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04.03.20

O Canto do Cisne Verde

Observatório

Por Leonardo Braga, Capitão Submarinista da Marinha Brasileira.

A primeira vez que o jornalista Adam LeBor comentou com amigos que estava escrevendo um livro sobre o Bank for International Settlements (BIS), a pergunta foi: “Banco do quê?”. Se você está entre aqueles que fariam a mesma pergunta, não se sinta mal por isso. A despeito de ter exercido um papel fundamental na construção do sistema financeiro internacional e ter precedido instituições como o World Bank e o International Monetary Fund, o BIS é um ilustre incógnito. Conhecido entre os iniciados como o “Banco Central dos Bancos Centrais”, o BIS completa em 2020 oitenta anos de uma existência tortuosa, atormentada por laços com o Nazismo nas décadas de 30 e 40 e pelo risco de tornar-se irrelevante diante da ascensão de atores contemporâneos mais influentes.

LeBor, em seu livro “Tower of Basel” descreve o BIS como o clube de presidentes dos principais Bancos Centrais do mundo, que se estabeleceu como espaço de discussão privilegiado entre jantares soberbos, confidencialidade inescrutável e coordenação tácita e supracional – tudo isso sob a administração de tecnocratas muito bem pagos, que possuem na Suíça o mesmo status legal de diplomatas. Carola Westermeier em “The Bank of International Settlements as a think tank for financial policy-making” reafirma o papel complementar de think tank exercido pelo BIS, com sua pretensão (fundamentada) de subsidiar políticas públicas e orientar as estratégias dos grandes conglomerados financeiros. Dentro dessa pegada de think tank, o BIS publicou no mês passado um documento que deverá se tornar seminal nos próximos anos: “The Green Swan: Central banking and financial stability in the age of climate change”.

Ele trata do aquecimento global como ameaça à estabilidade do sistema financeiro internacional, propondo medidas mitigadoras e urgindo pela ampla e coordenada participação da sociedade na implementação das propostas. O documento se dirige principalmente aos Bancos Centrais, afirmando que, de um jeito ou de outro o problema vai cair no colo dessas instituições. Não é a primeira vez que o BIS faz isso. Num balanço de quase 10 anos da crise dos subprimes, Westermeier afirma que o BIS do pós-crise foi o pai da doutrina de medidas macroprudenciais, hoje consagrada como instrumento útil à manutenção da estabilidade dos sistemas diante do impacto de expansões ou retrações econômicas de vulto.

A expressão “Green Swan” (Cisne Verde) foi cunhada em analogia ao título do best seller “The Black Swan” de Nassim Nicholas Taleb (lançado no Brasil como “A Lógica do Cisne Negro”), obra em que o autor discute a inabilidade de seres humanos e suas instituições de prever (e obviamente se preparar para) eventos para os quais não existam precedentes e/ou que apresentem comportamento não linear (esses eventos seriam os chamados cisnes negros). O aquecimento global e suas consequências sobre a organização político-econômica do mundo são, pelos analistas do BIS, considerados tipos especiais de cisne negro, com uma distinção – nós sabemos que eles vão acontecer. Por outro lado, para Nouriel Roubini, em matéria recente no The Guardian, o aquecimento global não é um cisne negro – é um bom e óbvio cisne branco que o sistema financeiro insiste em ignorar.

Roubini está entre os poucos economistas que profetizaram a crise de 2008 e não está sozinho ao levantar suspeitas sobre as narrativas construídas em torno do assunto. Há rumores pela internet de que o BIS deseja mesmo é indicar previamente o culpado de uma crise financeira que já está a caminho, e que não tem correlação com choques externos. O que me parece é o seguinte: a cor do Cisne depende das lentes de quem olha. Mas o seu canto, por outro lado, é triste e esganiçado a qualquer ouvido atento.

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