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03.03.20

A prisão do empresário, a mídia e a lei de Rubem Braga

Observatório

Por Coriolano Gatto, jornalista.

O escritor capixaba Rubem Braga costumava dizer que a boa notícia não era, por definição, uma notícia, um fato digno de ser registrado. O cronista irreverente, dono de um humor cáustico e de um texto elegante, seguiu a regra básica do jornalismo, de que o inusitado se sobrepõe à normalidade, à enfadonha realidade. A tese de Braga se comprovou na espetaculosa prisão do empresário Amaury Temporal – e depois a sua absolvição – em abril de 1990, na Polícia Federal, Praça Mauá, Rio de Janeiro. Junto com ele, o irmão e a mãe octogenária. Eram sócios de uma fábrica de isolantes térmicos e refratários, no interior do Rio de Janeiro.

Temporal era uma liderança no cenário econômico e criticava com vigor a carga tributária elevada que onerava os negócios. Insuflava os empresários a não recolherem impostos injustificados. Condenado nas manchetes de todos os grandes jornais, com direito a foto no carro que entrava na PF, Amaury Temporal foi absolvido, pelo Tribunal Regional Federal (TRF), no Rio, por unanimidade dos desembargadores. O criminalista Arthur Lavigne não precisou de muitos argumentos para obter do TRF a revogação da prisão.

À época, o empresário disse que era um bode expiatório de um governo populista que buscava o apoio da opinião pública. A prisão fora comandada pelo então chefe da PF, delegado Romeu Tuma, um mestre na arte de criar factoides e de encantar serpentes desde o governo Sarney. O importante era a manchete, no início do governo Fernando Collor. Tuma acumulava o cargo com o de secretário da Receita Federal, algo esdrúxulo em um regime democrático. A inocência do empresário mereceu um pequeno registro na imprensa – o chamado colunão, no jargão jornalístico. Não era notícia fresca, como se falava nas redações. E assim foi criado um infeliz corolário: condena-se na manchete e absolve-se em um cantinho do jornal. A regra de ouro, com as honradas exceções, parece inquebrantável.

*Observação: este signatário cobriu como repórter do Jornal do Brasil a prisão e a absolvição de Amaury Temporal, falecido em dezembro de 2015 aos 77 anos.

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