seis maiores biliardários do país, com patrimônio de R$ 280 bilhões e fortuna equivalente à soma de 100 milhões de brasileiros, não constam da lista dos defensores da justiça tributária.

Na ordem decrescente são eles: Jorge Paulo Lemann, Joseph Safra, Marcel Telles, Carlos Alberto Sicupira, Eduardo Saverin e Ermírio Pereira de Moraes. Desde que a direita trumpista e a bolsonarista transformaram qualquer ato de solidariedade fiscal na ameaça de um comunismo degenerado, Brasil e Estados Unidos não se viam alinhados em uma boa causa. Talvez nunca tenham se alinhado em boa causa nenhuma. Mesmo que as conversas fi quem restritas a gatos gordos pingados do andar de cima, vale a torcida para que o desprendimento seja convicto e se irradie em todas as direções. E que ele não se repita em nossas plagas sob a forma de fraude. A verdade é que a newsletter ficou cheia de orgulho com a simples hipótese de uma depurada parcela da  nossa elite, porta bandeira secular do atraso, estar pensando em uma atitude tão bacana.

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