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18.02.20

Sem um aperto de mão, eu rasgo o teu discurso – o aumento significativo da radicalização, polarização e violência política nos Estados Unidos

Observatório

Por Márcio Scalercio, historiador e professor de Relações Internacionais na PUC-Rio.

Para os menos avisados, um mero momento de pirraça entre o presidente Donald Trump e a congressista democrata Nancy Pelosi. Durante a abertura do rito anual do discurso sobre o “Estado da União”, ao entregar a pasta com seu discurso à deputada Pelosi, o presidente negou-se a apertar-lhe a mão estendida. No final do pronunciamento, Pelosi respondeu a afronta rasgando ostensivamente as folhas do discurso presidencial. Trump vexou Pelosi, deixando a mão da deputada “perdida no espaço”, com o fito de externar mundialmente seu desagrado em relação ao processo de impeachment.

Pelosi, uma raposa de cauda felpuda da política, que nada faz por acaso ou sem querer, rasgou a papelada sabendo muito bem que seu gesto viralizaria nas redes imediatamente. Como a banda The Who, em Woodstock, Trump chamou a atenção do mundo quebrando os instrumentos musicais. Pelosi, entrando depois dos roqueiros ingleses, tal qual Jimmy Hendrix, tentou obscurecer o gesto do presidente literalmente incendiando a guitarra. O fato é que existem inquietantes sinais de que o episódio tem um significado bem maior do que um momento de falta de educação mútua de figurões da República. E, como diria algum de nossos avós, “o exemplo vem sempre de cima”. Há algo mais grave pairando no ar.

A ACLED (Armed Conflict Location Event Project) é uma prestigiosa organização não governamental que mapeia os conflitos armados que acontecem no planeta. A ACLED publica um relatório anual sobre prognósticos de conflitos armados, citando as dez áreas mais preocupantes no mundo. Numa lista como essa, dos “dez mais”, jamais é surpresa a inclusão de lugares “animados” como o Afeganistão, Síria, Somália, Iraque, isto é, os de sempre. Ocorre que, no relatório de prognósticos para o ano de 2020, a ACLED incluiu entre as áreas mais preocupantes do mundo, em termos de maior probabilidade de aumento de conflitos armados, os Estados Unidos. A ACLED pauta seus relatórios por meio de pesquisas próprias ou pelo exame de trabalhos de instituições que desfrutam de credibilidade. Nesse caso um dos estudos que servem de base para análise foi efetuado conjuntamente pela Associated Press, US Today e a Northeastern University.

O estudo aponta, no ano de 2019, um aumento significativo no número de pessoas mortas ou feridas em situações de violência nos Estados Unidos. A questão é que o crescimento maior se dá no campo dos chamados “crimes de ódio” e de violência motivada por questões políticas. Existe um crescimento de manifestações de massa de conteúdo político, assim como um aumento da brutalidade policial na repressão. O sistema político dos Estados Unidos será duramente posto à prova este ano. Uma eleição presidencial e a renovação parcial da governança dos estados e no Congresso.

Os grupos políticos chamados na nomenclatura norte-americana de “liberais”, muitos deles que não se identificam com as pautas do Partido Democrata, estão com os nervos à flor da pele e externam amplamente seu descontentamento por meio de manifestações de massa – pelos direitos dos LGBT, contra o racismo, protestando contra o aumento da desigualdade social e econômica, contra as armas, as leis de imigração, vasto etc. No outro lado da trincheira, os conservadores, quando podem, mandam as polícias reprimirem. Além disso, há sempre o espectro de organizações de extrema direita paramilitares, inevitavelmente trajadas em roupas de camuflagem, armadas até os dentes e com o dedo no gatilho. Esses grupos abundam, especialmente nas áreas rurais do país. Assim, a recusa do presidente em apertar a mão de Nancy Pelosi e a reação da deputada rasgando o discurso presidencial transformam-se num episódio que revela uma situação bem mais séria do que meros maus modos. Uma polarização política radicalizada em ano eleitoral, que já em muitos casos degenerou para as vias de fato.

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