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20.11.19

Islândia x Dinamarca: uma animada disputa pela posse de manuscritos sobre a Era Viking sacode a mansidão das terras escandinavas.

Observatório

Por Márcio Scalercio, historiador e professor de Relações Internacionais na PUC-Rio.

Ninguém em nossos dias espera que nada de muito ruidoso ou violento aconteça nas terras escandinavas. Porém, as relações entre a Islândia e o reino da Dinamarca andam estremecidas por causa da disputa pela posse de uma coleção de manuscritos medievais sobre a Era Viking, (século VIII – século XI). A coleção de preciosos manuscritos medievais relata histórias de reis, de deuses nórdicos, bem como narra raids audaciosos levados a cabo por expedições vikings. Os manuscritos foram descobertos na Islândia no século XVIII por um pesquisador islandês que trabalhava na Universidade de Copenhagen, Arni Magnuson.

O estudioso reuniu o material descoberto e levou tudo para a Dinamarca. A Islândia era uma possessão do reino dinamarquês desde o século XVII, alcançado a autonomia nacional em 1944. Segundo a UNESCO, a coleção de manuscritos, denominada “Arnamagnaean Collection”, reúne o mais importante conjunto de documentos que existe sobre a Escandinávia antiga. Os mais remotos são datados do século XII. Alguns dos documentos foram devolvidos a Reykjavik, mas 1.400 deles continuam na Dinamarca. No total, Magnuson, que era um historiador especialista em literatura e linguagem, encontrou mais de 3.000 manuscritos. Ainda que possamos nos contentar com o evidente valor histórico da coleção, nada como avaliar em termos do vil metal para que saibamos exatamente do que estamos falando. Vez por outra, a Universidade de Copenhagen empresta documentos da coleção para que sejam exibidos em exposições pelo mundo afora.

Para isso, é necessário fazer o seguro do material. Cada um dos documentos foi avaliado em 740 mil dólares dos Estados Unidos. Desde a independência nacional, a Islândia tem insistido com a Dinamarca em “repatriar” a coleção. Consideram os documentos patrimônio histórico nacional. Os dinamarqueses, por seu lado, entendem que aquela é uma herança compartilhada dos dois povos e lembram que cuidam dos documentos muito bem, obrigado. Mas na década de 60 foram assinados acordos que permitiram que parte da coleção fosse transferida para os islandeses. Isso ocorreu entre os anos de 1971 e 1977. Mas agora, os islandeses afirmam que querem a posse do lote todo. São relíquias do patrimônio histórico islandês, indevidamente retiradas da ilha.

Os dinamarqueses, por seu turno, afirmam que muitas das sagas relatadas naqueles documentos, referem-se a reis e navegadores da Dinamarca, e que os skalds (termo nórdico para designar “poetas”) que as relataram eram naturais da velha Dinamarca. Ademais, caso Magnuson não tivesse levado a coleção para Copenhagen, é muito provável que o material não tivesse sido devidamente conservado. A disputa continua. Os argumentos de parte a parte cruzam o Atlântico sem parar. Imaginamos que se as coisas ocorressem nos velhos tempos da Era Viking, os islandeses, diante da resistência dos rivais, já estariam preparando os navios e reunindo as tripulações. Um raid poderia resolver o problema. Ao mesmo tempo, um rei viking da Dinamarca, indignado com a interminável arenga islandesa, poderia numa tarde brumosa acercar-se da praia e bradar com sua voz rouca: “se querem tanto o calhamaço, que tal virem buscar, se tiverem coragem!” Dito isso, buscaria um lugar abrigado do vento e esperaria pelos acontecimentos amolando a lâmina de seu machado.

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