fbpx

Atenção!

As notícias abaixo são de edições passadas.

Para ter acesso ao nosso conteúdo exclusivo, assine o RR.

planos
13.09.21

Embaixador-adviser

Segundo o RR apurou, o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Scioli, tem mantido contatos diretos com indústrias do setor de laticínios, sobre-tudo no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Está pavimentando o caminho para a entrada de empresas argentinas no Brasil, por meio de aquisições.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

16.07.21

Efeito cascata

Grandes produtores de soja já trabalham com a estimativa de aumento dos preços em até 10% no mercado interno nos próximos dois meses. O motivo é o aumento das exportações para a Argentina, que enfrenta uma quebra de safra da commodity.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

09.02.21

Um aceno diplomático à Argentina

A diplomacia bolsonarista parece viver um raro momento em que a ideologia abre brechas para o pragmatismo. Além dos acenos à China, motivados pela necessidade de importação da Coronavac, o governo brasileiro tem feito movimentos de aproximação com a Argentina. Há dois interesses prioritários sobre a mesa. O mais premente é garantir a continuidade do acordo de fornecimento de energia da Compañía Administradora del Mercado Mayorista Eléctrico (Cammesa) para o Brasil. Nos últimos dias, a Cammesa vem reduzido o suprimento do insumo para o lado de cá da fronteira por conta do aumento da demanda doméstica na Argentina. Em outro front, o governo brasileiro vislumbra espaço para a exportação de veículos militares blindados produzidos pela Iveco. No vácuo deixado por Ernesto Araújo, o chanceler invisível, quem vem ganhando espaço na interlocução com a Argentina é o almirante Flavio Rocha, secretário de Assuntos Estratégicos do Palácio do Planalto. Rocha esteve recentemente com o presidente Alberto Fernández. Tem mantido também contato regular com o embaixador argentino em Brasília, Daniel Sciol.

Em tempo: num sinal de boa vizinhança, nos últimos dias o governo brasileiro liberou a exportação para a Argentina de 1,5 milhão de doses do medicamento Midazolam, usado como indutor de sono em pacientes com Covid-19.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

26.01.21

Uma política anti-Argentina?

Mais uma rusga diplomática entre Brasil e Argentina: o governo de Alberto Fernández fez chegar ao Itamaraty seu descontentamento com o decreto assinado por Jair Bolsonaro, fixando em 750 mil toneladas anuais o volume de trigo que o Brasil poderá importar de qualquer país de fora do Mercosul com isenção tributária. Os argentinos, que exportam cerca de cinco milhões de toneladas para o mercado brasileiro por ano, são potencialmente os principais prejudicados pela medida. Eles temem perder espaço para países como Estados Unidos e Canadá. E daí?

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

14.08.20

O Rio Paraguai virou sertão

As autoridades do setor elétrico do Brasil, Argentina e Paraguai discutem o aumento temporário da vazão das hidrelétricas no Cone Sul, na tentativa de facilitar o tráfego de barcaças no Rio Paraguai. Há praticamente um apagão no transporte fluvial de grãos na  região, onde a navegação de cabotagem sofre os efeitos da pior seca nos últimos 40 anos. Há mais de cem mil toneladas de carga paradas em portos ao longo do rio, devido à falta de navegabilidade. Estima-se que as perdas para os agricultores já esteja na casa dos US$ 30 milhões. Com viés de alta.

O problema não atinge apenas o agronegócio. No Porto de Ladário, há cerca de 1 milhão de toneladas minério de ferro da Vale paradas, esperando o embarque para a Argentina.

Aliás, a seca na região descortinou outro problema: o aumento do número de barcos com produtos contrabandeados que foram “naufragados” propositadamente, para evitar o flagrante da Polícia Federal.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

Os olhares se voltarão, amanhã, para a pauta do ministro Paulo Guedes no Fórum Econômico Mundial, em Davos, no qual será o representante do governo brasileiro, após confirmação de que o presidente Bolsonaro não comparecerá. Ministro terá – e deve aproveitar – espaço para valorizar resultados de 2019 e detalhar objetivos para 2020, com ênfase na atração de investimentos estrangeiros.

De negativo, ainda que em termos pontuais, possíveis questionamentos sobre denúncia apresentada pelo MPF contra Esteves Colnago, assessor do ministro.

A indústria e uma nova rodada de balanços da economia

Paralelamente, o dia será marcado por nova leva de análises e projeções, após resultados abaixo do esperado para a produção industrial de dezembro. Em destaque a percepção de que o cenário externo apresenta dificuldades para o Brasil, particularmente no que se refere à crise na Argentina.

Autonomia do Banco Central em foco

Declarações do presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, hoje, expondo autonomia da instituição, com prioridade para o primeiro trimestre de 2020, causará efeito duplo, amanhã: a) Animará o mercado e parte dos analistas; b) Tende a movimentar o Parlamento, particularmente o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que já demonstrou interesse de ser “patrono” da medida, como foi da reforma da Previdência.

Nesse contexto, interessa monitorar, nesta sexta, manifestações da equipe econômica e do presidente Bolsonaro acerca do tema. Autonomia do BC pode se tornar pauta central para o governo, como maneira de mostrar compromisso com liberalização da economia em projeto de mais fácil aprovação do que reformas como a tributária e a administrativa.

Cobranças ao MEC

Serão repostas amanhã – e provavelmente aprofundadas – as cobranças ao ministro Weintraub sobre o planejamento para 2020. Entrevista coletiva de hoje não foi bem recebida, particularmente no que se refere à possibilidade de que o MEC retome do zero a tramitação no Congresso de proposta para o Fundeb, principal mecanismo de financiamento da educação básica.

Pressão por reajustes

Pode ganhar corpo, amanhã, com multiplicação de manifestações na mídia, a pressão de grupos de servidores públicos, particularmente na área de segurança – base de apoio do presidente Bolsonaro – por reajustes em 2020. Aceno do presidente para policiais do Distrito Federal e aumento concedido a policiais federais pelo Ministério da Justiça são estopins.

A lentidão no INSS

Dificuldades do governo para diminuir o tempo de resposta na concessão de benefícios do INSS se mantém no noticiário e causará desgaste ao governo, amanhã, ainda que sem impacto grave. Alimentará, no entanto, imagem de que equipe econômica estabelece metas muitas vezes de caráter mais retórico do que factível.

A PGR e o Juiz de Garantias

A proposta apresentada hoje pela Procuradoria Geral da República, defendendo que o Juiz de Garantias seja implantado apenas para casos futuros, conduzirá a o debate sobre o tema, amanhã.

A inflação em 2019

Destaque amanhã para o IPCA de dezembro, fechando a inflação de 2019. Apesar de trajetória recente de alta, índices para a última semana de dezembro (como o IPC S, da FGV), indicaram queda na curva inflacionária, com interrupção do forte crescimento nos preços da carne. A conferir, amanhã, não apenas os números fechados (que de toda forma ficarão abaixo da meta), mas tendência em curso e os prognósticos para 2020. E, especificamente, inflação para faixas de baixa renda e impacto na cesta básica, já discutido hoje.

Trump se fortalece, mas novos ataques não estão descartados

A cada dia que passa sem que o Irã realize ataque de impacto contra os EUA e seus aliados – com baixas humanas ou estruturais de largo escopo – se ampliará imagem de que Trump fortaleceu os EUA, geopoliticamente, e ganhou trunfo no processo eleitoral.

O país persa ainda pode sofrer duro golpe amanhã com hipótese, que parece cada vez mais provável após vídeo divulgado pelo New York Times, de que o avião comercial que caiu no início da semana tenha sido alvejado por míssil iraniano. Se o fato for confirmado, tende a ser encarado pelos EUA como um erro operacional e não como retaliação. Mas provocará condenação da comunidade internacional e enfraquecerá movimentações da oposição democrata. Reversão do cenário só ocorreria diante de ataque iraniano de maiores dimensões.

A realidade do Brexit

No cenário internacional, também terá destaque, amanhã, o panorama pós-Brexit. A saída do Reino Unido da União Europeia foi, finalmente, aprovada hoje por larga margem no Parlamento britânico. O primeiro ministro Boris Johnson sairá muito fortalecido.

Emprego nos EUA

No exterior, vale atenção para o Relatório de Emprego Não Agrícola e a Taxa de Desemprego nos EUA, em dezembro. Projeções de criação de 164 mil empregos ficam abaixo de números muito fortes de novembro (266 mil), mas mantém trajetória constante de alta na economia norte-americana. Já a taxa de desemprego deve continuar em patamar muito baixo, estável em 3,5% ou com leve oscilação, para 3,6%.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

Terão força, amanhã, avaliações de cenário e questionamentos ao governo quanto à atitude frente ao Irã. Consequências diplomáticas de apoio explícito à posição norte-americana (a encarregada de negócios do Brasil em Teerã foi convocada pelo governo iraniano) já levaram a críticas. E alimentam preocupação quanto a perdas comerciais, bem como a desgaste político internacional – sem contrapartidas positivas.

Há expectativa de que prevaleça a “ala pragmática” da gestão federal, nesta quarta, mas, dado o alinhamento do presidente com os EUA e, até mais, o histórico recente do Itamaraty, não se pode bater o martelo – longe disso.

O equilíbrio delicado frente à alta do petróleo

Pauta ligada a possíveis iniciativas do governo federal para mitigar efeitos da alta do petróleo se manterá amanhã, alimentada por dois fatores:

1) Possibilidade de criação de fundo que amortize flutuações, aventado pelo ministro de Minas e Energia. Medida tem certa aceitação da mídia e de analistas econômicos, conceitualmente, mas enfrenta resistências pela situação de restrições orçamentárias.

2) Ideia de redução de ICMS cobrado por estados, de forma a reduzir o custo da gasolina para o consumidor. É viés que encontra muito mais resistências, tanto do mercado quanto dos próprios governadores. Se o presidente Bolsonaro insistir no tema, pode angariar apoio setorial – como de caminhoneiros –, mas sofrerá desgaste significativo.

O governo erra a mão na energia solar

Já no que se refere à energia solar, linha adotada hoje pelo presidente Bolsonaro, “enterrando” possibilidade de taxação do setor, em estudo pela Aneel, favorece imagem de intervenção e levará a análises negativas, amanhã. Linha de analistas, que oscilava, deve pender para críticas ao presidente e temor de que esteja cedendo a grupos de interesse, em detrimento da independência de agências reguladoras.

A inflação em janeiro: primeiros sinais

Sai amanhã o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola e o Prognóstico da Safra 2020, do IBGE, e o IPC S para a primeira semana de janeiro, da FGV. A conferir se o prognóstico do IBGE confirma dados de dezembro, que indicaram revisão para cima, puxada por forte aumento da produção de soja (6,7% sobre 2019). Em relação ao IPC S, interessa verificar se mantém-se a tendência de desaceleração detectada no final de 2019.

Os EUA, a China e a Argentina: do emprego à inflação

Internacionalmente, destaque para:

  1. a) A Variação de Empregos Não Agrícolas do Setor Privado em dezembro, nos EUA, para a qual se projeta forte avanço, com 160 mil postos de trabalho criados após resultados muito aquém do esperado em novembro (67 mil);
  2. b) A produção industrial de novembro na Argentina, que deve apresentar novo recuo, da ordem de 2,9%. Crise no país vizinho não dá sinais de arrefecimento;
  3. c) Índice de Preços ao Consumidor da China em dezembro. Estima-se número próximo da estabilidade, em torno de 4,7% frente a 4,5% em novembro.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

Com a perda de tração do noticiário do Congresso e de fatos novos na economia no final de ano, haverá, nos próximos dias, início de balanço do primeiro ano do governo Bolsonaro. Nesse âmbito, estarão em foco:

1) Novo embate gerado por investigações – e pesadas acusações – contra o senador Flávio Bolsonaro. Linha adotada tanto pelo senador quanto pelo próprio presidente indicam que caminho adotado, a exemplo do que ocorreu em episódios anteriores, menos graves, será o confronto. Pode-se antecipar, nos próximos dias, novas críticas à Justiça, à Imprensa e ao governador Wilson Witzel

2) Paralelamente, tudo indica que se aprofundará o desgaste e a dissociação entre Flávio e o governo Bolsonaro, na visão de apoiadores. É o que já se percebe em redes sociais, sempre um importante termômetro para o atual governo. Explicação de PM afirmando não se lembrar de quando recebeu de volta R$ 16 mil reais de conta que pagou para o senador terá reflexos negativos, amanhã.

Indícios são de que Flávio não terá a mesma resiliência de imagem que o pai e enfrentará dificuldades para reagir, nos próximos dias. E não se pode descartar o aprofundamento de associação do senador com grupos ligados a milícias.

3) A pesquisa Ibope indicando separação crescente da curva de aprovação (29%) e desaprovação (38%) do governo vai alimentar ilações, amanhã. Retomarão fôlego as especulações sobre possíveis adversários no campo da direita ou centro-direita. Nesse sentido, o ministro Moro estará em foco – tanto como potencial concorrente quanto no que se refere à relação pessoal com o presidente. Mas haverá, também, avaliação de que força de Bolsonaro junto a um eleitorado fiel e muito mobilizado se mantém.

4) Assim como o ministro Moro, estará em alta o ministro Paulo Guedes, que tende a ser apontado como o grande fiador do apoio empresarial ao governo. Preço da carne, responsável pela rápida aceleração da inflação no final de ano, terá espaço amanhã, mas tendência predominante será de avaliações otimistas sobre a recuperação econômica.

Nesse sentido, é provável que proliferem, no final de semana, análises e antecipações sobre agenda da equipe econômica para 2020, que irão desde maior velocidade em privatizações a autonomia do Banco Central, passando por debate sobre novas reformas. Particularmente a tributária. Nesse campo, o Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, trará para si a valorização de projeto conjunto que começa a tomar forma, em parceria com a Câmara e o governo.

Mas novo imposto aventado pelo ministro Guedes, sobre transações digitais, deve ser abortado antes mesmo de qualquer apresentação formal, já nos próximos dias, dado a resistência do Congresso.

A taxação do aço

Haverá destaque – e questionamentos – amanhã para anúncio do presidente Bolsonaro, no final da tarde de hoje, de que os Estados Unidos não taxarão o aço e o alumínio brasileiros. Se houver confirmação do governo norte-americano, repercussão será positiva. Mas momento de pressão na mídia, em função de acusações a Flávio Bolsonaro e da própria reação agressiva do presidente, torna mais difícil que capitalize vitórias comerciais e econômicas.

A reeleição no Senado e na Câmara

Tende a aumentar a atenção, no final de semana, para movimentações do presidente do Senado – e, mais discretamente, do da Câmara – por emenda que permita a reeleição para o comando das Casas na mesma legislatura. Vale atenção para o grau de resistência que a proposta levantará na opinião pública e na mídia.

Meio ambiente: queimadas e vazamentos

Na área ambiental, devem estar em foco amanhã o indiciamento de brigadistas em Alter do Chão, vista negativamente pela mídia, por aparente falta de provas, e o forte aumento nos vazamentos de óleo em 2019 – volume foi superior ao acumulado dos últimos sete anos.

Pagamento do Bolsa Família

É improvável que governo não pague parcelas do Bolsa Família de dezembro, contudo, buraco de cerca de R$ 1 bilhão no orçamento do programa vai gerar cobranças, amanhã.

Finalmente, o Brexit

Aprovação da Lei de Acordo de Saída da União Europeia no Parlamento Britânico, que basicamente garante o Brexit, levará a mapeamento de consequências do processo, amanhã. Iniciativa se arrasta há tanto tempo que já foi precificada pelo mercado, mas ainda pode gerar alguma turbulência em mercados, na segunda-feira.

Estados Unidos e Argentina

No que se refere a indicadores internacionais, saem na próxima segunda feira: 1) O Núcleo de Pedidos de Bens Duráveis dos EUA em novembro, para o qual se projeta crescimento menor que o registrado em outubro (entre 0,1 e 0,2% contra 0,6%); 2) A Venda de Casas Novas dos EUA em novembro, com estimativas de nova queda significativa (–0,5% após –0,7% em outubro); 3) A Atividade Econômica da Argentina em outubro. Previsões indicam piora em cenário já negativo (retração de 3%, que se sobrepõe a recuo de 2,1% em setembro).

 

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

17.12.19

Alberto presidenta: o peronismo está de volta

Observatório

Por Aline Gatto Boueri, Jornalista e correspondente em Buenos Aires desde 2009.

“Durante quatro anos ouvimos que nós não voltaríamos mais. Mas nesta noite estamos de volta e vamos ser mulheres, melhores.” Esta foi a última frase antes do “muchas gracias” do discurso que o presidente argentino Alberto Fernández fez sobre um palco montado em frente à Casa Rosada na noite do dia 10 de dezembro de 2019, quando assumiu o comando da Argentina. No momento do ato falho, ao seu lado estava Cristina Kirchner, que também olhava para a multidão que tomava conta da Praça de Maio e de suas imediações, cobrindo de bandeiras vários quarteirões em direção à Praça Congresso.

A vice-presidente eleita quatro anos depois de deixar o governo foi pouco explorada durante a campanha, mas sem ela a campanha nunca teria existido. Articuladora da unidade de diferentes setores do peronismo, que em 2017 – separados – sofreram uma derrota contundente nas eleições legislativas.  Naquele ano, a coalizão política da Mauricio Macri venceu em 13 das 24 províncias da Argentina, entre elas os distritos eleitorais mais importantes do país: as províncias de Buenos Aires, Cordoba, Santa Fe e Mendoza, além da cidade de Buenos Aires, capital do país.

Dois anos depois, Cristina Kirchner voltava a discursar em uma Praça de Maio que transbordava peronismo. Com um calor de 35 graus, muitas pessoas decidiram se refrescar nos chafarizes e deram vida a uma imagem icônica: a de 17 de outubro de 1945, quando uma enorme passeata saiu dos bairros populares para exigir a liberdade de Juan Domingo Perón, que estava preso. Naquela tarde de primavera, com os pés nos chafarizes depois de horas de caminhada, os peronistas fundaram o peronismo. Em 2019, pela primeira vez na história da Argentina, a oferta eleitoral para o Congresso foi paritária. Aprovada em 2017 e regulamentada em março de 2019, a lei de paridade de gênero em âmbitos de representação política indica que nas listas que as coalizões devem apresentar para cargos legislativos nacionais os nomes de homens e de mulheres devem aparecer de maneira intercalada e sequencial.

O Congresso argentino, no entanto, não chegou a ser paritário depois das eleições. A lei vale para a oferta eleitoral, mas o sistema de listas e os arranjos com homens à frente delas faz com que não haja garantia de que a ocupação dos cargos seja também paritária. No período 2019-2021, mulheres serão 41% na Câmara de Deputados e 40% Senado. Para cargos Executivos não existe obrigação de paridade e todos os candidatos à presidência na Argentina em 2019 eram homens. Apesar de não haver conquistado a paridade nos cargos eletivos, a Argentina tem um Congresso com muito mais mulheres que o Brasil, onde elas são 15% na Câmara e 16% no Senado.

Mauricio Macri abriu o ano legislativo de 2018 com uma recomendação para que o Congresso tratasse a legalização do aborto. Aprovado na Câmara de Deputados em junho, o projeto foi rejeitado pelo Senado em agosto. No mês seguinte, o Ministério de Saúde foi rebaixado a Secretaria, junto a outras sete pastas com o argumento de ajuste fiscal. Com base em dados produzidos pela pasta que comandava sobre mortes por aborto clandestino, o então ministro, Adolfo Rubinstein, havia defendido a legalização da interrupção voluntária da gravidez. Já nos últimos meses de seu mandato, assediado por uma derrota que se mostrava cada vez mais inevitável, Macri declarou mais de uma vez que era contrário à mudança na legislação.

A estratégia de endurecer o discurso para tentar reverter a perda de votos funcionou – Macri teve 8% a mais de votos em relação às primárias de agosto de 2019 –, mas não foi suficiente.  Para reforçar de cara sua posição à nova tarefa de opositor, duas semanas antes de deixar a Casa Rosada Macri anulou por decreto a atualização do protocolo de atendimento para abortos não puníveis, publicado pelo secretário de Saúde dois dias antes. O material havia sido publicado por Rubinstein dois dias antes e é um guia do passo a passo a ser seguido por profissionais da saúde para os casos de aborto já previstos pelo Código Penal argentino, como gestações ocasionadas por estupro ou risco de vida para a mãe. O secretário de saúde renunciou ao cargo em seguida.  Já Alberto Fernández promoveu a Secretaria da Saúde a Ministério outra vez e nomeou Ginés González García, primeiro nome confirmado pelo peronista, uma semana antes da posse.

O médico sanitarista já havia ocupado o cargo, entre 2002 e 2007, durante o governo de Néstor Kirchner, de quem o hoje presidente foi Chefe de Gabinete. Favorável à legalização do aborto, o primeiro anúncio do ministro foi a atualização do protocolo que Macri anulou. Rubinstein havia deixado a bola quicando. Alberto Fernández fez o gol. Movimentos feministas consolidados quatro anos após a primeira marcha do Ni Una Menos – em denúncia à omissão do Estado sobre os índices de feminicídios e violência machista – articularam suas demandas com pautas como a redução da pobreza e da desigualdade, geração de emprego de qualidade, promoção da saúde e da educação. Durante a festa da posse na Praça de Maio, que durou o dia inteiro, ouvia-se gritos entre risos de “Alberto Presidenta”.

O recém-empossado presidente argentino criou também o Ministério da Mulher, Gênero e Diversidade, que vai estar sob o comando de uma advogada que trabalha com direitos humanos e é defensora de Milagro Sala, líder política da organização Tupac Amaru, no estado de Jujuy, que está presa desde janeiro de 2016. Elizabeth Gómez Alcorta, a nova ministra, é também uma jovem militante popular e membro do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), fundado durante a última ditadura (1976-1983) com foco na busca de justiça para as vítimas do terrorismo de Estado na Argentina. A centralidade política das demandas feministas na Argentina hoje e sua capacidade de mobilizar as ruas e o debate público empurrou o peronismo a se atualizar nos termos dos movimentos de mulheres e dissidências sexuais. Com o primeiro presidente da história abertamente favorável à legalização do aborto e com uma vice mulher, que é a maior líder política do movimento fundado naquele outubro de 1945, o peronismo está de volta. E vai ter mulheres.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

Com o final do ano parlamentar se aproximando, acumulam-se pautas importantes – e polêmicas – na Câmara e no Senado, com desdobramentos amanhã:

1) Está em aberto o projeto de lei que reestabelece a prisão após condenação em segunda instância. Aprovação na CCJ do Senado ontem seria terminativa, mas formou-se hoje articulação para que o tema seja votado no plenário da Casa.

Pode-se esperar, amanhã, tanto uma definição da questão como um panorama mais claro sobre grupos que se movimentam em torno dela. De um lado, a ala lavajatista, que busca encerrar a votação na CCJ; de outro não somente a oposição como o próprio presidente da Casa, Davi Alcolumbre, e o líder do governo no Senado, que atuam para levar o tema ao plenário.

2) Tudo indica que será votado ainda hoje no Senado, com ampla repercussão amanhã, o pacote anticrime – sem alterações em relação ao texto aprovado na Câmara. Confirmada a aprovação, ilações amanhã se voltarão para o posicionamento do ministro Moro, que demonstrou insatisfação com a supressão de diversos pontos da proposta original, e possíveis vetos do presidente Bolsonaro.

3) Ainda se espera a votação do marco legal do saneamento básico, que abriria o setor para a iniciativa privada, até amanhã. Geraria bons dividendos de imagem tanto para o parlamento quanto para o governo, pela expectativa de atrair investimentos em infraestrutura.

4) Com menos destaque, mas efeitos consideráveis, deve ser aprovada ainda hoje a “PEC das Emendas”, que facilita a liberação de emendas parlamentares e seu repasse para estados e municípios. A questão, amanhã, será a leitura do projeto: pode tanto ser avaliado como uma flexibilização orçamentária, positiva, ou como ação meramente política de parlamentares para se fortalecerem em suas bases.

A saúde do Presidente Bolsonaro

Vai gerar questionamentos e especulações, amanhã, informação de que o presidente Bolsonaro passou por exame para averiguar a possibilidade de estar com um câncer de pele.

O novo PSL

Batalha interna no PSL continuará amanhã. A deputada Joice Hasselman assumiu hoje a liderança do partido na Câmara, declarando intenção de pacificar os ânimos e, ao mesmo tempo, salientando maior distanciamento em relação ao governo. No entanto, à tarde, Justiça suspendeu, em caráter liminar, a punição imposta a deputados do PSL – entre eles Eduardo Bolsonaro – o que pode mudar novamente a correlação de forças dentro da agremiação.

Desgaste com radares, aposentadoria e cultura

Três temas vão gerar algum desgaste para o governo amanhã: 1) Decisão judicial determinando o reestabelecimento de radares em rodovias federais; 2) Determinação do STJ, permitindo que sejam incluídas contribuições anteriores a 1994 no cálculo de aposentadorias do INSS; 3) Novo embate na área de cultura, agora entre o secretário Roberto Alvim e a ex-secretária do Audiovisual, Katiane Gouvêa, exonerada por ele.

As eleições no Reino Unido

No cenário da política internacional, continuará amanhã a tramitação do impeachment do presidente Trump na Câmara, mas o tema central serão as eleições no Reino Unido. O premier Boris Johnson mantém o favoritismo, mas pesquisas apontam para redução significativa da vantagem sobre o Partido Trabalhista. Resultados podem ser mais apertados do que se imaginava inicialmente.

Prévia do PIB (BC) e serviços

Estão previstos para amanhã o IBC-Br (BC) e a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS/IBGE), ambos de outubro. No que tange o IBC-Br estimativas apresentam divergências, mas há indicações de que variação deve ser na margem, após avanço em setembro (0,4%). Já em relação à PMS, projeta-se curva similar a do comércio, com taxa de pequena para moderada de expansão (na casa de 0,3%) após crescimento importante no mês anterior (1,1%).

Juros e inflação: EUA, zona do Euro e Argentina

No exterior, destaque amanhã para resultados da reunião do Banco Central Europeu (BCE) e para a produção industrial de outubro na zona do Euro. Não há sinais de que o BCE pretenda alterar as atuais taxas de juros. No que se refere à produção industrial, espera-se número bastante negativo, com recuo em torno de 0,5% (frente a crescimento de 0,1% no mês anterior).

Ainda nesta quinta serão divulgados os Índices de Preços ao Consumidor na Alemanha e na Argentina e o Índice de Preços ao Produtor (IPP) nos EUA, todos para outubro. Prevê-se recuo de até 0,8% na inflação alemã, o que seria indicação de retração econômica, e aceleração na Argentina (em torno de 4% frente a 3,3% em outubro). Nos Estados Unidos, estimativas indicam número na casa de 0,2%, após alta de 0,4% em setembro.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.