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15.09.20

O ser ou não ser dos gastos públicos

Há uma dúvida shakespeariana no centro do debate nacional: se o Brasil vai seguir em seu movimento de recuperação da economia, amparado em uma âncora de contenção dos gastos públicos, ou, quando cortados os incentivos fiscais, vai se tornar um “país zumbi”, conforme a expressão cunhada por Martin Sandbu, do Financial Times. Essa é a discussão de fundo em relação ao que se pode esperar das reformas. Sem as mudanças estruturais da economia, possivelmente não se terá o teto dos gastos já no próximo ano.

Com as reformas e a manutenção do teto dos gastos, a austeridade fiscal trará um tempo árido para a economia ou os investimentos retornarão já no próximo ano? As lições que vêm da Europa e da América recomendam que ainda não é hora de suspender as injeções fiscais. Pelo contrário. São necessários volumes maiores de gastos públicos para soerguer as economias. É bem verdade que a recuperação da economia brasileira surpreende quando comparada com o resto do mundo.

Mas, a dúvida que racha economistas de varias estirpes é a mesma: a economia do Brasil começou a pandemia despencando; foi o relaxamento fiscal, sem dúvida, que lhe deu tonicidade. Como ela reagirá se a expansão fiscal for suprimida ou trocada por uma política menos restritiva? Há dúvidas também até que ponto o crescimento per si pode ser um bálsamo para a relação dívida/PIB. Novamente, os exemplos que chegam de fora  Espanha, Itália, Japão, Estados Unidos – demonstram que as economias se tornaram mais flexíveis em relação a esse indicador.

Isto para não dizer que uma grande parcela dos países do mundo aproximou sua dívida interna bruta para uma relação dívida/PIB igual à do Brasil, próxima de 100% do PIB. Em meio a essas interrogações atrozes, o fato é que o ambiente propício à desconstrução criativa vem estimulando uma produção acadêmica contrária ao pensamento conservador hegemônico. Além de derivações da nova teoria monetária – que já não é tão nova assim -, um ícone do pensamento neoclássico, o ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers, tem arriscado equações que demonstram uma certa circularidade da expansão fiscal; ela seria financiada pela expansão do PIB. Portanto, o gasto público até certo ponto não seria um problema, mas solução. A ver, como tudo que aqui foi dito, em relação ao Brasil e ao mundo inteiro.

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10.08.20

A volta dos que não foram

Quem disse que dois raios não caem no mesmo lugar? O projeto de lei do tabelamento de juros do cheque especial e cartão de crédito, aprovado no Senado, é primo-irmão, do célebre artigo constitucional de fixação dos juros em no máximo 12% – ideia do falecido  deputado Fernando Gasparian. A excentricidade permaneceu mais de uma década inserida na Carta Magna sem nunca ser aplicada. A atual proposta de tabelamento, que ainda tem de passar pela Câmara, vai até dezembro. Mas, pode virar uma cunha para ser estendida por prazo indeterminado. Quando parecia que essa obsessão macabra pelo controle dos juros era algo já sepultado, eis que o zumbi se reergue da tumba. Que medo!

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31.03.20

O orçamento de guerra de Guedes e a relação com o Congresso

Termômetro

INSTITUCIONAL

O orçamento de guerra de Guedes e a relação com o Congresso

 

Em sua participação na coletiva de hoje, o recado mais importante do ministro Paulo Guedes foi: o governo gastará o que for necessário e ampliará o que já foi anunciado.

Ainda que haja uma série de questionamentos (os do setor de varejo se ampliarão, inclusive as reclamações sobre aumento de juros e retração de crédito bancário), Guedes começa a mostrar mudança definitiva de política, adotando, como se cobrava, a visão de “orçamento de guerra”. Essa abordagem deve se aprofundar nos próximos dias.

A questão ainda não equacionada é a velocidade dessa reação. O Congresso, sob a liderança de Rodrigo Maia, puxará por uma aceleração e ampliação rápida de gastos, a qual o ministro ainda resiste. Essa sintonia está longe de ser resolvida e pode gerar disputa de poder.

Um teste para isso, amanhã, será a negociação para PEC emergencial que determine fontes para os gastos sociais a serem implementados pelo governo federal. Outro virá da capacidade do ministério da economia em empenhar os valores em apoio aos trabalhadores informais.

POLÍTICA

Divórcio estratégico

 

Outro fator nessa equação virá de pronunciamento do presidente Bolsonaro, previsto para hoje à noite. 

Se ocorrer e confirmar a aposta em convocação à imediata retomada das atividades econômicas, sob a tese do isolamento vertical, definirá um divórcio – que cada vez mais parece proposital e parte de uma estratégia – entre as falas do presidente e as ações do seu próprio governo.

Na coletiva dos ministros hoje, por exemplo, Guedes e Moro deram declarações que contrariam o discurso do presidente ao mesmo tempo em que teceram elogios a ele – o mesmo fez o ministro Mandetta, cuja imagem continua a se fortalecer diante da opinião pública, mas sem os elogios.

A questão, no entanto, será a possibilidade de sustentar essa linha diante do aumento diário de casos e mortes na semana geradas pelo coronavírus. Hoje ambos os números trouxeram salto expressivo.

ECONOMIA

Começam a se multiplicar os indicadores pós coronavírus

 

Os indicadores previstos para amanhã podem ser divididos em dois grupos:

1) Os que, como a PNAD liberada hoje, darão a curva da economia brasileira pré coronavírus (a PNAD indicou que já era negativa no que toca ao desemprego), com destaque para a Produção Industrial de fevereiro (IBGE), para a qual se estima recuo importante.

2) Os que, referentes à março, mostrarão o impacto direto do vírus na economia: o Índice de Commodities do Banco Central (IC-Br); a Balança Comercial e a Venda de Veículos (Fenabrave). Já se conta, no mercado, com retração geral, capitaneada pelos dados do setor automotivo. A questão amanhã será se o grau dessa queda estará dentro do que se imagina ou acima, como foi o caso, por exemplo, nos primeiros dados de emprego para março divulgados nos EUA. Ainda nesta quarta, virá o IPC-S fechado de março (FGV), que deve confirmar aceleração nos alimentos.

No exterior, justamente, novos números para o mês serão divulgados amanhã, com destaque para os Empregos Privados nos EUA, que deve apresentar forte recuo (estima-se na casa de -150 mil empregos, pelo menos). Ainda para os EUA, o PMI (Markit) e o Índice ISM, ambos para a indústria e ambos com retração (maior, provavelmente, no ISM).

Também nesta quarta, saem o PMI Industrial da zona do Euro, da Alemanha, da França e da Itália, de março (maiores recuos devem ser na França e na Itália) e a taxa de desemprego de fevereiro, para a zona do Euro, que pode não trazer, ainda, os efeitos do coronavírus.

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27.03.20

Volatilidade nos mercados

Termômetro

ECONOMIA

Volatilidade nos mercados

Após semana de recuperação em mercados globais, em função sobretudo do pacote de estímulo de US$ 2 trilhões dos EUA (que foi assinado hoje pelo presidente Trump), a queda nessa sexta-feira indica que a próxima semana começará com maior volatilidade.

A injeção de recursos tende a servir como âncora para evitar o descontrole que marcou as semanas anteriores, quando houve a realização dos drásticos efeitos da pandemia do coronavírus na economia global. No Brasil, inclusive, as medidas de maior escopo começaram a ser anunciadas nos últimos dias  como o “coronavucher”, a liberação de R$ 40 bilhões em crédito para pequenas e médias empresas pelo BC e a própria declaração do ministro Guedes, afirmando que, no total, serão injetados R$ 700 bilhões na economia para mitigar os efeitos do vírus. Terão impacto positivo internamente, no início da semana que vem, especialmente se o dinheiro começar a fluir.

A maior instabilidade, no entanto, deve vir:

1) De dados mostrando os pesados efeitos econômicos já auferidos. Na segunda-feira, dentre outros indicadores, saem as Vendas Pendentes de Moradias nos EUA em fevereiro, que devem trazer forte queda. Na Europa, o Indicador de Confiança na Economia de março também deve vir muito negativo. No Brasil, a Sondagem de Serviços de março (FGV) deve trazer pesado recuo, o Boletim Focus apresentará nova queda em projeções do PIB e há ainda os Resultados do Tesouro de fevereiro.

A possibilidade de contraponto seria a indicação de alguma retomada na China, com o anúncio, segunda-feira, do PMI Industrial de março;

2) Do avanço do vírus na Europa e, possivelmente até mais, nos EUA, com destaque para Nova York.

No contexto geral, o que se aguardará com mais ansiedade serão os primeiros sinais claros de que a curva de contágio começa a se arrefecer na Europa, o que teria efeitos mais duradouros na bolsa, ainda que a depender da evolução da doença nos EUA no final de semana e início da semana que vem.

 

INSTITUCIONAL

Guerra declarada deve preservar a economia

No Brasil, nada indica o arrefecimento da guerra institucional capitaneada pelo presidente Bolsonaro, que buscará ampliar o apoio popular para um plano ainda não muito claro do chamado “isolamento vertical”. As medidas econômicas não devem ser afetadas – no máximo haverá cobrança por maior injeção de recursos da parte de governadores e Congresso.

Mas tanto politicamente quanto na Saúde, os atritos tendem a se proliferar pela divergência de diretrizes públicas pregadas entre o Planalto e diversos estados e municípios; pelo aumento de matérias de teor mais “pessoal” na mídia, com foco em dificuldades de médicos, hospitais e pacientes; e pela dificuldade que o ministro Mandetta terá para se equilibrar entre o presidente e os secretários estaduais de saúde.

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19.03.20

O presidente X o governo?

Termômetro

INSTITUCIONAL

O presidente X o governo?

 

Um fenômeno já em curso pode se consolidar nos próximos dias: o divórcio entre o presidente e os ministérios da Economia e da Saúde, os quais, nas próximas semanas –  talvez meses – serão o núcleo de enfrentamento ao coronavírus, e, paralelamente, o crescimento da liderança nacional dos governadores João Doria e Wilson Witzel, cujos estados (São Paulo e Rio de Janeiro) são, simultaneamente, os mais afetados e os mais mobilizados.

É o que projeta a reação do mercado, dos agentes produtivos e da opinião pública, hoje. Ainda que com diversos questionamentos e críticas, o Ministério da Economia começa a transmitir algum alento com medidas de estímulo e diálogo  ao menos aparente  com o Congresso.

ECONOMIA

Guedes, EUA e os Bancos Centrais

 

Para além das iniciativas em si, ganha mais força a percepção de que não se deixará o setor de serviços simplesmente quebrar, como indica, por exemplo, o compromisso em pagar os primeiros 15 dias de salários de trabalhadores que estiverem com a Covid-19. Essa imagem, longe de consolidada, precisará ser sustentada diariamente. E implicará um cavalo de pau na ortodoxia liberal do ministro Guedes. Mas criou-se um caminho.

Mais importante, no entanto, é o início mais efetivo de uma cooperação global, baseada nos bancos centrais e capitaneada pelo FED  que pode significar a injeção de até US$ 60 bilhões na economia brasileira. Os EUA parecem pôr em marcha um verdadeiro esforço de guerra, e esse movimento tem enorme poder de estímulo. Resta saber se o presidente Trump, que passou a contar com o apoio da oposição para seu plano emergencial, conseguirá conter a retórica e evitar conflito com a China. Que pode ser um ponto decisivo de apoio, não apenas econômico como, sobretudo, na área de saúde, pela experiência adquirida, capacidade de produção e pelo fato de que avança para o controle da epidemia em seu território.

Trata-se, no entanto, de um horizonte, que, se mantido, como tudo indica, vai diminuir o pânico generalizado. Mas não evitará forte volatilidade.

Nos próximos dias começarão a aumentar os dados e projeções econômicas que já evidenciam o impacto global do coronavírus na produção e nos serviços. Avançará o consenso em que o mundo  e o Brasil  passarão por recessão em 2020.

No pontual, destaque nesta sexta para a prévia da Sondagem da Indústria de março (FGV). Dados negativos não surpreenderão, mas a depender do grau podem ser um fator, secundário, de volatilidade.

PSICOSSOCIAL

A paralisação global e a curva do coronavírus

 

O cenário de saúde é impressionante, com estimativas de contaminação e mortes em escala inédita desde a Segunda Guerra Mundial, caso não sejam implementadas pesadas medidas de restrição à circulação de pessoas. Salvo a descoberta de uma vacina ou de um medicamento extremamente eficaz (possibilidade que começa a ganhar mais corpo com anúncio hoje de utilização de remédio contra a malária para o combate à Covid-19, nos EUA, mas cuja eficácia ainda parece limitada), o Brasil e o mundo vão evoluir, diariamente, para uma quase paralisação econômica. Rio e São Paulo vão, paulatinamente, fechar ou controlar duramente os shoppings, os transportes e todos os serviços não essenciais. Serão acompanhados por outros estados, mais cedo ou mais tarde. Lojistas já começam a pedir isenção de aluguéis, e esse processo tende a se aprofundar.

Além de tudo isso, o cenário de saúde apenas começa a se delinear. Crescerão amanhã, por exemplo, os questionamentos no Ministério da Saúde sobre a curva de contaminação no país, que, até o momento, pela velocidade, parece se aproximar mais dos países europeus do que dos modelos de sucesso asiáticos (como Coreia e Cingapura).

Ainda que as bolsas já precifiquem esse processo, novas quedas são dadas como certas.

POLÍTICA

Linha de confronto não será suficiente

 

É nesse contexto que o modelo de conflito permanente do presidente Bolsonaro encontrará um prazo de validade. Seria muito precipitado apostar em uma perda imediata de sustentação, já que ele mantém uma forte base de apoio. Se não mudar o estilo, no entanto, será engolido pelos acontecimentos, como ocorreu hoje com o deputado Eduardo Bolsonaro e suas críticas à China.

A politizarão da saúde, por exemplo, repetindo a prática de fritar um ministro em benefício de uma autoridade do setor próximo a ele – no caso o diretor da Anvisa – não tem chances de prosperar. Mas pode ser nova fonte de desgaste.

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06.03.20

Quando o PIB em alta rima com ajuste fiscal

Observatório

Por Isaak Kaleh, macroeconomista.

O que vem primeiro: o aquecimento do PIB ou o ajuste fiscal? Eu diria que os dois. Dependendo da intensidade, do projeto de Estado e do timing, ambos podem caminhar juntos. Para que o PIB retome o crescimento em marcha forçada, é preciso de investimento público. Com o PIB mais alto, sua relação com o déficit primário e a dívida pública bruta tende a ser mais amena. Mas não seria nenhuma trucagem. A ideia é avançar no ajuste e fazer as reformas; tudo dentro de um projeto de Estado, e não ao inverso, conforme diz o professor Roberto Mangabeira Unger.

Se o PIB é o núcleo da galáxia econômica, é preciso condicionar as metas fiscais a sua previsão de expansão, e, mais uma vez, não o contrário. Para lubrificar o crescimento com o investimento, os números fiscais poderiam cair menos drasticamente. A opção das datas de queda dos gastos públicos é um arbítrio do governo. Partem da premissa que a despoupança do Estado será compensada com recursos externos. Ocorre que mais de 80% do investimento direto estrangeiro são realizados em projetos maduros.

O greenfield fica a espera de quem o priorize. Em princípio seria o Estado, mas o setor público está amarrado pelo ajuste fiscal. E as reformas não visam gerar recursos para acelerar os investimentos e empurrar o PIB para cima. Esse trade off só existe por uma questão de escolha. Por exemplo: em vez da meta de um superávit primário em 2023 ou 2024, que se transfira o objetivo fiscal para 2026 ou 2027, e aumentem-se as aplicações em formação bruta do capital fixo. Com o Produto subindo, cairá a relação déficit e dívida/PIB.

Tudo bem, nada é óbvio nessa seara. De qualquer forma, é melhor voltar à boa e velha economia política: quando as opções buscam o equilíbrio entre o social e o financeiro. O Brasil do presente e dos últimos anos, infelizmente, fez escolhas radicais entre um e outro. O resultado está aí.

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04.03.20

O Canto do Cisne Verde

Observatório

Por Leonardo Braga, Capitão Submarinista da Marinha Brasileira.

A primeira vez que o jornalista Adam LeBor comentou com amigos que estava escrevendo um livro sobre o Bank for International Settlements (BIS), a pergunta foi: “Banco do quê?”. Se você está entre aqueles que fariam a mesma pergunta, não se sinta mal por isso. A despeito de ter exercido um papel fundamental na construção do sistema financeiro internacional e ter precedido instituições como o World Bank e o International Monetary Fund, o BIS é um ilustre incógnito. Conhecido entre os iniciados como o “Banco Central dos Bancos Centrais”, o BIS completa em 2020 oitenta anos de uma existência tortuosa, atormentada por laços com o Nazismo nas décadas de 30 e 40 e pelo risco de tornar-se irrelevante diante da ascensão de atores contemporâneos mais influentes.

LeBor, em seu livro “Tower of Basel” descreve o BIS como o clube de presidentes dos principais Bancos Centrais do mundo, que se estabeleceu como espaço de discussão privilegiado entre jantares soberbos, confidencialidade inescrutável e coordenação tácita e supracional – tudo isso sob a administração de tecnocratas muito bem pagos, que possuem na Suíça o mesmo status legal de diplomatas. Carola Westermeier em “The Bank of International Settlements as a think tank for financial policy-making” reafirma o papel complementar de think tank exercido pelo BIS, com sua pretensão (fundamentada) de subsidiar políticas públicas e orientar as estratégias dos grandes conglomerados financeiros. Dentro dessa pegada de think tank, o BIS publicou no mês passado um documento que deverá se tornar seminal nos próximos anos: “The Green Swan: Central banking and financial stability in the age of climate change”.

Ele trata do aquecimento global como ameaça à estabilidade do sistema financeiro internacional, propondo medidas mitigadoras e urgindo pela ampla e coordenada participação da sociedade na implementação das propostas. O documento se dirige principalmente aos Bancos Centrais, afirmando que, de um jeito ou de outro o problema vai cair no colo dessas instituições. Não é a primeira vez que o BIS faz isso. Num balanço de quase 10 anos da crise dos subprimes, Westermeier afirma que o BIS do pós-crise foi o pai da doutrina de medidas macroprudenciais, hoje consagrada como instrumento útil à manutenção da estabilidade dos sistemas diante do impacto de expansões ou retrações econômicas de vulto.

A expressão “Green Swan” (Cisne Verde) foi cunhada em analogia ao título do best seller “The Black Swan” de Nassim Nicholas Taleb (lançado no Brasil como “A Lógica do Cisne Negro”), obra em que o autor discute a inabilidade de seres humanos e suas instituições de prever (e obviamente se preparar para) eventos para os quais não existam precedentes e/ou que apresentem comportamento não linear (esses eventos seriam os chamados cisnes negros). O aquecimento global e suas consequências sobre a organização político-econômica do mundo são, pelos analistas do BIS, considerados tipos especiais de cisne negro, com uma distinção – nós sabemos que eles vão acontecer. Por outro lado, para Nouriel Roubini, em matéria recente no The Guardian, o aquecimento global não é um cisne negro – é um bom e óbvio cisne branco que o sistema financeiro insiste em ignorar.

Roubini está entre os poucos economistas que profetizaram a crise de 2008 e não está sozinho ao levantar suspeitas sobre as narrativas construídas em torno do assunto. Há rumores pela internet de que o BIS deseja mesmo é indicar previamente o culpado de uma crise financeira que já está a caminho, e que não tem correlação com choques externos. O que me parece é o seguinte: a cor do Cisne depende das lentes de quem olha. Mas o seu canto, por outro lado, é triste e esganiçado a qualquer ouvido atento.

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29.01.20

Bertrand Russel, Paulo Guedes e o dilema moral

Observatório

Coriolano Gatto, jornalista.

Ao completar 80 anos, o filósofo liberal Bertrand Russel foi perguntado por um ingênuo repórter sobre o que ele achava da data. Russell, um homem sarcástico, respondeu sem pestanejar: “Diante da alternativa, eu acho ótimo”. Ele morreria somente 17 anos depois, aos 97, em 1970. Era um ferrenho defensor das liberdades individuais tal como o economista Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Prêmio Nobel em 1976, o guru da Universidade de Chicago. O ministro Paulo Guedes jamais esquecerá o dia em que desafiou o velho mestre para um debate, em 1976. Nem o contínuo do templo do liberalismo levou-o a sério. Muito menos a secretária do grande mestre, perplexa com a ousadia do jovem de um país distante e de uma língua estranha. A ousadia do estudante é uma marca registrada do economista, que está longe de ter uma equipe com o intelecto do time da PUC-Rio e da USP no governo FHC.

Guedes sempre foi um franco atirador e se orgulha da origem humilde. Ele acha graça do comentário maldoso de César Maia, à época em que ambos se opuseram ao famigerado Plano Cruzado (1986, Governo governo Sarney) por motivações políticas diferentes. “O Paulo é um monetarista de babar na gravata”. Nesta época, a Hermès era a preferida dos jovens banqueiros. Custava 100 dólares. Este Esse mesmo economista, que trinta anos depois decretaria a “uberização” da política, em uma conversa informal no aeroporto de Congonhas, (SP), embarcaria na campanha de Jair Bolsonaro, após um namoro com a candidatura frustrada de Luciano Huck, em 2017, defendida pelo ex- presidente Fernando Henrique.

Pergunte a Paulo Guedes o modelo de político que ele abraçaria sem pestanejar por um segundo, tal como Bertrand Russell diante do início da fatalidade biológica: Margaret Thatcher (1925-2013), a dama de ferro da Inglaterra, e Felipe González (1944-), um social democrata que assume a bandeira liberal na Espanha nos anos 1980/1990. Como o ministro Sérgio Moro, Guedes suporta as idiossincrasias do Capitão por um projeto maior. Como Russell, ele sabe que a alternativa é a desorganização da economia e, com ela, a volta de um projeto de esquerda (PT, PSOL). Ele manterá todas as suas incongruências acadêmicas (“às favas com os escrúpulos”, como diria o coronel Jarbas Passarinho, por ocasião do AI-5, em 1968) com vistas a seguir um projeto falsamente liberal. Com a liberação de FGTS, o aumento do salário mínimo e sem algazarra tributária.

Guedes se mantém no cargo menos por uma convicção ideológica, e sim pelo pragmatismo, perpetrado por alguns personagens de Liev Tolstói, no romance psicológico seminal “Anna Kariênina”. Aproxima-se de vários deles, mas o Paulo Guedes, que já teve pretensões acadêmicas, gostaria de ser identificado com o protagonista Liévin, um homem obsessivo que busca a verdade e no fim chega à desoladora conclusão de nada haver solucionado, como aponta a brilhante tradução de Rubens Figueiredo, na edição COSACNAIFYCosac Naify. Guedes enfrenta o mesmo dilema: entre agradar o populismo de direita de Bolsonaro, rasgando os corolários do liberalismo, que sempre lhe foi caro. Ser um neokeynesiano, para evitar o voo da galinha da economia, soa como um pecado imperdoável como a heroína de Tolstói, Anna.

Guedes vive o dilema de Liévin. Ex-banker, Guedes age como uma versão moderna do bucanneiro: sabe a hora certa do ataque e o momento correto do recuo. Joga pôquer no melhor estilo do stick. O Guedes lembra os velhos tempos de trader, em que acertou apostas contra o Cruzado e outrosplanos heterodoxos e errou no Lula 1, em 2003, como relatou um amigo de Chicago. Agora, ele quer jogar no lixo as velhas convicções do Chicago boy. Hoje tem 70 anos e jamais repetiria a cena em que ousou enfrentar Milton Friedman. E trocou Huck por Bolsonaro. Publicado originalmente no Observatório RR, que reúne notas técnicas sobre temas variados.

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28.01.20

A depreciação como motor da economia brasileira?

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior.

Evidentemente que os ativos e a riqueza de qualquer país, medidos em dólar, sofrem depreciação na razão direta da perda de valor da sua moeda. Até aí, do conjunto dos efeitos, um seria salutar: os produtos produzidos ficam mais competitivos e nova escala poderia ser alcançada, gerando maior faturamento e geração de caixa para as empresas em suas vendas aos mercados interno e externo, com a ressalva de que isso é absolutamente verdadeiro para os segmentos que não usam insumos importados, majorados pela desvalorização da respectiva moeda nacional. Vamos ao Brasil. Com a demanda interna debilitada pelo alto desemprego, alto endividamento das famílias e milhares sem acesso ao crédito por estarem bloqueados, o setor externo seria o segmento de resposta mais rápida e de escala ilimitada, teoricamente. Analisando as exportações brasileiras por segmento nos os últimos 12 anos, salta aos olhos que o crescimento de 13% da receita com vendas externas, assim como a participação setorial, nos indica que não teremos um impulso de vendas externas pelo motor da depreciação cambial.

Cerca de 49% das exportações brasileiras são de produtos de baixo valor agregado, e mesmo em alguns setores, como a soja, por exemplo, o país vem exportando maior valor de produto in natura que os processados, seja farelo ou óleo. O efeito da depreciação cambial sobre reorganização de setores industriais sem expressiva e tradicional participação em mercados internacionais é possível, mas demandam ciclo de investimento e outras condicionantes de prazos longos, acima de três anos. Pelo lado das commodities, o incentivo da depreciação cambial é imediato, isso quando não promove pressão baixista sobre as cotações internacionais, como foi o caso do café, que responde por 2,3% do valor global das vendas externas brasileiras.

Nos setores de maior valor agregado e com matriz insumo-produto mais sofisticada, a participação do Brasil deixa a desejar, e além desses setores revelarem perda de vitalidade no período de 12 anos considerado acima. Metalúrgico, indústria química, máquinas e instrumentos mecânicos, material eletrônico e material de transporte e componentes não vêm apresentando trajetória dinâmica no mercado externo, e o efeito cambial será incentivo de curso longo. Caso a opção de política pública seja, ao que parece deixar os fatores de produção e a suposta competitividade brasileira ser a matriz espontânea da expansão das nossas exportações, brasileiras teremos anos à frente de mais do mesmo: o setor externo não será nos próximos anos um polo importante no crescimento econômico do Brasil.

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27.01.20

O dólar furado

Observatório

Por Frank Geyer Abubakir, empresário.

Eu sou frequentemente perguntado se o dólar em R$ 4 é bom para as grandes empresas brasileiras. Tenho a percepção de que há uma dose de esoterismo nesse debate. É como se fosse uma tentativa de buscar uma relação entre as moedas, o que não faz sentido para o chão da fábrica. A cotação do dólar deve estar ligada diretamente aos custos de produção. É fácil de entender: se a nossa energia for quatro vezes mais cara e a nossa burocracia custar quatro vezes mais, se comparadas a países competitivos, a nossa moeda precisa valer muito menos. Isso porque precisamos compensar os custos mais altos para vender os nossos produtos no exterior. O câmbio, gostemos ou não, deve estar atrelado à nossa realidade para que possamos gerar mais empregos, especialmente no momento em que a taxa de desemprego ainda é muito elevada. Câmbio mais baixo – ou apreciado, como dizem os economistas – dá uma sensação de consumo em alta, como ocorreu até meados de 2013, mas no médio prazo é bom para uma minoria. Faça chuva ou faça sol, esses privilegiados sempre ganham muito dinheiro, enquanto muitos perdem os seus empregos, sobretudo na indústria. Dólar baixo lembra o faroeste “O Dólar Furado”, estrelado, em 1965, pelo ator Giuliano Gemma, que interpretou um soldado que retorna da guerra para lutar uma outra em casa. Sem que ele soubesse, seu irmão transformou-se num pistoleiro infame chamado Black Jack, que derrota os criminosos locais. Portanto, dólar baixinho é uma grande furada, um devorador de vidas, como no filme.

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