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O que precisa ser dito

Um sambinha na Casa Branca

12/05/2026
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Ainda ontem, baseado em tudo que dizia a mídia brasileira, publiquei neste espaço um artigo intitulado “White House Blues” em que atribuí a Donald Trump a iniciativa de convidar Lula para um encontro na Casa Branca. Sabe-se agora que a iniciativa do tête-à-tête partiu mesmo de Lula, num telefonema não planejado feito na sexta-feira, dia 30 de abril, sem a presença que seria de esperar do Ministro das Relações Exteriores ou mesmo de qualquer diplomata.

Bem que, no citado artigo, eu questionava o que teria levado Trump a fazer aquela “convocação” sem motivos claros e com certo grau de urgência, afirmando que ele não deveria estar interessado apenas “em proporcionar um santinho eleitoral para Lula em que os dois aparecem sorrindo”. E, num comentário profético, acrescentei que “o tempo provavelmente deve fornecer uma explicação mais satisfatória”.

Pois o prestativo tempo nos socorreu com a explicação, agora perfeitamente racional, de que coube ao próprio Lula sair em busca de um feito externo capaz de mitigar o desgaste causado pelas derrotas nos casos de Jorge Messias e do veto à dosimetria, bem como pelos números declinantes em todas as pesquisas de opinião. E, com sua inegável sensibilidade política, ele estava pronto até mesmo a viver um episódio conflitivo na Casa Branca porque ainda assim sairia ganhando. No entanto, teve a dupla sorte de encontrar um primeiro mandatário norte-americano surpreendentemente afável e interessado em normalizar as relações sobretudo econômicas com o Brasil, aproveitando inclusive a ausência de Marco Rubio para evitar qualquer atrito em torno das questões da Venezuela e de Cuba.

Mas essa nova e plausível rearrumação do tabuleiro gerou um novo conjunto de enigmas. Se me permitem uma nota pessoal de orgulho, no citado artigo, sem nenhuma justificativa fática, eu farejei a presença do senhor Joesley Batista nesta trama, ali especulando que ele e seu irmão poderiam estar envolvidos em alguma transação de vulto no terreno crucial dos minerais críticos. E não é que o famoso encontro dos dois chefes de Estado foi intermediado por Joesley, em seu celular e o tendo como intérprete? Convenhamos que não é pouco para ninguém na face do planeta chamar um número na Casa Branca e rapidinho conseguir que venha ao telefone o senhor Trump para um descontraído bate-papo de 40 minutos com alguém que ele só viu duas vezes na vida, em especial terminando com um sonoro “I love you”! E o que estava fazendo o senhor Joesley no Palácio da Alvorada, aparentemente sem constar da agenda oficial, na véspera de um feriado?

Mas o mistério se aprofunda. Em 4 de maio, três dias antes da visita de Lula a Washington, o Procurador Geral dos Estados Unidos Todd Blanche, a Secretária de Agricultura, Brooke Rollins e o Assessor Econômico da Presidência Peter Navarro deram uma conferência de imprensa conjunta em que, entre outras coisas, anunciaram o início das investigações federais antitruste com relação às quatro maiores empresas processadoras de carne do país, com foco especial nas questões de concentração e conluio na fixação de preços. Como duas delas pertencem a brasileiros – JBS e National Beef (Marfrig) – as autoridades citadas cuidaram de apelar para as preocupações de soberania no melhor estilo trumpiano, identificando a segurança alimentar com a segurança nacional. E a JBS, dos irmãos Batista, foi simplesmente acusada de ter um histórico de corrupção, associação com cartéis e trabalho escravo. Nas palavras de Navarro, “o lobby da carne representado pelos brasileiros ameaçou silenciosamente a Casa Branca e vimos o que de outro modo deveria haver estado nas gôndolas dos supermercados norte-americanos ser enviado para onde? Para a China. Os brasileiros, particularmente a JBS, distribuem milhões de dólares ao sistema político norte-americano como se fossem caramelos. A taxa de retorno que obtêm com isso faria ruborizar um fundo de investimento em Wall Street”.

Pelo que se sabe, esse saboroso assunto não foi comentado nas três horas de reunião entre Trump e Lula, que declarou não ter tido a coragem de perguntar se o bife servido no almoço era de procedência brasileira. Mas há notícia de que Joesley estava na capital dos Estados Unidos no mesmo dia do encontro presidencial. As coincidências abundam, porém não custa esperar que o tempo volte a nos dar uma mãozinha para entendermos qual o caroço debaixo desse angu.

#Casa Branca #Lula #Trump

O que precisa ser dito

White House Blues

11/05/2026
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Para desespero da extrema direita brasileira – em especial daqueles reles antipatriotas que já sonharam em ter acesso indiscriminado à Casa Branca – a visita de Lula a Washington superou as melhores expectativas do Planalto e de muita gente que simplesmente temia algum desastre nacional do tipo 7 x 1. Isso ficou visível desde o cumprimento afável na chegada (sem aquele “abraço de urso” que esconde um gesto de supremacia pessoal), até os elogios posteriores do presidente norte-americano (caracterizando o nosso como “bom”, “dinâmico” e “inteligente”). Com a duração inesperadamente longa de três horas, o encontro inquestionavelmente positivo permitiu um exame superficial de temas geopolíticos, mas se concentrou, como era correto, nas questões relativas aos minerais críticos, luta contra as facções criminosas e comércio bilateral.

No entanto, como certamente Donald Trump não estava interessado apenas em proporcionar um santinho eleitoral para Lula em que os dois aparecem sorrindo, cabe analisar de início por que foi feita a “convocação” numa sexta-feira para um encontro realizado seis dias depois, o que lhe conferiu certo caráter de urgência. A menos que as pessoas acreditem em coincidências que beiram as raias do absurdo, a única explicação plausível que me ocorre tem a ver com a ausência na reunião do Secretário Marco Rubio, que não poderia deixar de participar da visita do principal mandatário da América Latina. No entanto, como ele se encontrava em visita ao Papa (!) e não foi substituído na comitiva de Trump por nenhum funcionário do Departamento de Estado (hoje comandado por radicais da direita), deixaram de constar da pauta as espinhosas questões da Venezuela e de Cuba, aparentemente suscitadas por Lula num oferecimento de mediação que também não parece ter encontrado eco.

Como também não estiveram presentes as queixas dos grandes bancos e das big techs sobretudo com respeito ao Pix, antes vistas como assuntos de fundamental interesse para o vizinho do Norte, cumpre reconhecer que, após ano e meio de turbulências causadas por Trump, ele agora desejava “normalizar” as relações com o Brasil dando ênfase às matérias econômicas. Sinal claro disso foi o fato de se fazer ladear pelo vice. J.D. Vance e pela Chefe de Gabinete. Susie Wiles, mas operacionalmente apenas por Scott Bessent (Secretário do Tesouro), Howard Lutnick (Secretário de Comércio) e Jamieson Greer (USTR – Representante de Comércio dos Estados Unidos).

Até aí tudo bem, tudo normal… Mas será só isso mesmo? Tendo que lidar com graves problemas bélicos no exterior e crescentes dificuldades políticas no cenário interno, o que levaria Trump nesse exato momento a fazer acontecer uma reunião anunciada desde março e que parecia dormitar nas gavetas dos dois países sem nada que exigisse solução a curto prazo?  Num raciocínio diabólico, será que Trump desejava aproveitar o momento de fraqueza de Lula, com a derrota da indicação de Messias e a rejeição de seu veto à lei da dosimetria? Será que queria dar um boost fenomenal a seu adversário bolsonarista, interferindo na eleição presidencial como muitos desejavam na direita e outros tantos temiam na esquerda? Ah, mas se fosse assim por que razão, como dono da casa, Trump teria aceitado gostosamente o pedido brasileiro para abrir mão daquele famoso encontro prévio no Salão Oval onde já humilhou mais de um visitante internacional? E só existe uma resposta válida para isso: simplesmente porque não tinha tal intenção, porque seu objetivo era, pelo contrário, mostrar ao mundo (aos europeus?) que é possível manter um relacionamento produtivo e respeitoso até com governantes que defendem ostensivamente posturas contrárias à sua visão imperialista do mundo.

Ótima explicação, não é mesmo? Dessas que fazem a alegria das chancelarias em seus comunicados de imprensa, dos comentaristas na mídia, dos inocentes de plantão.  Mas será mesmo só isso? A montanha pariu o rato de um grupo de trabalho que tem 30 dias para afinar os instrumentos na orquestra da seção 301? O tempo provavelmente deve fornecer uma explicação mais satisfatória, porém até lá vale a pena contemplar duas hipóteses que atendem basicamente aos interesses de Trump.

A primeira tem a ver com sua acelerada perda de popularidade, até mesmo nas hostes republicanas, à medida que se aproximam as cruciais eleições de meio de mandato. Reconhecendo que, com exceção da Venezuela, suas aventuras no exterior fracassaram e têm crescente impacto inflacionário, Trump estaria disposto a adotar um postura internacional menos agressiva, de que são exemplos seus ansiosos esforços para cessar as hostilidades no Irã, na Ucrânia e no Líbano. Com relação ao Brasil, além de saber que os ataques a Lula saem pela culatra, Trump conhece bem o que significa para seus compatriotas o preço do café e da carne para hambúrguer, não havendo de fato justificativa alguma para punir um parceiro que tem déficit tradicional nas trocas comerciais e financeiras com os Estados Unidos. Nesse cenário mais benigno, a invasão de Cuba seria vista como mais uma de suas típicas bazófias, talvez cedendo lugar aos entendimentos informais que vêm sendo conduzidos na ilha inclusive por portadores do sobrenome Castro.

A segunda hipótese, que não conflita com a primeira, tem a ver com as famosas terras raras ou minerais críticos em geral. Pautado pela recente decisão da Câmara de Deputados em favor da multilateralidade internacional na exploração desses produtos, Lula já chegou a Washington sem precisar combater eventualmente a esdrúxula ideia de exclusividade norte-americana que circulava como balão de ensaio. Por outro lado, como mera coincidência ou não, tem se falado que a LHG Mining, braço de mineração dos irmãos Batista, vem discutindo com a Vale um investimento conjunto nessa área, o qual poderia – quem sabe? – vir a incluir algum grande parceiro norte-americano sócio de Jared Kushner. E, por fim, Trump visitará Xi nos dias 14 e 15 do corrente mês, curiosamente tornando realidade um encontro também anunciado em março, mas no qual, além de Ormuz, as terras raras serão objeto de intenso debate. Como China, Brasil e Estados Unidos detêm as maiores reservas mundiais dessas matérias estratégicas, somos parte essencial desse comboio que ditará o futuro da humanidade.

O que precisa ser dito

Cuba 2026: a alma em transe e a espada de Dâmocles

6/04/2026
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Homenagem: Dedico este artigo ao povo cubano, alma vibrante, que, em 2026, resiste ao que o jargão popular descreveria como o “pó da gaita” – uma fragilidade extrema que, contudo, não apaga a dignidade de sua essência. Escrevo sob o influxo das lembranças de minhas diversas idas à Ilha no final dos anos 80, no início dos anos 90 e em outras esparsas vezes. Naquele tempo, jovem e movida por idealismo, encontrei em Cuba um território de observação política e um universo humano que redesenhou meu entendimento da realidade, das estruturas de poder e da distância, muitas vezes abissal, entre discurso e vida concreta.

 Minha gratidão volta-se a Alberto, Andrés, Dr. Huegas, Jorge, Augusto, Manuela e Gloria. Em nome deles, presto meu apreço a todos os que comigo conviveram e àqueles com quem mantenho contato até os dias atuais. Foram essas pessoas, com suas histórias, conhecimentos, perplexidades, esperanças e dores, que me ofereceram informações, impressões e dados imprescindíveis para a elaboração deste artigo e, especialmente, ensinaram a mim que a essência de Cuba não está nos “slogans”, mas em sua gente.

Introdução

Em abril de 2026, Cuba enfrenta uma convergência crítica: colapso econômico, exaustão institucional, crise energética, fadiga social e pressão geopolítica. Como observado perlo jornalista Luiz Cesar Faro, a Ilha transita de um “museu castrista” para uma possível dependência externa, sob urgência histórica.

A análise requer exame objetivo de sua riqueza cultural contrastada com escassez material, cerceamento político e perda de autossustentação.

A soberania remanescente opera mais como conceito jurídico do que capacidade prática, com o risco de erosão irreversível de identidade e estabilidade social.

Paraíso escondido: beleza natural e urbana de Cuba

Cuba preserva patrimônio natural e urbano notável, apesar dos desafios. Praias como Guardalavaca (Holguín), Cayo Coco, Cayo Guillermo e Cayo Largo oferecem águas translúcidas e recifes de coral, com Playa Paraíso e Playa Sirena destacadas em “rankings” internacionais. Cidades como Trinidad, Camagüey e Cienfuegos, Patrimônios da Unesco, exibem arquitetura colonial espanhola e neoclássica preservada. Santiago de Cuba integra herança musical afro-caribenha, e o Valle de Viñales destaca mogotes e plantações de tabaco. Esses ativos, submetidos a desgaste e carências, representam potencial turístico subutilizado em meio à estagnação.

Havana Velha: decadência e patrimônio histórico

Declarada Patrimônio da Unesco em 1982, Havana Velha exemplifica tensão entre deterioração urbana e valor histórico. Edifícios coloniais degradados abrigam condições precárias, com fachadas desbotadas e estruturas enfraquecidas. Automóveis americanos dos anos 1950 circulam como relíquias funcionais, sinalizando engenhosidade e estagnação econômica. A arquitetura corroída preserva narrativas seculares, configurando um retrato de grandeza em declínio.

Alma cubana: resiliência cultural e social

A população cubana demonstra adaptação a décadas de escassez, com vitalidade cotidiana ancorada em música (son, salsa, bolero, rumba), culinária (“ropa vieja”, “morros y cristianos” e “lechón asado”) e hospitalidade, especialmente com brasileiros.

A educação básica, reconhecida por organismos multilaterais como Unesco pela alfabetização, contrasta com limitações materiais. Nas ruas, veem-se crianças e jovens com notável desenvoltura verbal, familiaridade com mais de um idioma e aguda percepção do mundo que os cerca.

O tabaco de Pinar del Río sustenta prestígio exportador. Essa dinâmica resiste a narrativas extremas, equilibrando conquistas históricas e fragilidades atuais.

O crepúsculo de um modelo e a marcha para a ruptura

O conflito no Oriente Médio, ao deslocar o centro da atenção internacional, ofereceu a Cuba apenas um adiamento tático de seu desfecho mais provável. Como sugerido por Luiz Cesar Faro, esse deslocamento funcionou menos como alívio do que como prorrogação dramática: a Ilha saiu do foco sem sair do risco.

Cuba continuou a perder relevância estratégica positiva e a acumular vulnerabilidade negativa. Em vez de se reposicionar, permaneceu presa a um modelo incapaz de gerar produtividade, divisas suficientes, segurança energética e confiança institucional.

A percepção dominante em centros de formulação geopolítica é a de que a estrutura estatal cubana se aproxima de um ponto de saturação. Não se trata necessariamente de um colapso instantâneo, mas de uma erosão acelerada da governabilidade. A Ilha, comprimida entre crise interna e pressão externa, passou a ser lida não como parceiro potencial, mas como problema a ser administrado.

Nesse contexto, a hipótese de tutela, protetorado informal ou integração assimétrica a uma esfera de comando norte-americana deixou de ser especulação extravagante e passou a compor, ainda que de modo controverso, o horizonte das possibilidades políticas. Em registro próximo ao de Luiz Cesar Faro, essa passagem de Cuba de “museu castrista” a eventual protetorado não significaria mera alternância de comando, mas uma dolorosa mutação de natureza histórica, institucional e simbólica.

A intervenção aberta continua juridicamente problemática e politicamente sensível. Ainda assim, a realidade mostra que há múltiplas formas de intervenção: econômica, diplomática, tecnológica, informacional e, em último caso, militar. Cuba já vive, em grande medida, sob a pressão acumulada dessas formas indiretas de condicionamento.

Os protetorados contemporâneos nem sempre se anunciam como tal. Por vezes chegam sem bandeira, sem decreto e sem ocupação formal; instalam-se por meio da dependência energética, da asfixia financeira, da mediação securitária e da captura progressiva das decisões estratégicas.

Tempestades econômica e energética

A economia cubana em 2026 apresenta sinais consistentes de esgotamento estrutural.

Os dados de organismos multilaterais e centros independentes apontam retração do PIB, inflação severa, desabastecimento, erosão do poder de compra, queda do turismo e aumento da informalidade. A escassez de alimentos, medicamentos, combustíveis e insumos básicos deixa de ser fenômeno episódico para se transformar em regime cotidiano.

A crise energética agravou dramaticamente esse quadro. A interrupção do fornecimento venezuelano, em um contexto de elevada dependência do petróleo importado, expôs a fragilidade da matriz cubana.

O apagão massivo de 4 de março de 2026 foi um evento técnico e um marco político. Ele revelou, de modo quase brutal, o grau de vulnerabilidade sistêmica de um Estado cuja infraestrutura já não consegue garantir continuidade mínima de serviços essenciais.

Sem energia confiável, não há logística estável, não há atividade industrial minimamente contínua, não há refrigeração adequada de alimentos e medicamentos, não há previsibilidade para o cotidiano urbano. O apagão e sua continuidade deixou de ser apenas símbolo de decadência e tornou-se vetor de aceleração da crise social.

Quando falta energia, falta muito mais do que eletricidade: falta previsibilidade, autoridade funcional do Estado e confiança mínima na continuidade da vida civil. Em sociedades exauridas, a escuridão prolongada é, claro, material, mas corrói também o pacto psicológico entre governo e governados.

Quadro 1 – Contração do PIB cubano (2019-2025)

Ano Crescimento do PIB (%)
2019 -0,2
2020 -10,9
2021 1,3
2022 1,8
2023 -1,0
2024(estimativa) -3,5
2025(estimativa) -5,0

Fontes: Elaboração da autora com base em Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), comumente referido pela sigla BIRD (IBRD em inglês) ou apenas como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e “Economist Intelligence Unit”.

Quadro 2 – Dependência petrolífera de Cuba por origem estimada de importação (2025)

Fonte de importação de petróleo Percentual estimado
Venezuela 60%
Rússia 20%
Outros 20%

Fontes: Elaboração da autora com base em “International Energy Agency” e “S&P Global”.

Doutrina Trump: máxima pressão e desejo americano para Cuba

A política de máxima pressão imposta pela administração Trump contra Cuba, com o apoio ostensivo de figuras como Marco Rubio, tornou-se um dos vetores mais agressivos da crise contemporânea da Ilha.

As sanções foram reforçadas, e a permanência de Cuba na lista norte-americana de Estados patrocinadores do terrorismo ampliou os custos de transação, restringiu o acesso a crédito, elevou o risco-país e agravou o isolamento econômico.

A retórica de Rubio, frequentemente assentada na ideia de “libertar Cuba do comunismo”, exprime uma linha dura que não trabalha com concessões graduais, mas com a lógica da asfixia como instrumento de mudança política.

Estudos de think tanks e análises de imprensa internacional têm mostrado que a pressão norte-americana não se limita ao campo diplomático: ela busca acelerar o desgaste interno, inviabilizar a normalização econômica e empurrar o regime para um ponto de ruptura.

Ao mesmo tempo, o projeto implícito nessa política é claro. Washington imagina uma Cuba reordenada como economia de mercado, aberta a investimentos estrangeiros, especialmente em turismo, infraestrutura, logística e serviços, e orientada por uma gramática liberal de consumo, propriedade e circulação de capitais.

Na visão de Luiz Cesar Faro, esse projeto norte-americano para Cuba não se limita à simples abertura econômica, mas sugere uma refundação de Cuba sob novos parâmetros de subordinação, agora embalados pela linguagem da eficiência, do investimento e do consumo.

Entretanto, a memória histórica cubana impõe cautela.

A promessa de abertura encontra o fantasma da era Batista, associada à desigualdade aguda, à corrupção sistêmica e à forte influência de interesses mafiosos e estrangeiros. Como sugerido por Luiz Cesar Faro, a população cubana vive hoje uma tensão moral e material profunda entre o cansaço da pobreza e a recusa de regressar ao “prostíbulo” político e social de Fulgêncio Batista.

Também aqui emerge um dilema particularmente cruel: a fome pode enfraquecer convicções, mas não apaga automaticamente a memória dos regimes degradantes. Entre o “hambúrguer” e a dignidade ou o consumo e a soberania, não há escolha simples; há apenas formas distintas de dependência.

Por isso, a eventual americanização da economia cubana aparece como esperança para alguns e como ameaça para outros.

Os riscos incluem a perda de conquistas sociais remanescentes, a gentrificação de áreas históricas, a exploração de trabalho barato e a constituição de uma nova elite econômica divorciada das necessidades da maioria.

A intervenção, portanto, não se projeta apenas como gesto geopolítico. Ela se apresenta, no imaginário norte-americano mais duro, como uma refundação econômica da Ilha sob novos parâmetros de subordinação e eficiência.

Resposta do regime: intransigência e legado dos Castro

Diante da crescente pressão externa e da deterioração interna, a nomenclatura cubana, liderada por Miguel Díaz-Canel, tem demonstrado notável intransigência.

Com efeito, a retórica do regime continua orientada pela tentativa de projetar coesão e resistência, mesmo quando a realidade material de Cuba sugere esgotamento. A aproximação discursiva com aliados ideológicos distantes e a persistência em um vocabulário de confronto funcionam, em grande medida, como mecanismo de preservação simbólica do poder.

A morte de Fidel Castro, em 2016, não produziu o colapso imediato do regime, mas marcou o início inequívoco de uma transição de autoridade.

Em 2026, o centenário de seu nascimento paira como lembrança incômoda de uma figura que, para os mais velhos, ainda representa soberania, justiça social e resistência ao imperialismo, enquanto para muitos jovens se associa à estagnação econômica, ao cerceamento político e ao fechamento de horizontes. Essa duplicidade é central para compreender a psique coletiva cubana contemporânea.

Raúl Castro, por sua vez, permanece como a última dobradiça viva entre o presente exaurido e a legitimidade originária de 1959. Para usar a imagem proposta por Luiz Cesar Faro, essas dobradiças que ainda sustentam fragilmente o regime – os comandos e o sobrenome Castro – representam a estrutura mínima que impede, por ora, a queda completa do edifício político.

No entanto, sua idade avançada e sua fragilidade física ampliam a percepção de que o regime já não conta com uma sucessão dotada da mesma densidade simbólica.

A persistência do sobrenome Castro nos pavilhões e nas representações oficiais não altera o fato de que a força política real associada a esse legado se reduziu drasticamente.

Também o legado de Che Guevara se tornou paradoxal. A imagem do revolucionário sobrevive multiplicada em camisetas, pôsteres e “souvenirs”, muitas vezes dissociada de sua trajetória histórica e convertida em ícone “pop” global. Para grande parte da juventude, Che já não opera como chamado revolucionário, mas como símbolo vago de identidade cultural, esvaziado de seu conteúdo político originário.

A posteridade dos ícones é, por vezes, impiedosa: conserva o rosto, mas dissolve a doutrina; preserva a estampa, mas neutraliza a convocação histórica.

Quadro 3 – Aspirações da juventude cubana

Aspiração ou preocupação Percentual de jovens (%)
Emigrar para o exterior 75
Melhorar condições econômicas 88
Acesso à internet e tecnologia 92
Liberdade de expressão 65
Oportunidades de emprego 80
Abertura política 55

Fontes: Elaboração da autora com base em “Observatorio Cubano de Derechos Humanos” e “Americas Quarterly”.

Eco das ruas: manifestações pró e contra o regime

A crise cubana não se limita às cúpulas do poder. Ela também ecoa nas ruas, em protestos, filas, apagões, murmúrios e atos de exaustão coletiva. Desde 2024, Cuba passou a registrar manifestações esporádicas, porém crescentes, motivadas pela escassez, pela crise energética e pela falta de liberdades públicas.

Relatórios do “Observatorio Cubano de Derechos Humanos” indicaram dezenas de protestos apenas nos primeiros meses de 2026, revelando um aumento palpável da insatisfação social. Em muitos casos, essas manifestações foram reprimidas ou contidas por forças de segurança, o que reforça a percepção de que o Estado já não governa apenas pela persuasão ideológica, mas crescentemente pela contenção.

Em contrapartida, o regime organizou atos de apoio, mobilizações e passeatas de afirmação simbólica, frequentemente difundidos pelos canais oficiais. Tais manifestações pró-governo pretendem demonstrar que a revolução ainda mobiliza respaldo popular e coesão institucional.

Todavia, o peso de funcionários públicos, estruturas partidárias e obrigações indiretas nesses atos suscita dúvidas sobre sua espontaneidade real.

Entre a exaustão das ruas e o teatro da coesão oficial, Cuba revela uma sociedade fraturada, na qual a rua deixou de ser mero cenário e voltou a ser linguagem política.

GAESA: poder militar e economia de transição

O Grupo de “Administración Empresarial del Estado”, o GAESA, constitui uma das chaves mais sensíveis para compreender qualquer cenário de transição cubana.

Mais do que um conglomerado militar, ele é uma estrutura concentrada de poder econômico, com presença em setores centrais como turismo, hotelaria, portos, telecomunicações, comércio varejista, logística e operações estratégicas de importação e exportação. Sua relevância decorre do volume de ativos e do fato de articular poder militar, poder administrativo e controle econômico sob uma mesma arquitetura opaca.

Do ponto de vista jurídico, o GAESA ocupa uma zona ambígua. Formalmente empresarial, substancialmente estatal e politicamente militarizado, não se submete a padrões usuais de transparência, auditoria pública ou “accountability” compatíveis com economias abertas. Essa natureza híbrida faz dele, simultaneamente, peça de sustentação do regime e variável incontornável de qualquer recomposição futura.

Em uma transição, o GAESA poderá seguir caminhos diversos: converter-se em instrumento de resistência, funcionando como base material para a continuidade de estruturas militares e de comando ou ser utilizado como moeda de negociação, caso uma fração do “establishment” cubano conclua que a preservação de alguma influência vale mais do que a defesa integral do “status quo”.

Em um cenário de reordenação institucional, seus ativos poderão ser submetidos à gestão fiduciária internacional, reestruturados sob nova legitimidade estatal ou parcialmente privatizados, desde que haja arcabouço normativo capaz de evitar mera transferência patrimonial oportunista.

Quem desejar compreender o destino de Cuba deverá olhar menos para os “slogans” oficiais e mais para a cartografia real do poder. E essa cartografia passa, inevitavelmente, pelas engrenagens econômicas e militares do GAESA.

Rugido dos leões: militares cubanos e baixas inevitáveis

O papel dos generais cubanos é essencial para a sustentação do regime, e sua resistência a uma intervenção americana tende a ser tratada como dado plausível, não como hipótese remota.

Diferentemente de outros contextos latino-americanos em que houve maior porosidade entre elites civis e militares, os comandos cubanos permanecem profundamente enraizados na estrutura de poder e na ideologia revolucionária.

Embora disponham de recursos limitados quando comparados a grandes potências, décadas de doutrinação e o controle sobre setores estratégicos da economia – em especial por meio do GAESA – conferem às Forças Armadas Revolucionárias densidade política e capacidade de resistência superiores ao que uma leitura puramente quantitativa sugeriria.

Analistas de centros como o “Center for Strategic and International Studies” (CSIS) e a “Americas Quarterly” têm destacado que, em caso de enfrentamento, os militares cubanos tenderiam a resistir com forte senso de missão histórica.

A lealdade das Forças Armadas Revolucionárias ao Partido Comunista permanece um dos pilares do sistema. Qualquer tentativa de desmantelar abruptamente essa engrenagem poderá produzir reações violentas, fragmentação do comando e risco de prolongamento do conflito.

Em um cenário de intervenção direta, o desequilíbrio militar entre Cuba e os Estados Unidos da América é absoluto.

O orçamento de defesa americano, sua superioridade aérea, sua capacidade naval e sua tecnologia de precisão tornam improvável qualquer equivalência operacional. Ainda assim, a assimetria militar não elimina o custo humano. Pelo contrário: ela o desloca para o lado mais vulnerável.

Na imagem expressiva de Luiz Cesar Faro, os generais da Ilha podem ter bem menos recursos de defesa do que os norte-americanos, mas “cairiam atirando” – e essa resistência, ainda que militarmente condenada, produziria baixas humanas inevitáveis e prolongaria o sofrimento da população civil.

Mais preocupante ainda é o destino dos civis.

A densidade populacional cubana, sobretudo em áreas urbanas como Havana, e a eventual adoção de táticas de resistência urbana colocariam a população no centro do fogo cruzado.

Organismos humanitários internacionais já alertaram para a fragilidade da capacidade de resposta da infraestrutura cubana diante de uma crise armada prolongada.

Quando a superioridade militar de um lado é absoluta, o heroísmo do outro não altera o desfecho estratégico; altera apenas a escala da dor.

Quadro 4 – Comparativo militar entre Cuba e Estados Unidos (estimativas de 2026)

Categoria Cuba Estados Unidos
Pessoal ativo 49.000 1.300.000
Pessoal na reserva 39.000 800.000
Orçamento de defesa US$ 1,5 bilhão US$ 820 bilhões
Força aérea (total de aeronaves) 100 13.300
Força naval (total de ativos) 20 480

Fontes: Elaboração da autora com base em “Global Firepower” e CSIS.

Destino dos defensores do regime: entre a anistia e a responsabilização

O que poderá ocorrer com militares, dirigentes e defensores do atual governo constitui uma das questões mais sensíveis em qualquer cenário pós-intervenção ou pós-ruptura.

A retórica da ala mais dura da política norte-americana sugere que uma anistia ampla seria improvável.

A ideia predominante é a de responsabilização por violações de direitos humanos, corrupção estrutural e sustentação de um sistema repressivo.

Para os líderes civis e militares de maior escalão, não se pode excluir a possibilidade de prisão, extradição ou submissão a mecanismos penais internacionais ou híbridos, ainda que as bases jurídicas concretas variem conforme o cenário político da transição.

A hipótese de refúgio em países politicamente alinhados também é plausível, embora cercada de incertezas e pressões diplomáticas.

Já para quadros intermediários e inferiores, o problema será outro: como evitar que a desmontagem das estruturas de segurança e administração produza um vácuo de poder semelhante ao observado em outros processos abruptos de desinstitucionalização?

O precedente da “desbaathificação” no Iraque é frequentemente lembrado como advertência eloquente: a eliminação total e imediata das engrenagens do antigo regime pode gerar desemprego massivo, insurgência e caos prolongado.

Por isso, um modelo de depuração seletiva, verificação de antecedentes e reintegração condicionada de agentes sem histórico comprovado de abusos talvez seja juridicamente mais prudente e politicamente mais eficaz do que uma lógica de punição indiscriminada. Também aqui a tensão entre justiça e estabilidade será inevitável.

É precisamente nessa fronteira que voltam a ganhar relevo as ideias de comissões de verdade, programas de reconciliação e fórmulas híbridas de justiça transicional.

Embora uma linha dura de responsabilização continue mais provável na retórica externa, uma reconstrução minimamente sustentável talvez exija soluções menos espetaculares e mais institucionalmente inteligentes.

Possível integração econômica de Cuba às estruturas norte-americanas ou internacionais

Se o colapso do regime abrir caminho para uma reordenação orientada por Washington, a integração econômica de Cuba às estruturas norte-americanas ou internacionais dificilmente ocorreria de modo imediato ou pleno. O processo seria gradual, seletivo e condicionado.

Ainda assim, alguns eixos são previsíveis.

O primeiro seria a harmonização regulatória. Cuba teria de revisar profundamente suas normas sobre propriedade, contratos, investimento estrangeiro, sociedades empresárias, trabalho, concorrência, telecomunicações, infraestrutura, tributação e solução de disputas. Um ambiente compatível com capital norte-americano ou internacional exigiria previsibilidade institucional, proteção de propriedade, regras claras de repatriação de lucros, mecanismos arbitrais confiáveis e redução drástica da discricionariedade estatal hoje concentrada em estruturas políticas e militares.

O segundo eixo seria a integração comercial. Ainda que uma adesão imediata ao USMCA (“United States-Mexico-Canada Agreement”, tratado de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, de 2020, em substituição ao NAFTA – “North American Free Trade Agreement” – Acordo de Livre-Comércio da América do Norte -, de 1994) pareça improvável, não é impossível imaginar uma trajetória de aproximação progressiva.

Antes de qualquer incorporação formal a uma área comercial mais ampla, Cuba precisaria cumprir requisitos severos de abertura econômica, segurança jurídica, adaptação aduaneira, padronização sanitária, proteção de investimentos e conformidade regulatória. Em tese, Washington poderia patrocinar um regime especial de transição, com preferências tarifárias graduais e acesso condicionado a determinados mercados, desde que a Ilha avançasse em reformas estruturais.

O terceiro eixo seria a reorganização monetária e institucional da vida econômica. Uma eventual integração assimétrica à órbita americana pressionaria por maior dolarização prática, reconfiguração bancária, redefinição cambial, interoperabilidade tecnológica de pagamentos e incorporação de padrões contábeis e de conformidade mais próximos do ambiente regulatório norte-americano. Esse processo, embora tecnicamente possível, produziria forte impacto social.

O quarto eixo seria a transformação da base produtiva. Cuba poderia ser atraída para cadeias norte-americanas e internacionais de turismo, logística portuária, agronegócio, telecomunicações, infraestrutura, energia e serviços. Em termos geoeconômicos, a Ilha possui localização extraordinária, mão-de-obra relativamente qualificada e patrimônio natural e urbano com elevado potencial de captura de valor.

Ao mesmo tempo, esse potencial carrega risco. Sem governança pública séria, o país poderia ser convertido em território de exploração intensiva, com baixa agregação local de valor e perda acelerada de autonomia econômica, como o passado já demonstrou.

Há aqui uma ironia histórica de rara crueldade: Cuba, que durante décadas apresentou-se como bastião de resistência ao capitalismo, poderia reaparecer ao mundo como vitrine tropical de um capitalismo de enclave, vocacionado mais ao entretenimento externo do que à dignidade interna.

Quadro 5 – Posicionamento internacional sobre Cuba (março de 2026)

Ator internacional Posicionamento Nível de apoio ou oposição
Estados Unidos Oposição ferrenha Alta oposição
Rússia Apoio retórico e limitado Baixo apoio
China Interesses comerciais e neutralidade pragmática Neutro
União Europeia Preocupação humanitária e diálogo Neutro/baixo apoio
América Latina Posição dividida e variável Variável

Fontes: Elaboração da autora com base em “Chatham House”, “Council on Foreign Relations” e “Al Jazeera”.

Quadro 6 – Eixos da integração econômica de Cuba às estruturas norte-americanas

Eixo Conteúdo principal Riscos centrais
Harmonização regulatória Revisão de normas sobre propriedade, contratos, investimento, trabalho, concorrência e arbitragem Assimetria normativa e perda de autonomia regulatória
Integração comercial Aproximação progressiva com o mercado americano e possível rota futura ao USMCA Dependência comercial excessiva e exclusão de setores frágeis
Reorganização monetária Dolarização prática, reconfiguração cambial e adaptação institucional Pressão inflacionária, exclusão social e perda de margem soberana
Transformação produtiva Inserção em cadeias de turismo, logística, energia, telecomunicações e serviços Desnacionalização patrimonial e baixa agregação local de valor

 Fonte: Elaboração da autora com base em “Carnegie Endowment For International Peace” (2026) e “Atlantic Council” (2025).

Justiça de transição, restituição patrimonial e arbitragem internacional

Qualquer mutação profunda do regime cubano fará emergir, de modo inevitável, a questão da justiça de transição.

Não se trata apenas de encarar violações de direitos humanos, restrições severas à liberdade política, perseguições, prisões, censura e a responsabilidade por abusos pretéritos; trata-se, sobretudo, de impedir que tais feridas sejam soterradas por uma paz aparente, sempre frágil quando construída sobre o silêncio. Mas também é preciso reconhecer que a pura vocação punitiva, se levada ao extremo, pode comprometer a delicada arquitetura de estabilidade que se espera do tempo posterior à ruptura.

Nesse território incerto, será inevitável escolher entre modelos distintos de elaboração do passado: tribunais especiais, jurisdição internacional, comissões de verdade e reconciliação, anistias condicionadas, fórmulas híbridas de responsabilização e memória.

A experiência comparada sugere que a alternativa entre justiça retributiva e justiça restaurativa não é um detalhe técnico; é uma decisão de fundo, capaz de moldar o horizonte moral e político de sociedades em reconstrução.

A isso se soma a questão patrimonial, talvez uma das mais sensíveis e litigiosas.

As propriedades confiscadas ao longo das décadas – especialmente aquelas pertencentes a cubanos que emigraram e aos seus descendentes – poderão desencadear vastas disputas de restituição ou compensação.

O direito internacional oferece princípios de proteção patrimonial, mas a tradução desses princípios em solução concreta raramente é simples. Haverá de se lidar com prova documental, reconstituição histórica de valores, definição de critérios de compensação e criação de engrenagens institucionais aptas a evitar que a reconstrução de Cuba se converta em uma arena de choque entre exilados, investidores e novos administradores.

É nesse ponto que a arbitragem internacional pode assumir papel decisivo.

Em um cenário de transição, Cuba poderá ser compelida a resolver litígios patrimoniais por diferentes vias arbitrais, segundo a natureza da controvérsia e a qualidade jurídica das partes envolvidas.

Se o conflito opuser investidores estrangeiros ao novo Estado cubano, a via mais provável será a arbitragem de investimento, sob as regras do ICSID (“International Centre for Settlement of Investment Disputes” – Centro Internacional para Resolução de Disputas sobre Investimentos -, instituição do Grupo Banco Mundial dedicada à arbitragem e à conciliação entre investidores estrangeiros e Estados, criada em 1965), quando houver tratado bilateral de investimentos aplicável, ou sob as regras da UNCITRAL (Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial Internacional – principal órgão jurídico da ONU para o comércio internacional, criado em 1966), quando o consentimento arbitral decorrer de cláusulas contratuais ou de atos normativos próprios do período de transição.

Se a controvérsia for estritamente contratual, envolvendo empresas privadas, concessionárias, operadores de infraestrutura e grupos turísticos, portuários ou imobiliários, poderão ser acionados centros arbitrais internacionais como a ICC (“International Chamber of Commerce” – Câmara de Comércio Internacional, entidade privada e independente), a LCIA (“London Court of International Arbitration” – Tribunal de Arbitragem Internacional de Londres), a ICDR (“International Centre for Dispute Resolution” – Centro Internacional para Resolução de Disputas, divisão internacional da “American Arbitration Association” – AAA) ou outras câmaras livremente eleitas pelas partes.

A arbitragem oferece, nesse quadro, vantagens evidentes: neutralidade do foro, especialização técnica dos árbitros, maior previsibilidade decisória, executividade internacional das sentenças arbitrais à luz da Convenção de Nova York de 1958 e aptidão superior para a solução de litígios complexos, de elevada densidade econômica e documental.

No caso cubano, tais atributos ganham relevo singular, porque a reconstrução da confiança institucional dependerá menos de promessas políticas do que da credibilidade dos mecanismos de solução de controvérsias.

Ainda assim, a arbitragem não dissipará os dilemas essenciais.

Um dos mais graves será a definição da base jurídica das antigas expropriações e confiscos.

Muitos pedidos de restituição envolverão a mensuração do valor do bem e a reconstrução histórica da cadeia dominial, a apreciação da legalidade dos atos revolucionários, a sucessão das titularidades, o cálculo das compensações em diferentes moedas e a eventual colisão entre justiça histórica e estabilidade social.

É plausível, portanto, que se venha a conceber um sistema misto: arbitragem para disputas empresariais e de investimento; comissões especiais ou câmaras de compensação para reivindicações massificadas de antigos proprietários; e, talvez, fundos de indenização com critérios padronizados, aptos a evitar um congestionamento judicial ou arbitral de proporções insustentáveis.

Cumprirá ainda definir, com precisão, a relação entre as decisões arbitrais e a ordem pública do novo Estado cubano.

Países em reconstrução institucional costumam preservar alguma margem soberana justamente para impedir que a arbitragem se converta em instrumento de captura patrimonial por atores estruturalmente mais fortes. Por isso, o desenho normativo cubano, se e quando vier a ser reformado, terá de buscar um equilíbrio difícil e indispensável: de um lado, atratividade ao investimento; de outro, preservação mínima da autodeterminação econômica e social.

Quadro 7 – Possíveis mecanismos de solução de disputas patrimoniais em Cuba

Mecanismo Âmbito de aplicação Vantagens Limitações
Arbitragem ICSID Disputas entre Estado e investidor estrangeiro com base em tratado ou consentimento válido Especialização, reconhecimento internacional e foco em investimento Depende de base jurisdicional adequada e pode gerar elevada pressão indenizatória
Arbitragem UNCITRAL Litígios de investimento ou contratuais com cláusula arbitral compatível Flexibilidade procedimental e ampla aceitação internacional Maior heterogeneidade procedimental e custos elevados
Arbitragem ICC/LCIA/ICDR Conflitos empresariais, comerciais, turísticos, logísticos e de infraestrutura Neutralidade, tecnicidade e executividade internacional Menor aptidão para litígios massivos de restituição histórica
Câmaras de compensação patrimonial Reivindicações em massa de antigos proprietários e sucessores Padronização de critérios e maior capacidade de escala Risco de contestação política e necessidade de forte base legal
Comissões de verdade com eixo reparatório Casos com forte componente histórico, político e humano Integra memória, reparação e reconciliação Menor força executiva para conflitos patrimoniais complexos

Fontes: Elaboração da autora com base em UNCITRAL (2026), Convenção de Nova York (1958) e ICRC (2023).

Quadro 8 – Cenários futuros para Cuba

Cenário Descrição Consequências principais
Anexação ou protetorado americano Controle político e econômico sob forte tutela de Washington Perda de soberania, influxo de capital, resistência inicial e mudança de regime
Transição negociada Acordo entre forças internas e atores externos para reformas graduais Abertura controlada, estabilidade relativa e manutenção parcial de estruturas estatais
Colapso humanitário Agravamento da crise econômica e social com migração em massa Crise humanitária, instabilidade regional e pressão internacional
Resistência militar prolongada Forças armadas e estruturas associadas mantêm enfrentamento ativo Conflito armado, alto custo humano e incerteza prolongada

Fonte: Elaboração da autora com base em “Carnegie Endowment For International Peace” (2026) e CSIS (2025).

Conclusão

Cuba vive o fim de um ciclo.

O que se dissolve, diante dos olhos do mundo, é um regime político e um sistema de sentidos, de promessas e de formas de pertencimento que, durante décadas, estruturou a vida de uma sociedade inteira.

O chamado “museu castrista” aproxima-se de seu momento terminal, pressionado por colapso material, exaustão ideológica e redesenho geopolítico. E seria um erro imaginar que o que vem depois será simples redenção.

A promessa de liberdade, abertura e prosperidade poderá trazer consigo tutela, desigualdade, perda de identidade, mercantilização agressiva da Ilha e novas formas de dependência.

Cuba poderá sair de um cativeiro histórico para ingressar em outro, mais sofisticado e talvez mais sedutor.

O risco não é apenas o fim do regime; é a conversão de Cuba em mercadoria geopolítica, em plataforma de negócios, em vitrine exótica de uma normalização que talvez lhe exija, como preço, a amputação de sua memória social.

A grande questão, portanto, não é se o regime cairá, mas sob que forma o país renascerá.

O desafio mais alto será impedir que a reconstrução econômica ocorra ao preço da amputação moral de sua memória, de sua cultura e de sua gente.

Minhas diversas viagens à Ilha ensinaram-me isto: Cuba jamais foi apenas um problema ideológico. Cuba é, antes de tudo, um povo. E é por esse povo, em sua grandeza ferida, que toda análise séria deve começar e terminar.

Fontes consultadas

AL JAZEERA. Cuba and Iran ties under scrutiny amid regional tensions. Doha: Al Jazeera, 2024. Disponível em: https://www.aljazeera.com. Acesso em: 12 mar. 2026.

ALMEIDA, Paulo Roberto de. Cuba à beira do abismo: a última hora do museu castrista. Brasília: Instituto de Relações Internacionais, 2025. Disponível em: https://www.carnegieendowment.org/publications/cuba-crisis-2026. Acesso em: 12 mar. 2026.

AMERICAS QUARTERLY. Cuba’s generational divide and the future of the regime. New York: Americas Quarterly, 2025. Disponível em: https://www.americasquarterly.org. Acesso em: 06 mar. 2026.

AMNESTY INTERNATIONAL. Cuba: Human Rights Violations and International Accountability. London: Amnesty International, 2024. Disponível em: https://www.amnesty.org/en/documents/amr25/. Acesso em: 06 mar. 2026.

ANDERSON, Jon Lee. Che Guevara: A Revolutionary Life. New York: Grove Press, 1997. Disponível em: https://groveatlantic.com. Acesso em: 05 mar. 2026.

ATLANTIC COUNCIL. Cuba’s Future: Scenarios for Transition and Regional Stability. Washington, DC: Atlantic Council, 2025. Disponível em: https://www.atlanticcouncil.org/publication/cuba-transition-scenarios. Acesso em: 03 mar. 2026.

BANCO MUNDIAL. Relatório de Monitoramento Econômico: América Latina e Caribe. Washington, DC: World Bank, 2025. Disponível em: https://data.worldbank.org/region/latin-america-and-caribbean. Acesso em: 12 mar. 2026.

CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE. Cuba’s Geopolitical Shift: From Revolution to Protectorate. New York: Carnegie, 2026. Disponível em: https://carnegieendowment.org/publications/cuba-geopolitics. Acesso em: 06 mar. 2026.

CATO INSTITUTE. U.S. Policy Toward Cuba: Costs and Benefits of Intervention. Washington, DC: Cato Institute, 2025. Disponível em: https://www.cato.org/publications/policy-analysis/cuba-intervention. Acesso em: 12 mar. 2026.

CHATHAM HOUSE. Cuba in Crisis: International Dimensions and Humanitarian Concerns. London: Chatham House, 2025. Disponível em: https://www.chathamhouse.org/publication/cuba-crisis-international. Acesso em: 12 mar. 2026.

COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS (CIDH). Relatório sobre a Situação dos Direitos Humanos em Cuba. Washington, DC: CIDH, 2024. Disponível em: https://www.oas.org/es/cidh/informes/. Acesso em: 09 mar. 2026.

COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS (CFR). Cuba’s Economic Crisis and the Path to Transition. New York: CFR, 2025. Disponível em: https://www.cfr.org/publication/cuba-economic-crisis. Acesso em: 05 mar. 2026.

CSIS (CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES). Military Balance in the Caribbean: Cuba and Regional Security. Washington, DC: CSIS, 2025. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/cuba-military-balance. Acesso em: 12 mar. 2026.

ECONOMIST INTELLIGENCE UNIT. Cuba: Economic Forecast and Risk Assessment. London: EIU, 2025. Disponível em: https://www.eiu.com/. Acesso em: 12 mar. 2026.

FARO, Luiz Cesar. Cuba é a Próxima na Fila de Capturas de Donald Trump. Relatório Reservado – Especial -. Disponível em: https://relatorioreservado.com.br/?s=Cuba&search-type=normal&post_type=post. Acesso em: 03 mar. 2026

FOREIGN AFFAIRS. Cuba after the Castros. New York: Foreign Affairs, 2025. Disponível em: https://www.foreignaffairs.com. Acesso em: 12 mar. 2026.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI). World Economic Outlook: Crisis and Transition in the Caribbean. Washington, DC: IMF, 2025. Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/WEO. Acesso em: 12 mar. 2026.

GLOBAL FIREPOWER. 2026 Military Strength Ranking: Cuba vs USA. Disponível em: https://www.globalfirepower.com/countries-comparison.php. Acesso em: 03 mar. 2026.

GRANMA. Publicações oficiais do Partido Comunista de Cuba. Havana: Granma, 2024-2026. Disponível em: http://www.granma.cu. Acesso em: 12 mar. 2026.

INTERNATIONAL COMMITTEE OF THE RED CROSS (ICRC). International Humanitarian Law and Occupation: Legal Framework for Transitional Situations. Geneva: ICRC, 2023. Disponível em: https://www.icrc.org/en/document/occupation-and-international-humanitarian-law. Acesso em: 12 mar. 2026.

INTERNATIONAL CRISIS GROUP (ICG). Cuba: Navigating Transition and International Pressure. Brussels: ICG, 2025. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/latin-america-caribbean/cuba. Acesso em: 06 mar. 2026.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Energy Crisis in the Caribbean: Dependency and Vulnerability. Paris: IEA, 2025. Disponível em: https://www.iea.org/. Acesso em: 06 mar. 2026.

MIAMI HERALD. Investigations on GAESA and the Cuban military elite. Miami: Miami Herald, 2024-2026. Disponível em: https://www.miamiherald.com. Acesso em: 03 mar. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Carta das Nações Unidas. San Francisco: ONU, 1945. Disponível em: https://undocs.org/en/Charter. Acesso em: 12 mar. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Convenção de Genebra Relativa à Proteção de Pessoas Civis em Tempo de Guerra (IV Convenção de Genebra). Geneva: ONU, 1949. Disponível em: https://www.icrc.org/en/doc/war-and-law/treaties-customary-law/geneva-conventions/. Acesso em: 12 mar. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Convenção de Haia de 1907 sobre Leis e Costumes da Guerra Terrestre. The Hague: ONU, 1907. Disponível em: https://undocs.org/en/. Acesso em: 12 mar. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Convenção de Nova York sobre o Reconhecimento e a Execução de Sentenças Arbitrais Estrangeiras. New York: ONU, 1958. Disponível em: https://uncitral.un.org/en/texts/arbitration/conventions/foreign_arbitral_awards. Acesso em: 12 mar. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. Rome: ONU, 1998. Disponível em: https://www.icc-cpi.int/sites/default/files/RS-Eng.pdf. Acesso em: 12 mar. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Resolução 60/1: Documento Final da Cúpula Mundial de 2005 (Responsibility to Protect). New York: ONU, 2005. Disponível em: https://undocs.org/en/A/RES/60/1. Acesso em: 12 mar. 2026.

NAÇÕES UNIDAS. Resolução 68/262: Integridade Territorial da Ucrânia. New York: ONU, 2014. Disponível em: https://undocs.org/en/A/RES/68/262. Acesso em: 12 mar. 2026.

OBSERVATORIO CUBANO DE DERECHOS HUMANOS. Informe sobre la situación de los derechos sociales en Cuba. Madrid: OCDH, 2026. Disponível em: https://observacuba.org/informe-2026. Acesso em: 08 mar. 2026.

ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS (OEA). Convenção Americana sobre Direitos Humanos. San José: OEA, 1969. Disponível em: https://www.oas.org/dil/esp/tratados_b-32_convencion_americana_sobre_derechos_humanos.htm. Acesso em: 09 mar. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (Unesco). Old Havana and its Fortification System; Trinidad and the Valley de los Ingenios; Urban Historic Centre of Cienfuegos; Historic Centre of Camagüey; Viñales Valley. Paris: Unesco, consulta em 2026. Disponível em: https://whc.unesco.org. Acesso em: 12 mar. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório sobre Capacidade de Resposta do Sistema de Saúde em Contextos de Conflito. Geneva: OMS, 2024. Disponível em: https://www.who.int/pt/about. Acesso em: 12 mar. 2026.

S&P GLOBAL. Energy Crisis in the Caribbean: The Impact of Venezuelan Oil Cuts. London: S&P, 2026. Disponível em: https://www.spglobal.com/commodityinsights/en/market-insights. Acesso em: 05 mar. 2026.

THE GUARDIAN. Che Guevara’s afterlife in contemporary Cuba. London: The Guardian, 2024. Disponível em: https://www.theguardian.com. Acesso em: 03 mar. 2026.

THE NEW YORK TIMES. The meaning of Che in present-day Cuba. New York: The New York Times, 2024. Disponível em: https://www.nytimes.com. Acesso em: 09 mar. 2026.

UNCITRAL. Technical Guide on Investment Arbitration and Dispute Settlement. Vienna: United Nations, 2026. Disponível em: https://uncitral.un.org/en/texts/arbitration. Acesso em: 12 mar. 2026.

 

Rita Maria Scarponi (rscarponi@scarponiadv.com.br) – Advogada especializada em direito societário e administrativo, regulação, mercados financeiro e de capitais e meio ambiente. Ex-membro titular e vice-presidente do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN). Dedicada a estudos nas interfaces entre Direito Internacional, Filosofia Jurídica e Direitos Humanos.

Especial

Cuba é a próxima na fila de capturas de Donald Trump

4/03/2026
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O RR teve acesso a um position paper do Carnegie Endowment for Internacional Peace, um think tank norte-americano que varre com ênfase o cenário latino. Usando de uma metáfora, a apuração que emerge é que Cuba, depois da Venezuela, esteve a um minuto de deixar de ser um museu castrista e voltar a ser uma Angra dos Reis de Miami. Tudo a seu tempo. O conflito no Oriente Médio empurrou para um segundo momento o destino inexorável da ilha na gestão Trump. Ou seja: o país regrediu na fila do pacote de submissões geopolíticas aos Estados Unidos. Vai acabar se ajoelhando, virar protetorado. A nomenclatura cubana também não baixa a crista para desanuviar a tempestade que virá com Trump. Agora mesmo um novo belisco: a declaração do presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, que classificou a morte do aiatolá Ali Khamenei um ato vil e execrável. “Khamenei será lembrado em Cuba como um destacado líder e estadista”.
A aposta maior é que, ao contrário da Venezuela, cujo modelo foi uma gestão “pseudo compartilhada” e amistosa, Cuba seria anexada. Seus comandos não são tão obedientes quanto as raspas e restos que sobraram da soberania venezuelana. Os generais da ilha podem ter bem menos recursos de defesa, mas cairiam atirando. Para dobrar as dobradiças que ainda seguram fragilmente o regime – os comandos e o sobrenome Castro do Primeiro Secretário do Partido Comunista de Cuba, o “Raul” – os norte-americanos utilizariam suas técnicas de intimidação hiperbolizadas por Trump. Os cubanos têm seu orgulho, e a maioria certamente não aceitaria posar de ovelhas. Queira-se ou não, a luta por uma sociedade mais justa está introjetada nos seus corações e mentes. Ao mesmo tempo, não há como negar que a população está cansada da pobreza; e não quer voltar ao prostíbulo de Fulgêncio Batista. Porém, não tem a mesma firmeza quando se trata do trade off entre hambúrguer do McDonald e o caldo de cana de açúcar.
Há também o fator tempo. A satanização de ancien régime tende somente a se diluir – mais de 60% dos atuais moradores da ilha viveram sua fase adulta longe da era Batista no poder; haverá dúvida no meio dos jovens entre o que aconteceu de verdade e o que foi folclore daquele período. Com os algoritmos da IA, a motivação e a luta revolucionária cubana podem ter muitas versões. Mesmo com o sobrenome Castro ainda tremulando em pavilhões ou as t-shirts com o rosto de Che aplicada no peito, tudo indica que a maioria anseia ardorosamente por resorts, cassinos, shoppings. Parece gozação, mas não seria improvável que Trump, um especialista no binômio hotel e jogatina, inaugurasse os investimentos no setor de turismo, segmento com maior potencial econômico da ilha. Seria um ganho de marketing enorme para o presidente norte-americano. E com batalhões de drones ali bem ao lado, na Flórida (150 km de distância).
Os EUA, desde o último triênio do século passado, já tinham o passaporte para se sentar em um sofá na sala de Cuba. Parece que não o fizeram não exatamente pela temperatura quente ou fria das condições geopolíticas, mas por alguma perversão freudiana. Convém pontuar a análise com uma condicionalidade: Qualquer solução de mudança do regime somente ocorreria depois de uns demonstração de amistosidade, tal como ofertas de alimentos e garantias de energia. Uma mistura de “dronepower” com softpower. Mas Cuba tem tão pouco a oferecer e tanto a desejar, que, para Trump, seria como dar a xepa da feira. O lixo de Nova York abasteceria 10 cubas, é o que deve pensar o presidente norte-americano. Na linha do greenfield, talvez fosse possível criar um polo de exploração da piscicultura, proteína do mar, pequenos quintais fazendas de moluscos que gerariam emprego e fonte alimentar. A título de chiste, a JBS está aí mesmo para ser convidada a participar de um empreendimento do gênero.
O território marítimo de Cuba é pequeno, mas ajudaria no quesito alimentação do turismo com proteína fresca. Na verdade, Cuba, do ponto de vista estratégico, não interessa a nenhum dos próceres ideológicos do mundo, tais como Vladimir Putin ou Xi Jinping. Mesmo para Trump também não passa de um pouco de caspa para espanar do ombro. Mas, com o protagonismo do advento do Irã, Cuba regressa ao seu lugar de pulga no cangote dos EUA e candidata ao esmagamento nesses três anos que restam a gestão Trump. Até que o cenário do Oriente Médio se desanuvie e os cubanos bilionários que dominam o mercado o mercado imobiliário da ilha possam entrar efetivamente no jogo com seu arsenal de dólares, o grande capital segue estudando se Cuba será um balneário para as velhinhas endinheiradas da Flórida ou uma Disneylândia adulta.

#Cuba #Trump

Destaque

Trump, Cuba e Brasil no cassino da geopolítica

27/01/2026
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De tão tortas que são, as linhas da geopolítica de Donald Trump conectam pontos que, a princípio, não teriam qualquer relação entre si. O que têm a ver, por exemplo, Venezuela, Cuba e o jogo no Brasil? Em teoria, nada; na prática, quase tudo. Ainda que por vias oblíquas, a discussão em torno da reabertura de cassinos em território brasileiro ganha novos contornos com os movimentos hostis de Trump na América Latina – os já realizados e, sobretudo, os que ainda estão por vir. A julgar pelo giro da roleta na região, se o Brasil pretende entrar na rota dos grandes investimentos internacionais no setor, já está passando da hora de o Congresso e o governo tratarem do assunto com a maturidade e a celeridade que ele exige. Sob risco de o país desperdiçar (mais) uma notória oportunidade de atração de capital externo. Basta interpretar as cartas na mão de Trump. Brilhante, como de hábito, o jornalista Elio Gaspari já enxergou o pôquer trumpista algumas mesas à frente – vide o artigo “O nome do jogo é Cuba”, publicado na Folha de S. Paulo e em O Globo no último dia 6: “A Venezuela tem petróleo, e a Colômbia tem um presidente de esquerda, mas a joia da coroa que Trump busca é Cuba. Derrubar o regime dos irmãos Castro é coisa que vários presidentes americanos perseguiram. Um regime comunista a 145 km da Flórida justifica malquerenças, mas, para Trump, um empresário do setor imobiliário, lá está um tesouro, maior do que todos os butins dos piratas que vicejavam no Caribe nos séculos passados”.
A queda do regime castrista – um fruto passado, que ainda se mantém presa à árvore sabe-se lá como – é o sonho de todos os grandes conglomerados que atuam no binômio hotelaria/cassino nos Estados Unidos. O imaginário desses investidores é povoado pela Cuba de Fulgêncio Batista, um grande salão de jogos e de entretenimento dos Estados Unidos. Se o então vice-presidente norte americano Dick Cheney era o braço da indústria petroleira na gestão de George W. Bush, Trump é a cabeça, corpo e membros do setor imobiliário e dos cassinos em seu próprio governo. A derrubada do que ainda sobrou do regime de Fidel e Raul Castro – depois que Nicolás Maduro foi arrancado de seus aposentos, tudo soa como factível – abriria caminho para uma invasão de dólares na ilha e uma das maiores ondas de investimento em turismo na história do Caribe. É aí que o Brasil entra nesse jackpot. Ou não. Quanto mais se posterga a discussão sobre a reabertura ou não dos cassinos, mais o país corre o risco de perder definitivamente o timing para a atração de recursos internacionais. Se Cuba entrar nesse game, talvez não sobrem nem as fichas mais miudinhas para o Brasil.
O que está em jogo, literalmente em jogo, são investimentos de R$ 150 bilhões, a geração de aproximadamente 1,5 milhão de empregos e uma arrecadação tributária da ordem de R$ 20 bilhões. Em tese, trata-se do potencial estimado das 34 licenças federais para a instalação de complexos hoteleiros integrados a cassinos previstas no projeto de lei 2.234/2022 – um empreendimento por estado, à exceção de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, com até três concessões previstas. De todas as proposições relacionadas ao tema que já passaram pelo Congresso, o PL em questão é o mais madura e que mais avançou nos trilhos do Legislativo. Aprovado na Câmara e em tramitação no Senado, prevê não apenas a abertura de cassinos, exclusivamente vinculados a projetos hoteleiros, mas também o funcionamento de bingos e a legalização do jogo do bicho. Em conversa exclusiva com o RR, o senador Irajá (PSD-TO), relator do PL 2.234/2022, vai direto ao ponto ao alertar que o Brasil disputa investimentos em um terreno cada vez mais concorrido. “O Japão, uma cultura extremamente conservadora, recentemente flexibilizou sua legislação para atrair investimentos em resorts integrados. A Tailândia tem atraído bastante interesse. Nova York fez uma grande licença para a exploração três cassinos, com investimento de US$ 9 bilhões”.
O fato é que o Brasil é um território insular na geoeconomia do jogo, como bem ressalta o senador. Ao lado da Arábia Saudita, uma nação muçulmana, figura entre os dois únicos países do G-20 que não autorizam cassinos. O isolamento brasileiro se reflete na própria América do Sul. O Brasil tem apenas a companhia da Bolívia na proibição. “Enquanto isso, nossos vizinhos, Uruguai, Argentina e Chile, já vêm surfando nessa onda já há muito tempo”, diz o parlamentar. E, nesse cenário, há o fator Cuba à espreita. “Essa é uma hipótese pertinente. O tempo dirá. O capital vai onde é mais atrativo”, afirma o parlamentar. O senador Irajá chama a atenção ainda para um paradoxo: “É indefensável ter cassino no celular, acessível a qualquer pessoa, inclusive de baixa renda, e proibir o cassino físico, que é justamente o modelo que gera investimento, emprego e controle. A proibição não elimina o jogo, apenas o empurra para a clandestinidade. “Hoje, 100% desse mercado está ilegal”.
No Brasil, o principal entrave à liberação dos cassinos é de ordem moral, o que se reflete dentro do Congresso. A bancada evangélica se coloca como a frente de resistência à aprovação da proposta. No fim do ano passado, o Senado rejeitou o requerimento para que o PL 2.234 tramitasse em regime de urgência. Haverá um novo pedido nesse sentido? “Precisamos fazer uma avaliação voltando do recesso, para ver como estão os colegas do Senado e, então, tomar essa decisão. A partir dessa análise, veremos se é possível pautar o projeto no início do semestre ou se aguardamos para termos um ambiente favorável”, afirma o senador Irajá. Enquanto isso, Trump segue embaralhando as cartas, girando a roleta da geopolítica e olhando para Cuba, sem sequer precisar de binóculos.

#Brasil #Trump

O que precisa ser dito

De volta aos trilhos

6/10/2025
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Embora aguardada desde o encontro entre Lula e Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi auspiciosa a videoconferência desta manhã devido ao clima positivo e amistoso que ambas as partes confirmaram independentemente. Para um profissional que chama o Itamaraty de “minha Casa”, o mais importante foi o fato de que a notícia da reunião virtual pegou todo mundo de surpresa, não havendo ao que se saiba nenhum vazamento em Brasília ou Washington, embora certamente ela tivesse sido cercada de todo o ritual que envolve os diálogos entre chefes de Estado pois, de outra forma, nosso presidente não estaria acompanhado de seus principais auxiliares nos contatos com os Estados Unidos. Isso significa que a questão já se encontra na mão dos profissionais, quando são bem menores os riscos de acidentes de percurso.

Abre-se assim o espaço esperado para uma discussão de temas econômicos, ficando na lixeira da História a tentativa mal-sucedida de Trump de utilizar o julgamento de Jair Bolsonaro como um pretexto para atacar a soberania brasileira. Essa estratégia, sem dúvida preconizada por figuras malignas como Steve Bannon, atraiu Eduardo Bolsonaro para uma aventura suicida em que ele se julgou, junto a Paulo Figueiredo, capaz de ditar a política da Casa Branca com relação ao Brasil. Como recordação desse desvario, ficarão para sempre as imagens inesquecíveis da imensa bandeira norte-americana na Avenida Paulista e o boné MAGA usado por um Tarcisio sorridente.

Obviamente, Trump – que nada tem de louco pois é um frio negociador sempre disposto a voltar atrás quando as circunstâncias exigem – foi informado de que se transformara no melhor cabo eleitoral de Lula, vivendo meses atrás seu pior momento na política. Mais ainda, entregara de bandeja às forças da esquerda os símbolos nacionais verdes e amarelos que a direita vinha utilizando para caracterizar seu amor à Pátria e à família. Diante do comportamento impávido do Supremo Tribunal Federal, de importantes segmentos do próprio Congresso e sobretudo das ruas, as ameaças ruíram. Nada mais significativo disso do que a circunstância de Trump, em seu discurso na ONU, não haver nem mesmo mencionado o nome de Jair Bolsonaro ou sua condenação a vinte e sete anos de prisão. Para bons entendedores, página virada.

Há quem, ainda hoje, tenha ficado preocupado com a designação de Marco Rubio como principal responsável pelas futuras tratativas com a trinca Alckmin, Haddad e Vieira. Sem dúvida, o Secretário de Estado norte-americano, como muitos descendentes de famílias que tiveram de abandonar Cuba durante o regime de Castro, é uma figura que defende o alinhamento automático dos países da América Latina às diretrizes emanadas de Washington, que gostaria de ver o Brasil se afastar do BRICS, que prefere lidar com um Milei do que com Lula. Mas, a rigor, esses desejos sempre estiveram mais ou menos presentes em nosso relacionamento com os Estados Unidos e o que se vê ultimamente é um domínio absoluto de Trump sobre seus áulicos. Rubio fará o que seu mestre mandar.

Finalmente, conheceremos em breve, como era bem sabido, os reais interesses norte-americanos no tocante às Big Techs e seus data centers, bem como com aos minerais estratégicos e à maior presença do etanol no mercado brasileiro. No outro prato da balança estarão nossos interesses em eliminar os 40% de tarifas punitivas, já aplicada a uma gama bem menor de produtos do que se temia no primeiro momento, contando, nesse caso, com o trabalho dos empresários prejudicados nos dois países.

O que se recomenda agora é grande sobriedade da parte do Palácio do Planalto – aliás já visível desde que Lula se aprestava a ir a Nova York –, a necessária tranquilidade para que os profissionais possam trabalhar longe das luzes da ribalta. Repor um comboio de trens nos trilhos é tarefa de engenheiros especializados.

#Jorio Dauster #Lula #Trump

Destaque

Governo e STF montam dossiê contra Eduardo Bolsonaro

15/07/2025
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A cotação de Eduardo Bolsonaro na bolsa dos inimigos do Estado brasileiro disparou. Subestimado, mercurial, destemperado, capaz até de chamar o seu avatar, o ex-deputado Alexandre Frota para um ultimate fight na própria Câmara dos deputados, desde os idos do seu mentor, o filósofo de Carvalho, 03 foi preparado para ser o braço da extrema direita nos EUA.

O atestado do que já se sabia nas entrelinhas desde o jantar na Casa Branca, a indicação para que assumisse a embaixada do Brasil nos Estados Unidos, a circulação livre nos gabinetes do Departamento de Estado norte-americano, o “autoexílio” para a conspiração a luz do dia, veio por escrito – e embalado em sobretaxas comerciais. A carta publicada no Truth Social, site pessoal do presidente norte-americano, antes mesmo de chegar oficialmente ao Palácio do Planalto, acusava a perseguição judicial a Jair Bolsonaro como estopim para a medida de restrição tarifária.

Um gesto raro de interferência externa direta, que confirmou o que muitos em Brasília já desconfiavam: o novo ciclo do trumpismo está disposto a usar a política comercial como arma ideológica. Nesse teatro, Eduardo Bolsonaro é personagem central para o alinhamento ideológico estreito com o maior país da América do Sul. O 03 chegou a confidenciar com o empresário Luciano Hang, seu principal interlocutor empresarial, que, passo a passo, o legado de Jair seria seu, segundo apurou o RR. O tal legado, pelo que se vê, seria dividido com o presidente Donald Trump.

Principal “diplomata” do bolsonarismo em Washington, o deputado licenciado deixou de operar nas sombras, a costura da retaliação americana. Nos bastidores da Esplanada, a leitura é de que Eduardo transformou o desgaste judicial do pai em combustível para seu próprio projeto internacional — e virou, de quebra, o novo alvo do aparato estatal. O filho 03 passou de cabo eleitoral da ultradireita global a figura sob vigilância total do Estado brasileiro. Em que pese que as duas coisas não são excludentes.

A movimentação do governo nos últimos dias dá conta de uma ação coordenada, envolvendo da ABIN à Polícia Federal, com intenso apoio de diplomatas brasileiros baseados nos EUA. Eduardo é observado de forma contínua, com rastreio de contatos políticos, redes de empresários e presença em eventos públicos e fechados nos EUA. Fontes no Itamaraty confirmam que as ordens são para acompanhar cada passo do deputado, inclusive suas conexões com lobistas, parlamentares e operadores da ala MAGA. O foco está nas costuras feitas por Eduardo com figuras como Steve Bannon, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, o deputado pela Flórida, Cory Mills, membros de entidades como a Heritage Foundation, fundos de investimento, think thanks e plataformas conservadoras que orbitam o trumpismo. 

Além disso, o próprio governo Lula tem atuado para mapear o entorno político do 03 nos EUA. Em despachos reservados, parlamentares petistas buscaram nomes da ala progressista americana, como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, com o objetivo de compreender o alcance da articulação bolsonarista em Washington. Um gesto de contrainteligência, disfarçado de “diálogo multilateral”. O mais grave é que são evidentes as digitais das articulações de Dudu na malsinada carta de Trump condenando o governo brasileiro.

Do ponto de vista da máquina do Estado, Eduardo deixou de ser apenas um deputado (ou ex-deputado, se confirmar o exílio definitivo nos EUA) — virou um “Chê Guevara de extrema direita”, Um opositor em trânsito, articulando alianças internacionais e monitorado como ameaça interna. Mas ao muito ao contrário do original argentino (Chê não era cubano) atua com proteção oficial em Washington, onde é visto como peça-chave da retomada do eixo Brasil–EUA sob o selo da extrema-direita global.

Enquanto isso, do lado de cá, ainda que à distância, a situação do 03 se agrava. Se ele já era alvo de inquérito no STF (ora prorrogado por Alexandre de Moraes) por suspeita de interferência nos processos envolvendo seu pai, cresce agora a pressão sobre a PGR para transformá-lo formalmente em réu por obstrução de justiça e articulação contra o sistema jurídico nacional. A leitura entre os ministros é de que, hoje,  a margem de manobra e proteção tornam Eduardo uma ameaça política à Suprema Corte maior que Bolsonaro, inclusive no campo simbólico.

O problema é como enquadrá-lo. Um eventual pedido de prisão preventiva, baseado nessas acusações, teria efeito meramente simbólico, já que a deportação de Eduardo é vista como impossível. Se o blogueiro Allan dos Santos, que teve sua extradição dos Estados Unidos pedida pelo STF em novembro de 2021 – no governo Biden! – continua por lá, que dirá o darling brasileiro da extrema direita norte americana, com Trump no poder. E mesmo que fosse essa a intenção, seria ingênua: 03 pode pedir asilo político nos EUA a qualquer minuto. E não há quem diga que o pedido não será aceito.  

Mesmo que o Judiciário brasileiro se manifestasse de de forma mais dura apenas para mandar um recado, a iniciativa mostraria altivez ou apenas atiçaria ainda mais o presidente dos EUA? Pela lógica de Trump, o STF, ao mandar prender quem o acusa, estaria confirmando a tese de perseguição judicial. Um prato cheio para a rede política e de comunicação capitaneada por Steve Bannon, que “adotou” Eduardo de vez. O mesmo Bannon que, questionado se a taxa de 50% determinada contra o Brasil não seria uma extorsão política respondeu, animado: “It’s MAGA baby”. 

De uma forma ou de outra, tanto o STF quanto a estrutura de inteligência do Planalto operam na mesma direção: acompanhar e gerar o máximo possível de evidências sobre a atuação de Eduardo nos Estados Unidos, visando a intervenção do governo norte-americano no julgamento do pai, e o enquadramento de Dudu por crime de  coação. Se o indiciamento virá ou não são outros quinhentos. Em qualquer cenário, a Suprema Corte – Moraes à frente – quer ter à mão um caso sólido; e Lula um dossiê que sirva para bater no 03 e, de quebra, em qualquer potencial adversário que se associe às tarifas de Trump, como fez, ao menos inicialmente, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

#Eduardo Bolsonaro

Destaque

Fraude da Americanas: Ministério Publico estende investigações a Itaú e Santander

10/04/2025
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O escândalo contábil da Americanas está empurrando o Itaú e o Santander para o mesmo lócus onde foi incubada a Lava Jato: o Ministério Público Federal. De acordo com informações filtradas pelo RR, o MPF vai abrir um procedimento para apurar as denúncias contra os dois bancos feitas pelo ex-diretor financeiro da rede varejista Fabio Abrate em sua delação premiada. O órgão deverá pedir à Justiça que determine uma auditoria para averiguar uma eventual participação do Itaú e do Santander na fraude contábil da Americanas.

Em seu depoimento ao Ministério Público, Abrate acusou as duas instituições financeiras de terem escondido dados referentes às operações de risco sacado, informações estas que deveriam constar das chamadas cartas circulatórias enviadas à auditoria da empresa. Segundo o executivo, a cumplicidade do Itaú e do Santander se deu após a Americanas ameaçar romper contratos com os bancos. Em seu depoimento, Abrate chega a dizer que a fraude poderia ter sido estancada em 2016 caso os dois bancos tivessem se negado a camuflar a trapaça contábil.

Consultado pelo RR acerca da instauração de um processo investigatório contra o Itaú e o Santander, o MPF não quis fazer comentários, alegando que “o processo encontra-se sob sigilo”. Também procurado, o Santander não se pronunciou. O Itaú, por sua vez, “nega qualquer participação, direta ou indireta, na fraude contábil que a Americanas sofreu.

O banco sempre prestou às auditorias e aos reguladores informações corretas e completas sobre as operações contratadas pela empresa, conforme legislação vigente e melhores práticas de mercado. Conforme já esclarecido, os informes enviados às auditorias sempre alertavam para a existência das operações de risco sacado e da exposição de crédito da companhia aos fornecedores”. Ainda segundo o banco, “os diretores da Americanas envolvidos na operação interagiram com representantes do Itaú no sentido de retirar os alertas, como admitiu o ex-diretor Fabio Abrate em seu depoimento.

O banco nunca concordou com esse pedido e, diferentemente do que informou Abrate, manteve o texto que sinalizava a exposição da companhia ao risco sacado. O Itaú, inclusive, interrompeu, por mais de 6 meses, as operações de risco sacado. O Itaú reforça que a elaboração das demonstrações financeiras é de responsabilidade única e exclusiva da administração da empresa e repudia qualquer tentativa de responsabilização de terceiros por falhas ou fraudes nessas demonstrações.”

Investigações como esta sabe-se como começam, mas nunca onde podem terminar. Um dos maiores fatores de apreensão para o Itaú e o Santander, neste momento, é que as acusações feitas por Fabio Abrate venham a ser corroboradas por outros ex-executivos da Americanas. Até o momento, dos 13 antigos dirigentes da rede varejista denunciados pelo Ministério Público Federal, três já fecharam acordos de delação premiada – além de Fabio Abrate, estão nesse rol Marcelo Nunes, ex-diretor executivo financeiro, e Flávia Carneiro, ex-diretora executiva de controladoria. Esse número pode crescer.

Segundo uma fonte do MPF, outros dois ex-executivos da empresa abriram tratativas para também firmar um acordo de delação. Colaboração premiada está longe de ser um instrumento imune a narrativas farsescas. A história recente no Brasil mostra que sempre há o risco de o delator criminalizar terceiros com acusações infundadas para livrar a própria pele – um exemplo momentoso é a delação do tenente-coronel Mauro Cid, que mudou cinco vezes.

Caberá ao Ministério Público e à Justiça dizer se este é ou não o caso de Fabio Abrate. No entanto, a simples acusação feita pelo executivo já é suficiente para ter um impacto brutal sobre a reputação do Itaú e do Santander e colocar em xeque a estrutura de compliance de ambos.

No caso específico do Itaú, o timing da acusação é ainda mais doloroso.

A denúncia do ex-executivo da Americanas arde como arnica nas feridas já abertas no banco quando o assunto é compliance. Nos últimos meses dois casos atingiram em cheio a reputação e o orgulho dos Setúbal. O Itaú demitiu o executivo Alexsandro Broedel Lopes, que ocupava o cargo de diretor financeiro, sob acusação de violar “gravemente o Código de Ética da instituição”.

A instituição financeira encontrou “fortes indícios” de que Broedel era sócio de uma consultoria que prestava serviços ao banco. Segundo a própria instituição financeira, entre junho de 2019 e junho de 2024, Broedel contratou 40 pareceres da Care com um total de 21 pagamentos, no valor somado de R$ 13,255 milhões. Quase que no mesmo período, veio à tona a notícia de que o Itaú demitiu Eduardo Tracanella, até então chief marketing officer, por gastos pessoais e “inapropriados” em seu cartão corporativo.

São episódios graves, que, no mínimo, escancaram porosidades no compliance do banco da família Setubal. Mas nada que se compare a uma denúncia de cumplicidade com o maior escândalo contábil do Brasil, que agora paira sobre Itaú e Santander.

#Banco Itaú #Lojas Americanas #Santander

Política externa

Deportação é um recado didático de Trump ao mundo

27/01/2025
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Do embaixador Jorio Dauster em conversa com o RR: “Não há a menor dúvida de que, em obediência às leis internacionais e eventuais tratados de cunho bilateral, um país é obrigado a receber de volta seus nacionais que tenham entrado ilegalmente em outro país. No entanto, essa transferência é regida por uma série de normas que incluem o pré-aviso acerca do envio dessas pessoas e o respeito à integridade física delas mesmo que sejam usadas algemas e outras formas de controle durante o transporte em aviões.

Como aparentemente tais procedimentos não foram observados pelos Estados Unidos ao recambiar os primeiros colombianos durante a atual administração, o presidente Gustavo Petro se recusou de início a permitir a entrada no espaço aéreo de seu país de dois aviões militares norte-americanos, mas foi obrigado a ceder diante da reação autoritária de Donald Trump, pois nenhuma nação latino-americana pode sobreviver à suspensão de suas exportações para os Estados Unidos do dia para a noite.

Cuba e Venezuela já tiveram tempo para se adaptar e, no caso dessa última, são empresas norte-americanas e europeias (santa hipocrisia!) que vendem no exterior metade ou mais do petróleo daquele país. No entanto, a truculência como forma de atuação internacional não constitui uma prova de liderança e, sim, de força bruta, servindo como exemplo (caso Rússia e Israel, aliás, ainda precisassem disso) de que quaisquer outras nações que se julguem poderosas possam comportar-se da mesma forma mesmo que, no caso em tela, as canhoneiras dos tempos do big stick hajam sido substituídas por tarifas.

Além, é claro, de reavivar as chamas do anti-imperialismo e estimular grupos extremistas. Espero que o governo brasileiro cuide com grande sobriedade dessa questão, porém é certo que todos nós pagaremos um alto preço por tamanho retrocesso histórico gerado por aqueles que dizem comandar a maior democracia do planeta”.

#Donald Trump

Destaque

É possível transição energética no Brasil sem a Petrobras?

12/08/2024
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Qual será o rosto da Petrobras do amanhã: uma face virada para o passado, com o olhar fixo exclusivamente na exploração e produção de combustíveis fósseis, ou uma face voltada para o porvir, mirando a construção da grande empresa de energia lato sensu do Brasil? É o “Dilema de Janus” da estatal, uma complexa discussão que vem sendo travada no governo e no alto-comando da companhia e ainda longe de um consenso. No próprio Palácio do Planalto, há visões dissonantes em relação ao tema.

Mesmo porque qualquer movimento mais agudo da Petrobras gera forte impacto regulatório, competitivo, regional e, last but not least, político. O fato é que não há nenhuma outra empresa mais capacitada para liderar o processo de transição energética da matriz brasileira. A estatal tem fôlego financeiro, um corpo técnico altamente qualificado, presença em grande parte do território nacional e peso institucional, além de estar localizada em um país pródigo em sol, vento e água.

Falta, essencialmente, vontade política para a guinada. Com o reposicionamento estratégico da Petrobras, o Brasil passaria a ter uma grande indutora de investimentos em geração solar, eólica – inclusive offshore, vocação natural para uma empresa com mais de cem plataformas marítimas – e hidrogênio verde. Mais do que isso: a estatal funcionaria como uma espécie de “semi-reguladora” desse mercado. Na posição de maior player, a Petrobras teria condições de arbitrar o setor de energia renovável, guardadas as devidas proporções a exemplo do que historicamente sempre fez no óleo e gás.

No governo, uma das principais vozes a favor desse redirecionamento da Petrobras é o próprio Alexandre Silveira. O ministro de Minas e Energia defende que a estatal deve, a um só tempo, diversificar suas áreas de atuação e investir pesadamente em geração renovável – basta lembrar da sua queda de braço com o então presidente da empresa, Jean Paul Prates, que não fez nem uma coisa, nem outra. Uma das ideias já aventadas na Pasta de Minas e Energia seria a criação de uma companhia à parte, controlada pela Petrobras, que concentraria todas as suas operações em energia limpa.

Essa “Renovabras” poderia buscar recursos no mercado individualmente e emitir ações, sem impacto sobre a estrutura de capital da holding. Isso não quer dizer que a Petrobras tiraria o pé de exploração e produção. Pelo contrário. É o que a estatal sempre fez, faz e fará de melhor ainda por muito tempo. Até porque, goste-se ou não, é o próprio petróleo que financiará a transição energética da companhia. Hoje, a taxa de retorno médio real dos investimentos da empresa em exploração e produção é de 23%; nas fontes de baixo carbono, não passa de 8%.

O entendimento na Pasta de Minas e Energia é que a Petrobras do presente precisa começar a construir, desde já, a Petrobras do futuro. É inexorável que a estatal reduza o grande gap entre o seu portfólio de fontes fósseis e de energia limpa, um abismo que fica patente no próprio programa de investimentos da companhia. Em seu Plano Estratégico 2024-2028, a Petrobras prevê desembolsar US$ 11,5 bilhões em descarbonização das operações, biorrefino e energias eólica e solar. Ou seja: o equivalente a 11% do seu Capex. Para o mesmo período, os recursos destinados à exploração e produção somam US$ 73 bilhões, algo em torno de 71% do Capex.

Ressalte-se que, pouco a pouco, as grandes petroleiras internacionais têm ampliado o volume de recursos em projetos de baixo carbono. A média global ainda é relativamente pequena. No ano passado, segundo a Agência Internacional de Energia, as empresas de petróleo e gás destinaram cerca de US$ 30 bilhões à geração renovável, algo como 4% do seus investimentos totais. É pouco?

É. Mas cabe lembrar que, em 2019, esse índice sequer chegava a 1%. O CEO da Saudi Aramco, Amin Nasser, já disse publicamente que “a transição energética está fracassando” e “os formuladores de políticas deveriam abandonar a fantasia de eliminar petróleo e gás”. Ainda assim, a empresa destina 10% do seu plano de investimentos para fontes de baixo carbono – uma proporção ainda pequena, mas bem superior à média global, por exemplo. O governo da Arábia Saudita determinou, inclusive, que a companhia reduzisse sua produção de petróleo de 12 milhões para nove milhões de barris por dia para se adequar a acordos feitos pelos membros da Opep+. Outro exemplo é a BP, que está bem mais à frente: entre 2019 e o ano passado, a fatia de seus investimentos reservada para projetos de energia renovável saiu de 3% para 30%.

Essa é uma discussão que não fica restrita às muralhas do governo e à cúpula da Petrobras. Ela passa também por quem tem poder corporativo, ou seja, os funcionários da empresa e consequentemente suas entidades representativas. A Federação Única dos Petroleiros (FUP), por exemplo, toca de ouvido com o ministro Alexandre Silveira. Em conversa com o RR, a FUP deixou claro que considera a Petrobras a companhia mais apta para ser o grande player em transição energética no Brasil.

Para a Federação, a empresa “tem ampla expertise e know how no setor de óleo e gás e, agora, deve caminhar cada vez mais no sentido de se tornar uma empresa integrada de energia e servir como importante instrumento para viabilizar investimentos, pesquisa e inovação visando novas rotas tecnológicas que possam colocar o Brasil em uma melhor posição na nova divisão internacional do trabalho que se forma a partir das transições tecnológica e energética.” A FUP reforça que “a tendência das majors de petróleo e gás é tornarem-se grandes empresas de energia. Na realidade brasileira, com o nosso potencial para energias limpas e novas rotas tecnológicas, nos parece que, quanto maior e mais integrada for a Petrobras, e mais envolvida com o segmento de renováveis, maior será sua capacidade de captação no mercado financeiro.”

A Federação dos Petroleiros concorda com a premissa de que os investimentos em energia limpa e em combustíveis fósseis não são excludentes. A FUP lembra que “tem se manifestado em diversas oportunidades, como em audiências públicas, que parte da renda petroleira deve ser destinada a investimentos em transição energética. Ou seja, é preciso contar com os recursos oriundos da produção de óleo e gás no presente para não mais depender dessa renda no futuro.” A entidade, inclusive, faz coro ao ministro Alexandre Silveira, que propôs a criação de um fundo para a transição energética a partir dos recursos do petróleo.

Dentro da imensidão corporativa da Petrobras, com seus mais de 45 mil funcionários, inúmeros níveis hierárquicos e diferenças ideológicas, tudo temperado por uma compreensível defesa do próprio quadrado, há visões distintas sobre o futuro e o papel da companhia.  O RR conversou também com colaboradores da estatal na tentativa de aferir o estado de animus da “tropa” em relação ao tema.

Não é difícil verificar o quanto a “limpeza” da matriz energética da empresa provoca divisões intramuros. Os trabalhadores em exploração, produção, refino e logística defendem que a companhia continue sendo “apenas” o que sempre foi: uma petroleira. Algo na linha do “não me venham com novidades…”. O argumento é que o diferencial da empresa está na sua tecnologia, expertise e capital humano voltadas para exploração, produção e refino. Basicamente o que ela já provou ser capaz de fazer. Com maestria, diga-se de passagem. O “chão de fábrica” não quer saber nem de vento ou de sol; o futuro da Petrobras está na Margem Equatorial, a única fronteira petrolífera do país capaz de compensar o declínio da produção no pré-sal.

Na mão contrária, um grupo de funcionários de níveis hierárquicos mais altos entende que a Petrobras deve se tornar, sim, uma grande empresa de energia integrada, com um pé em geração limpa e outro em E&P.  Estão nesse recorte colaboradores que atuam em pesquisa, projetos e a área corporativa, possuem um olhar mais panorâmico sobre a estatal e são menos focados na operação em si.

Ainda que reconheçam que, a curto e médio prazos, o maior retorno financeiro da estatal virá dos ‘velhos negócios” em E&P e refino. Em algumas áreas da Petrobras, há uma crença na diversificação de riscos como solução para o futuro incerto dos combustíveis fósseis, com a entrada em negócios como biocombustíveis, eólicas e usinas solar. Há quem defenda, inclusive, que os colaboradores poderiam ser distribuídos em células variadas de projetos. Seria uma forma de transformar a Petrobras em uma “incubadora de energia”, com o desenvolvimento de empresas e startups. As “energytechs” promissoras poderiam tornar-se subsidiárias ou coligadas da holding. Esse modelo permitiria a entrada de investidores privados e futuramente até a abertura de capital das sociedades em mercado.

Existe ainda um terceiro agrupamento, que já foi o mais forte na Petrobras e agora vem recuperando seu poder de influência com a presença de Lula no governo. São colaboradores que acreditam no modelo de empresa “do poço ao posto”, com uma maior diversificação dos negócios. De forma sintetizada, defendem a visão dos sindicatos, muito focada na soberania nacional.

A compreensão é que a companhia deve ser um braço do governo para acelerar investimentos, controlar preços, gerar emprego e produzir e distribuir renda. Ou seja, a empresa deveria verticalizar suas operações, inclusive com a reestatização da BR Distribuidora, atual Vibra, e dos gasodutos e refinarias vendidos na gestão Bolsonaro. Esses funcionários defendem que a companhia tem de entrar em setores afins a suas atividades e necessários para o desenvolvimento do país, como energia renovável e fertilizantes. Em linhas gerais, é uma fração da companhia que deseja uma “estatização” ainda maior da Petrobras.

#BR Distribuidora #Ministério de Minas e Energia #Petrobras

Economia

Making off de Meirelles no BC fala mais sobre o Lula III do que o Lula I

5/07/2024
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Nos jornais, em meio à efeméride de comemorações dos 30 anos do Plano Real, pipoca ali e acolá que o novo regime monetário influenciou Lula a escolher Henrique Meirelles, um nome de agrado do mercado e garantia contra heterodoxias, para a presidência do Banco Central. O mesmo motivo tinha pesado em favor da indicação de Antonio Palocci para a Fazenda. Em relação a Palocci, a assertiva está correta. Lula tinha medo de um ataque especulativo dependendo da equipe econômica a ser anunciada. Na campanha eleitoral contra o candidato de FHC, José Serra, o mote de que Lula acabaria com o Real chegou a ser usado, quando ninguém falava no termo fake news. Mas Palocci, apesar do trânsito com a elite empresarial, não era um escudo suficiente. A blindagem para evitar uma razia especulativa tinha de ser incontestável.
É nesse ponto da história que entra a figura de Meirelles. Só que o enredo do achado é bem diferente do convite protocolar para a titularidade da autoridade monetária. A indicação do então presidente do First Boston para o BC de Lula foi costurada por um trio improvável: o presidente do grupo Brasilinvest, Mário Garnero, o advogado e super lobista Jorge Serpa, e, principalmente, José Dirceu. Curioso o papel relevante do “maior embaixador de Cuba” no Brasil ter sido o de grande articulador junto ao governo norte-americano de um banqueiro brasileiro que operava naquelas plagas. A escolha tinha de ser de um ortodoxo financista puro-sangue, que, a título de comparação, faria do atual presidente do BC, Roberto Campos Neto, um economista de esquerda. Mais interessante ainda é a aprovação ter sido feita diretamente pelo então vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, controverso até a alma, com negócios com a indústria armamentista e a petroleira Halliburton. As conexões de Dirceu com os EUA começam em um almoço confidencial articulado por Garnero, na sede da Brasilinvest, com a embaixadora norte-americana no Brasil, Donna Hrinak.
Nesse encontro, foram combinadas ações conjuntas, entre as quais uma carta de Garnero a Dick Cheney – o empresário tinha em seu conselho o ex-secretário de Estado dos EUA George Shultz, além de várias conexões com autoridades norte-americanas – recomendando um encontro pessoal com Dirceu para um assunto de relevância na política bilateral entre os dois países. Jorge Serpa, que falava com todo mundo e tinha sido, anteriormente, de grande serventia para FHC em “operações complicadas”, foi acionado para “lubrificar” os contatos nos EUA. Acertado o encontro, Dirceu foi conversar com o vice norte-americano. Nessa reunião, foi batido o martelo para a sondagem a Meirelles, que informalmente já tinha sido feita, é claro. O resto da história todos sabem. Os documentos oficiais sobre esses eventos já são públicos. Eles explicam em alguma parte porque o governo Lula I foi tão diferente do atual governo Lula III.

#Banco Central #Henrique Meirelles #Plano Real

Eleições

Há muitas perguntas sem resposta na busca do Google

29/04/2024
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A decisão do Google de cancelar qualquer propaganda de cunho político na plataforma Google Ads a partir de maio é considerada cheia de furos. Há quem levante dúvidas se o site poderá reproduzir ou não a íntegra ou trechos do programa eleitoral gratuito, assim como qualquer citação aos debates eleitorais, inclusive a realização deles. Outra é se estão vedadas as fotos pretéritas dos candidatos, tipo álbum de família ou fotos descontextualizadas da política.

Também não está claro se imagens da simples rotina do pleiteante aos cargos poderá ser postada ou não, a exemplo de fotos inocentes do seu cotidiano pessoal. E finalmente não se sabe os critérios dos algoritmos que farão a seleção das fotos proibidas e liberadas. Em síntese, pode ser tudo isso, ou nada disso.

A medida, por um lado, parece justa, pois reduz o impacto da variável dinheiro nas campanhas eleitorais. O fator impulsionamento no YouTube, que pertence ao ecossistema digital da holding Alphabet, assim como a replicação no Google, se tornou uma das armas de maior calibre nas disputas políticas. Por outro lado, exacerba a discussão sobre o direito à liberdade de expressão no país e fortalece as demais redes sociais como instrumento das campanhas eleitorais. E é importante apontar que os próprios vetos a imagens, com suas respectivas explicações do motivo da sua proibição, se a medida chegar a esse ponto, poderão ser usadas com objetivos políticos. Tecnicamente está longe de ser impossível.

Os Estados Unidos têm um departamento de controle que veda integralmente as publicações de qualquer natureza nos seguintes países: Crimeia, Cuba, Irã, Coreia do Norte, Síria, República Popular de Donetsk e República Popular de Lugansk. Não é difícil deduzir que os motivos dessa proibição são de caráter geopolítico. A tecnologia por razões políticas é usada nos Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Nova Zelândia, Israel e Taiwan. Há discussões sobre a utilização de um fundo para financiar jornalistas que denunciem eventuais informações de caráter político.

Não seria uma espécie de macarthismo digital monetizado? Menos, bem menos, no final a pretensa censura deverá ficar restrita mesmo aos impulsionamentos. Ao que tudo indica, o case da inglesa Cambridge Analytica, banida após usar indevidamente dados de 87 milhões de usuários do Facebook para enviar material de campanha de Donald Trump, deixou algumas lições. A política de integridade, por enquanto, está somente vinculada ao Google e ao YouTube, que fazem parte do mesmo grupo. Mesmo que se trate de uma decisão de caráter privado, e atinja menos o conteúdo do que o próprio faturamento das empresas, é bem provável que seja levada à apreciação do TSE.

#Google Ads #TSE

Política

Um roteiro sob medida para Gleisi Hoffmann

4/04/2024
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A título de blague: recomenda-se ao chanceler Mauro Vieira transferir o embaixador do Brasil em Havana, Christian Vargas, para dar lugar à presidente do PT, Gleisi Hoffmann, que levaria a tiracolo o namorado Lindbergh Farias, no cargo de adido. Só faltaria isso para explicar a visita do casal a Cuba para firmar um acordo de “cooperação e intercâmbio” com o Partido Comunista local. Segundo Gleisi, a parceria prevê “troca de experiências”. Que experiências? Mais não disse. Como também não disse como o Brasil pode ajudar Cuba em meio ao bloqueio que “o país está sofrendo”, aceno feito ao próprio presidente Miguel Díaz-Canel, em encontro no último dia 28 de março. Tudo muito doido. Nessa linha, talvez a próxima parada da embaixadora extraoficial Gleisi Hoffmann e do seu adido consorte, “Lindinho”, pudesse ser um encontro com Kim Jong-un, o “Líder Supremo” da Coreia do Norte, em Pyongyang.

#Gleisi Hoffmann #Lindbergh Farias

Empresa

O venture capital da Andrade Gutierrez vem aí

7/12/2023
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A Andrade Gutierrez pretende retomar no ano que vem os planos de criação de um braço de venture capital, com recursos próprios. Nos últimos dois anos, o projeto foi e voltou, voltou e foi de novo em pelo menos três ocasiões. A diferença é que agora a empreiteira não vai sair do zero. Em setembro, iniciou um programa de corporate venture builder (CVB), para incubar startups em estágio mais inicial, quase embrionário. Dentro da própria Andrade Gutierrez, o projeto foi idealizado desde o início como uma proxy para o lançamento de um fundo de VC.

#Andrade Gutierrez #startups #Venture capital

Política externa

Governo Lula aumenta os tentáculos da Apex no exterior

21/11/2023
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A reabertura do escritório da Apex em Lisboa é apenas o ponto de partida. O governo Lula pretende ampliar significativamente a capilaridade internacional da agência. O projeto é tocado por Geraldo Alckmin e assessores no âmbito do Ministério do Desenvolvimento e da Indústria. A próxima fornada contemplaria a abertura de representações da Apex em Londres, Nova York e Nova Dehli. É a reversão do enxugamento da agência no governo de Jair Bolsonaro. Entre outras cidades, a gestão Bolsonaro fechou escritórios da Apex em Cuba e na África.

#Geraldo Alckmin #Jair Bolsonaro #Lula #Ministério do Desenvolvimento e da Indústria

Destaque

O setor de construção pesada vai voltar. E quem diz é José Dirceu

21/06/2023
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Ainda sobre a breve, mas fulgurante, passagem de José Dirceu pelo Rio, na última sexta-feira, dia 16 de junho. Em palestra noturna, seguida de jantar com o grupo Prerrogativas – conforme noticiou o RR  – Dirceu deitou falação no que considera o maior tumor produzido pela Lava Jato: a destruição da construção pesada. O ex-ministro diz que o presidente Lula tem a mesma opinião. Afirmou que tem contatos na América Latina, a mais atingida pelo escangalhamento do setor – “na verdade, quem foi mais atingido fomos nós mesmos”, sublinhou. Dirceu informou que vai trabalhar pelo soerguimento da construção pesada. Só não disse como. Seja lá como vai poder ajudar esse segmento, que já teve suas grandes empresas todas ranqueadas no topo das maiores do Brasil, a verdade é que a premissa de Dirceu está certa, certíssima.  

Com a Lava Jato foi construída uma narrativa para “criminalizar” também as empreiteiras e não somente os dirigentes e sua rede de operadores, que cometeram falcatruas. Verdade seja dita: no desmonte da construção pesada, os juízes deram o kick off e se acumpliciaram, com omissões e associações indevida, aos demolidores da construção pesada. Mas não foram os protagonistas da destruição das companhias, papel que coube aos órgãos de controle, liderados pelo TCU. Este cometeu uma espécie de macartismo empresarial. Praticamente quebrou o top ten das empreiteiras. Atrocidades foram cometidas, como o cancelamento de contratos de obras e a suspensão do crédito público. Uma a uma, empresas como Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, que vinham, inclusive, investindo na diversificação das suas atividades, tiveram de vender todos os novos projetos. Um braço importante do seu core business, a comercialização no exterior de serviços de engenharia, simplesmente se desmilinguiu. Ao mesmo tempo, acabaram sendo “expulsas” das centenas de obras que construíam no Brasil.  

Para bom observador, José Dirceu veio dar este recado como ventríloquo de Lula. O ex-ministro, apesar da grande discrição, toca de ouvido com o presidente, que já disse pública e enfaticamente que vai recuperar a construção pesada nacional e retomar a exportação de serviço. Lula tem, inclusive, relações de afeto no setor, a exemplo de Emílio Odebrecht.  

De acordo com Dirceu, o presidente está, sim, decidido a destruir o legado do lavajatismo. E o resgate das grandes empreiteiras é uma das ações que vão nesta direção. O ex-todo poderoso chefe da Casa Civil observou que um dos eixos da geopolítica de Lula é justamente retomar o protagonismo nos continentes, sobretudo na América Latina e na África, contendo também a expansão da China nas mesmas regiões. A exportação de serviços assim como a defesa da inclusão ou fortalecimento da participação dos países de ambos nos foros multilaterais são instrumentos com os quais o assessor de Lula, Celso Amorim, conta para fazer valer a geopolítica brasileira. Segundo José Dirceu, as condições presentes são ainda mais favoráveis para o Brasil retomar seus mercados.  

O movimento imediato no xadrez da defesa é a desmontagem na CCJ da PEC esdrúxula que vem sendo articulada pela oposição para impor a exigência de aval do Congresso Nacional em caso de financiamento de bancos públicos federais a engenharia de obras no exterior. Em tempo: Dirceu não gastou tempo falando em Cuba, um dos pivôs do discurso de satanização da venda de serviços de engenharia, apesar das sabidas fortes relações com a pequena ilha. Se Lula é eminentemente um pragmático, conforme já foi dito, Dirceu disputa com ele o posto de referência nesse quesito. O Grupo Prerrogativas é um coletivo de juristas e magistrados mais ativos no combate à Lava Jato e na defesa da democracia. 

#Andrade Gutierrez #Camargo Corrêa #José Dirceu #Lava Jato #Odebrecht #TCU

Destaque

Como a BAT pretende reagir à mordida do Imposto Seletivo

12/06/2023
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Dessa vez, o medão do Fisco chegou ao topo do termômetro da BAT (British American Tobacco). Os funcionários, o elo frágil da correia, já se organizam para ver o que fazer com a inevitável demissão em massa na companhia. O ministro Fernando Haddad anunciou que o governo vai mesmo lançar o Imposto Seletivo (IS), que grava os produtos prejudiciais à saúde. No balaio do IS cabem baratas e lagartixas. Entre elas, com certeza estarão os cigarros. O RR acompanha de perto essa novela desde 2016, no governo Temer, quando surgiram os primeiros raios de uma tributação mais pesada sobre o tabaco. Posteriormente, na gestão Bolsonaro, o então ministro Paulo Guedes chegou a ensaiar a criação do “Imposto do Pecado”, que incidiria sobre cigarros, cigarros, bebidas alcoólicas e produtos com adição de açúcar. A antiga Souza Cruz conseguiu se safar de todas as investidas. Agora, ao que tudo indica, não há mais rota de escape. O Imposto Seletivo, segundo fonte do RR, levará a três movimentos reativos por parte da BAT Brasil: os dois primeiros, de curto prazo, serão intensificar o lobby – legítimo diga-se de passagem – para combate ao contrabando de cigarros pelo Paraguai (que caiu, por sinal) e sofisticar suas operações de arbitragem nas exportações e importações. Sabe-se que depois de Lula e das falecidas empreiteiras, quem tem mais carinho por Cuba é a BAT. A empresa às vezes importa mais para o Brasil, as vezes exporta, e tem uma joint venture com o governo cubano – à Brascuba Cigarrillos, em associação com a Tabacuba. A Brascuba é uma caixa preta. A empresa também produz os cigarros da mítica marca Cohiba.  

O terceiro movimento, esse mais estratégico e trancado a sete chaves, é como surfar a inexorável disseminação da cultura do cânhamo – leia-se maconha. Não se trata de um pensamento simplório de que a BAT vai fazer o “lobby do baseado”, para produzir e comercializar cigarros da erva. Até pode ser em algum dia, mas não está na mira agora. O que está no foco é o canabidiol, substância extraída da maconha, cujas várias bulas possíveis indicam da cura da isquemia ao calo do pé, entre dois milhões e quinhentas enfermidades. Ironias à parte, o canabidiol tem base científica e vai invadir o mercado. A BAT é que tem a melhor estrutura já montada para plantio, escoamento e logística do insumo do novo super remédio. Pode ficar somente nesta atividade primária como também verticalizar a produção e fabricar o canabidiol, em uma empresa subsidiária ou associada com um dos laboratórios que estão surgindo com vocação de líderes no setor.  Consultada pelo RR, a BAT Brasil não se pronunciou.

Ressalte-se que a BAT já tem feito investidas nessa direção em diversos países. No ano passado, por exemplo, comprou uma participação na empresa alemã Sanity Group, fabricante de produtos à base de cannabis. Em 2021, adquiriu um pedaço da Organigram, uma das líderes do setor no Canadá. É essa combinação de fatores que Aldous Huxley não teve tempo de incluir na sua obra “Admirável Mundo Novo”. Cuba, BAT, maconha, canabidiol e Brasil e uma eventual maresia entorpecedora. Seria cômico se não estivesse próximo de se transformar em real. 

#BAT #Fernando Haddad #Paulo Guedes

Política externa

Governo angolano quer financiamento brasileiro para obra da antiga Odebrecht

9/06/2023
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A agenda da visita do presidente Lula a Angola, prevista para agosto, terá um item indigesto. O governo angolano sinalizou ao Itamaraty a intenção de pleitear um empréstimo para a construção do terminal oceânico de Dande, na província de Bengo, a pouco mais de 60 km da capital Luanda. A obra está orçado em US$ 500 milhões. Seja pelo financiamento à exportação de serviços, seja pelo responsável pela obra -, a OEC, leia-se Novonor, a antiga Odebrecht -, trata-se de um assunto que tem tudo para turvar a viagem de Lula ao país africano. A negociação remonta a operações controversas dos dois primeiros governos Lula, como, por exemplo, o crédito à construção do Porto de Mariel, em Cuba, pela própria Odebrecht. 

Em tempo: por uma estranha coincidência, há cerca de dois meses surgiram nas redes sociais informações de que o governo Lula estaria financiando uma outra obra da própria OEC em Angola, a construção de uma ferrovia de 260 km entre as cidades de Luena e Saurimo. O empréstimo foi negado tanto pelo governo brasileiro quanto pela empreiteira. 

Destaque

Empréstimo do BNDES para gasoduto argentino será vinculado a encomendas no Brasil

14/04/2023
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O financiamento do BNDES para a construção do gasoduto de Vaca Muerta, na Argentina, deve trazer algumas variáveis diferentes em relação a operações similares fechadas por governos petistas no passado. Uma delas é uma amarra que pode trazer dividendos para a indústria brasileira. Segundo o RR apurou, a ideia que começa a ganhar corpo no banco é vincular o empréstimo à garantia de aquisição junto a fabricantes no Brasil de parcela dos insumos empregados na obra. Ou seja: uma regra de “conteúdo local” por vias oblíquas. Seria a contrapartida para a liberação de aproximadamente US$ 700 milhões, cm o objetivo de financiar a construção do segundo trecho do pipeline, entre Buenos Aires e a província de Santa Fé, onde já existe uma rede de dutos até Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.  

Outro dispositivo seria buscar uma solução de funding – via Tesouro ou o próprio BNDES – para que essas indústrias efetivamente recebam pelo fornecimento de produtos. Há um histórico de não pagamento de empréstimos internacionais da agência de fomento, vide Cuba e Venezuela, que devem mais de R$ 4 bilhões à instituição. Ressalte-se que, no caso da Argentina, a classificação de risco é ainda maior. O país vive uma delicada situação financeira e uma crise cambial. Em matéria publicada pelo site Brazil Journal na última quarta-feira, o diretor de finanças da Suzano, Marcelo Bacci, descortinou um pedacinho do problema ao mencionar que o lucro de exportadoras brasileiras fica retido na Argentina.

Essa tentativa de hedge seria uma forma de aplainar as críticas ao governo Lula pelo financiamento de obras no exterior, algo, inclusive, que poderia vir a ser replicado em outros projetos. Ocorre que anteriormente, mesmo a condicionalidade não estando presente, o propósito da exportação de serviços sempre foi aumentar a demanda por produtos brasileiros. De uma forma ou outra, isso foi feito. Não deverá ser muito diferente.

Caso o acordo seja levado adiante, uma das potenciais beneficiadas com a medida seria a Tenaris Brasil, leia-se o grupo ítalo-argentino Techint. Desde já, a empresa, uma dos maiores fabricantes de dutos da América Latina, desponta como forte candidata ao fornecimento para Vaca Muerta, a partir de sua fábrica em Pindamonhangaba (SP). Ressalte-se que o grupo já atua na construção do primeiro trecho do pipeline, entre Neuquén e Buenos Aires.  

#BNDES #Marcelo Bacci #Suzano #Techint #Tenaris Brasil

Internacional

Colômbia quer participação de Lula no acordo de paz com guerrilheiros

1/12/2022
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O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, fez chegar a assessores de Lula o convite para que o futuro governo brasileiro participe das negociações para um acordo de paz com o Exército de Liberação Nacional (ELN). Petro está retomando as tratativas com a organização guerrilheira colombiana, suspensas há quatro anos – curiosamente, em sua juventude, ele próprio participou de um grupo similar, o extinto M19. Venezuela, Cuba e Noruega já participam do processo de diálogo. No entanto, a atuação direta do Brasil, maior liderança geopolítica da América do Sul, daria outro peso à condução das negociações. Some-se o fato de que o acordo de paz é do interesse brasileiro.  

Ainda que as principais bases de operação do ELN, última guerrilha ativa na Colômbia, se concentram na fronteira com a Venezuela, a organização tem ramificações no Brasil há tempos investigadas por órgãos de Inteligência. Há suspeitas de ligações com o Comando Vermelho, maior facção criminosa do Rio de Janeiro. Trata-se de um tema que, não é de hoje, mobiliza a Defesa dos dois países. Em novembro de 2019, por exemplo, o então comandante do Exército da Colômbia, general Nicácio Martínez Espinel, reuniu-se, em Brasília, com o general Edson Pujol, à época no Comando do Exército brasileiro. Consta que, entre outros assuntos, discutiram ações conjuntas de enfrentamento do ELN. 

#Colômbia #Gustavo Petro #Lula

Startups da Arezzo

9/08/2022
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A Arezzo reservou R$ 20 milhões para a sua incubadora de startups. Segundo o RR apurou, a empresa analisa mais de 30 projetos nas áreas de varejo e logística. Ressalte-se que a Arezzo mantém ainda um braço de venture capital, o ZZ Ventures, com recursos da ordem de R$ 30 milhões.

#Arezzo #ZZ Ventures

Ameaça de terrorismo faz voo rasante sobre o lado de baixo do Equador

14/07/2022
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Investigações em curso na Justiça da Argentina apontam para uma participação da Abin num intricado caso que envolve a apreensão de um cargueiro da venezuelana Emtrasur, no Aeroporto Internacional de Buenos Aires. No início de junho, o órgão brasileiro alertou a Agência Federal de Inteligência da Argentina sobre o vaivém suspeito da aeronave. Outros dois países fizeram o mesmo no mês passado. Assim, tão logo pousou, o Boeing foi apreendido. E a tripulação confinada em um hotel, sob investigação. O foco principal está no piloto e no copiloto, ambos iranianos.

Desconfia-se que tenham vínculos com a Força Quds, um braço paramilitar da Guarda Revolucionária Iraniana, responsável pela execução do programa atômico e de mísseis de Teerã. Havia mais 12 pessoas a bordo, todas venezuelanas, aparentemente algumas sem qualquer conhecimento de aviação. Todos negam irregularidades. O voo de Querétaro, no México, a Buenos Aires, trazia peças automotivas para a SAS Automotriz.

A empresa ligada ao francês Faurecia admite que a carga era sua – componentes destinados à produção de painéis de instrumentos e assentos para o Volkswagen Taos. Mas algumas coisas intrigam os investigadores. As peças para o modelo pesavam cerca de 45 toneladas no todo, em um imenso avião com capacidade de transportar o dobro. Sobre o copiloto pesa a suspeita de ter feito uma cirurgia plástica que mudou as feições de seu rosto.

O mesmo cargueiro esteve recentemente no Paraguai. Dali saiu carregado com tabaco, destinado a Aruba (outra carga leve). Depois de breve passagem por Cuba chegou ao México. Outro dado curioso sobre o avião é que ele só foi detido na Argentina depois de ter decolado dali e ido ao vizinho Uruguai para ser abastecido. Como não foi autorizado a pousar, ele retornou a Buenos Aires, onde acabou apreendido. Consultada pelo RR, a Abin não negou participação. Preferiu responder apenas que não iria comentar o caso.

#Abin #Argentina #Emtrasur

O mapa de riscos globais da Escola de Guerra Naval

2/08/2021
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Boletim elaborado pela Escola de Guerra Naval (EGN), com data da última quinta-feira, dia 29 de julho, mostra como a Marinha está enxergando, neste momento, a geopolítica mundial. O paper, que circula no meio militar, estabelece uma espécie de ranking em função de maior ou menor risco global, apontando o principal fator para cada avaliação. Na visão da Marinha, há seis países classificados como de “alto risco”: Haiti – por conta de sua “crise estrutural”; Moçambique, devido ao “conflito entre governo e forças
insurgentes”; Myanmar, em razão do recente “golpe militar”; Iêmen, em função da “guerra civil e crise humanitária”; e Afeganistão, em face da “insegurança regional”.

Por fim, como não poderia deixar de ser, a vizinha Venezuela, país que merece atenção redobrada da área de Defesa por conta de sua “crise estrutural” – como indica o boletim. Os países considerados de “médio risco”, com os respectivos motivos principais, são: Tunísia (“Parlamento suspenso pelo presidente”); Mali (“Instabilidade política”), Níger (“Aumento da atividade terrorista na região”); Nigéria (“Ataques insurgentes”); Etiópia (“Conflito entre governo e forças insurgentes”); Somália (“Crise política”); Síria (“Insegurança regional”); Líbano (“Crise estrutural”); Belarus (“Crise política e tensões com o bloco europeu”); e Ucrânia (“Tensões transfronteiriças com a Rússia”). Outras dez nações estão enquadras, segundo a avaliação de risco da Escola de Guerra Naval, na categoria “Monitoramento”, duas delas limítrofes ao Brasil: Colômbia (“Crise estrutural”) e Peru (“Crise eleitoral”). Completam este grupo Cuba (“Crise estrutural”), Nicarágua (“Crise política”); El Salvador (“Crise política”); Líbia (“Em cessar-fogo”); Armênia e Azerbaijão (“Conflito na região de fronteira de Nagorno-Karabakh”); Irã (“Protestos sociais e contrários ao regime”); e África do Sul (“Agitação civil”).

Também em “Monitoramento” encontram-se as regiões do Mediterrâneo Oriental, devido às “Tensões entre Grécia e Turquia e ocupação do Chipre”, e do Mar do Sul e do Leste da China, Hong Kong e Taiwan, em razão da “Expansão chinesa sobre as regiões”. Deve-se ressaltar que Tunísia, Irã e África do Sul aparecem no paper da EGN assinaladas como “Novidades no mapa” dos riscos globais. No boletim, a Escola de Guerra Naval faz uma ressalva de que a análise desconsidera a pandemia de Covid-19. O que não quer dizer que a tragédia sanitária global não seja, de alguma forma, contemplada na avaliação de risco da instituição. No mesmo paper, a EGN traz um mapa com os principais países afetados pela Covid-19 – no qual se destacam, negativamente, o top 5 em número de casos da doença (Estados Unidos, Índia, Brasil, Rússia e França) –, além de uma tabela com o ritmo de vacinação em dez nações.

#Marinha

Mojito

20/01/2021
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José Dirceu tem dito a velhos companheiros do PT que Lula está perdendo uma oportunidade de ouro de avançar sobre a jugular de
Jair Bolsonaro. Nas últimas semanas, enquanto João Doria deita e rola no episódio da vacina, o ex-presidente está em Cuba, gravando cenas para um documentário de Oliver Stone.

#José Dirceu #Lula #PT

Foro de São Paulo

18/01/2021
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Além da Venezuela, o governo de Cuba também teria oferecido o envio de oxigênio para hospitais de Manaus, que entraram em colapso. Parece até provocação…

#Manaus

Bolsonaro segue o “mestre” na OEA

21/01/2020
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O presidente Jair Bolsonaro fará mais um agrado à Casa Branca. De acordo com informações filtradas do Itamaraty, o governo brasileiro vai apoiar a reeleição do uruguaio Luis Almagro ao cargo de secretário-geral da OEA – o pleito está marcado para 20 de março. Mais uma vez, o alinhamento – ou subserviência – aos Estados Unidos significará o rompimento com tradições diplomáticas brasileiras.

O voto do Brasil deverá caminhar na contramão do posicionamento da maioria dos países da América do Sul, a começar pela Argentina, favoráveis à candidatura da equatoriana Maria Fernanda Barbosa. Diplomata de carreira, Maria Fernanda foi chanceler do Equador em Buenos Aires e presidiu a mais recente Assembleia Geral da ONU. É tida como a favorita para liderar a OEA. No mapeamento feito pelo próprio Itamaraty, ela teria hoje 19 dos 33 votos do colégio eleitoral. José Almagro é visto como uma extensão da Casa Branca na OEA.

Costuma demonstrar sintonia com os Estados Unidos em questões mais sensíveis. Foi assim no auge da crise institucional na Venezuela, quando defendeu uma intervenção militar para “pôr fim ao regime de Nicolás Maduro”. À época, soltou uma frase que poderia perfeitamente ter sido dito por Trump ou, por extensão, pelo próprio Bolsonaro: “Enquanto entre 15 mil e 22 mil cubanos estiverem na Venezuela é impensável o retorno da democracia ao país…”. Trata-se de uma curiosa metamorfose. Com raízes na esquerda, Almagro chegou a integrar o Movimento de Participação Popular, um dos braços da Frente Ampla que levou José Mujica ao poder no Uruguai. Em 2018, foi expulso dos quadros do partido justamente por apoiar ações militares na Venezuela. Hoje, sua preocupação parece ser reduzir ainda mais a distância de um mísero quilômetro que separa a sede da OEA da Casa Branca.

Por falar em OEA: o Brasil deve US$ 10,6 milhões à entidade. Desde o início da gestão Bolsonaro, em janeiro do ano passado, o governo brasileiro ainda não pagou nenhuma das cotas mensais de contribuição que cabem aos países membros da Organização. Os valores são proporcionais ao PIB de cada nação – o Brasil é o segundo maior contribuinte, atrás apenas dos Estados Unidos. Entrar para o “SPC da OEA” não é uma exclusividade do governo Bolsonaro. Em 2017, com Michel Temer na Presidência, o Brasil chegou a dever US$ 8 milhões.

#Jair Bolsonaro #OEA

Usina a gás

31/10/2019
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O barulho feito por ONGs e ambientalistas de nada adiantou. O Ibama concedeu licença para a construção da termelétrica a gás Gera Maranhão III, do trio Equatorial Energia, Brasil Energia e GNP. São Luís ganhará mais alguns pontos no ranking da poluição ambiental, no qual já ultrapassou Cubatão e está atrás apenas de São Paulo.

#Ibama

Diplomacia contra a antidiplomacia

28/12/2018
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O ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, estaria cabalando votos junto à “diplomatas da reserva”, digamos assim, para um manifesto contra a atitude de Jair Bolsonaro de desconvidar os presidentes de Cuba e Venezuela para sua cerimônia de posse. Segundo o ex-ministro, a medida é um atentado às práticas de civilidade nas relações diplomáticas.

#Celso Amorim #Jair Bolsonaro

Política interna será o termômetro para o “Itamaraty de Jair Bolsonaro”

18/12/2018
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O incomum desconvite aos chefes de estado e de governo de Cuba e da Venezuela para a posse de Jair Bolsonaro foi uma decisão de fora para dentro do Itamaraty. Não houve qualquer tipo de recomendação do ministério das Relações Exteriores nessa direção; nem agora, nem em nenhum momento anterior. A medida partiu do próprio núcleo duro de Bolsonaro e, mais do que qualquer outro significado no âmbito internacional, teve como objetivo principal atender as bases eleitorais domésticas. Com a decisão, o presidente eleito corrobora o discurso de campanha e avança no processo de “vilanização” dos governos socialistas dos dois países. Trata-se de um gesto que pode ser interpretado, desde já, como uma avant première da condução da área de Relações Exteriores no governo Bolsonaro.

Mesmo antes de Ernesto Araújo assumir o Ministério, a linha já está sendo ditada e imposta ao Itamaraty: tudo leva a crer que a política externa brasileira será, em grande parte, indexada e condicionada à política interna. A partir deste entendimento de que as relações internacionais do Brasil serão guiadas com um olho na opinião pública, já existem preocupações no corpo diplomático do Itamaraty quanto aos possíveis desdobramentos desse primeiro movimento de agravo a Cuba e Venezuela. Não são pequenas as chances de que a medida descambe para atos ainda mais contundentes como a retirada do embaixador brasileiro de Havana e Caracas ou, em um caso mais extremo, no rompimento das relações diplomáticas com os dois países.

Ressalte-se que a eventual ruptura diplomática não precisaria ser automaticamente acompanhada de um rompimento das relações comerciais, não obstante os dois países terem participação pouco relevante na balança brasileira. Há antecedentes nesta direção na própria história brasileira. Durante o governo de Juscelino Kubitschek, mais precisamente em 1958, o Brasil retomou os negócios com a União Soviética embora o Senado tenha vetado o reatamento das relações diplomáticas com o país, suspensas em 1947 pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. Em um primeiro momento, o atípico movimento em relação a Venezuela e Cuba poderia soar como uma espécie de oferenda ao governo Trump, um ponto de alinhamento extremo à política diplomática norte-americana.

Não que inexistam sinais nesta direção. Muito pelo contrário. Mas, segundo informações auscultadas do próprio Itamaraty, eles não passam pelos dois países latino americanos. Basta lembrar que representações diplomáticas de ambas as nações socialistas estiveram presentes à própria posse de Trump, em janeiro de 2017. O governo de Donald Trump certamente veria com bons olhos sinais de distanciamento do Brasil em relação ao Irã, que tem sido alvo de seguidas e pesadas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos.

Do ponto de vista pragmático, no entanto, trata-se de um afago mais custoso de ser feito pela gestão Bolsonaro. O Brasil tem um superávit comercial alto com os iranianos. Entre janeiro e setembro deste ano, por exemplo o saldo foi de aproximadamente US$ 4,5 bilhões, impulsionado, sobretudo, pelo aumento de mais de 520% nas exportações de milho. No mesmo período, este número só foi superado pelo superávit com a China (US$ 20 bilhões). Em outro front, existe a já notória questão de Israel. Tudo indica que Jair Bolsonaro cumprirá a promessa de transferir a Embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, seguindo os passos do governo Trump. Um gesto ainda mais bem-visto pelos Estados Unidos seria o reconhecimento pelo Brasil da cidade santa como a capital de Israel, algo que dependeria de um ato executivo da Presidência da República.

#Donald Trump #Jair Bolsonaro #Ministério das Relações Exteriores

Um pedido de SOS no Porto de Suape

11/12/2018
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ONGs têm feito chegar ao Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), em Brasília, denúncias em relação às condições de trabalho no Porto de Suape, em Pernambuco. Os trabalhadores estariam sendo expostos, por exemplo, a uma emissão de poluentes correspondente a 50 mil toneladas/ano, quatro vezes o volume registrado no polo industrial de Cubatão. Há ainda denúncias de tráfico de drogas e atuação de milícias na região. Os relatórios encaminhados ao CNDH têm como coordenadores a assistente social cearense Cristiane Faustino e o advogado maranhense Guilherme Zagallo.

#CNDH

A fábrica de políticos de Lemann e cia.

8/10/2018
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O candidato a deputado estadual Renan Ferreirinha (PSB-RJ) apresentou duas credenciais nestas eleições: ter estudado em Harvard e fazer parte da primeira clonagem de políticos treinados para vocalizar os interesses do mercado com preparo específico. Quem está patrocinando a incubadora é o empresário Jorge Paulo Lemann. Mas Lemann não está coçando o bolso sozinho. Junto com ele há outros 17 empresários. Entre os maiores entusiastas estão os irmãos Armando e Daniel Klabin, controladores do grupo empresarial homônimo. No último dia 1o, os Klabin, em meio a um almoço familiar, no restaurante Alcaparra, no Flamengo, discorriam abertamente sobre os planos. O RR apurou que quase 30 blade runners estão sendo preparados para ingressar no mundo da política. Trata-se de um projeto para daqui a quatro anos.

#PSB

Haddad busca seus pilares no governo Lula

5/10/2018
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Caso consiga brecar o avanço de Jair Bolsonaro e ganhar a eleição, Fernando Haddad poderá buscar na era Lula os alicerces para construir um núcleo duro de poder que, a priori, ele não tem. Ainda que em níveis distintos de participação, essa montagem se daria com a presença de Henrique Meirelles e de José Dirceu em seu eventual governo. Por ora, são apenas hipóteses que começaram a ser ventiladas no entorno da campanha petista após a visita de Haddad a Lula na última segunda-feira, em Curitiba.

São articulações que, assim como o magma, crepitam debaixo de terra, mas não se espere que entrem em erupção agora. Não é o momento de lançar nenhum dos dois nomes, em meio à reta final do primeiro turno e à preocupação petista com a subida de Bolsonaro nas pesquisas. O fato é que, cada qual ao seu jeito, tanto Dirceu quanto Henrique Meirelles estão em campanha – e, no caso deste último, não necessariamente para a Presidência da República. Ao fim do processo eleitoral, Meirelles terá desembolsado cerca de R$ 60 milhões em uma disputa que certamente não o levará ao Palácio do Planalto.

Na reta final da campanha, parece ter sido o preço pago por Meirelles para ser lembrado não como o ministro da Fazenda de Michel Temer, mas como o presidente do Banco Central em todos os 2.921 dias da Era Lula. Em seu programa eleitoral, o emedebista poupou o PT e o próprio ex-presidente durante quase todo o tempo. Além da autovalorização do seu trabalho como o grande condutor da economia nos oito anos do governo Lula – período em que o PIB cresceu, em média, 4% – Meirelles parece ter calculado cada frase, gesto ou filmete. O armistício deixa uma porta aberta para uma reaproximação com o PT.

Por que não? O apoio do ex-ministro seria um trunfo de Haddad na (agora incerta) disputa do segundo turno. Meirelles funcionaria como um avalista do compromisso do petista com o ajuste fiscal e as reformas estruturantes. Ao mesmo tempo, sua presença pavimentaria o caminho também para a continuidade de Ilan Goldfajn no comando do Banco Central. Com relação a José Dirceu, sua presença em um eventual governo Haddad exigiria uma configuração mais complexa.

Solto por uma liminar da Segunda Turma do STF, Dirceu já foi condenado a 30 anos e nove meses de prisão e ainda é réu em outros dois processos. Nas elucubrações petistas, o Comandante não assumiria formalmente um Ministério, até porque haveria entraves legais, mas teria o papel de assessor especial da Presidência da República, tornando-se uma espécie de Rasputin de Haddad. Sua presença no Palácio do Planalto dependeria, claro, da capacidade de Haddad de enfrentar ou não as pressões contrárias e o desgaste que a medida lhe traria logo na partida do seu mandato. Vencido isso, ele teria ao lado um estrategista político de primeira e um grande quadro partidário, com a base da militância na mão.

Embora nunca tenham representando o mesmo tipo de pensamento, Dirceu e Lula tocam de ouvido. O “Comandante” seria a representação do PT profundo no governo, algo que o próprio Haddad está longe de ser. O candidato sempre lidou com a base soft da legenda, correndo pelas raias da educação, da ciência política, da defesa de políticas identitárias etc. Dirceu também agregaria sua rede de contatos internacionais. Quem pensa na Bolívia, Venezuela ou Cuba, acertou menos de 50%. O principal capital político do “Comandante” são suas articulações com a tecnocracia e empresários conservadores norte -americano, tais como Dick Cheney e Sheldon Adelson. Meirelles sabe disso, porque presenciou a articulação de Dirceu com Mário Garnero e George Bush, que desaguou na sua indicação para ministro. É possível que “Zé” tenha mais caminhos para chegar a Trump do que o PT inteiro, incluindo o prisioneiro Lula, caso fosse solto. Mesmo com duas sentenças nas costas.

#Fernando Haddad #Lula #PT

2019

1/06/2018
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O Santander está incubando o IPO da Getnet, sua credenciadora de cartões. Mas é projeto só para 2019

#Santander

Mineração tropeça nos seus cascalhos regulatórios

9/05/2018
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A propalada modernização da esfera de governo responsável pelo setor mineral mais vem aumentando a barafunda do que descomplicando a área estatal responsável pela mineração. O projeto original tinha por objetivo reduzir o número de órgãos, desmobilizar as centenas de reservas minerais em poder do Estado, criar um marco regulatório e otimizar as estruturas existentes. O saldo de quase 30 anos de improdutiva ebulição foram duas trocas de nome de autarquias, venda de um percentual diminuto da carteira de jazidas e uma miríade de MPs editadas para confirmar a máxima de Lampedusa, de que é preciso mudar alguma coisa para que tudo continue como está. O voo cego da política do governo começou com a disposição mudancista da Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPRM), no final do século passado.

A empresa executava programas de pesquisa e exploração mineral, além de prestar serviços ao Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE) e vender para o mercado prospecção e sondagens para água mineral. As boas intenções acabaram se reduzindo a uma troca de nomenclatura: a CPRM passou a se chamar Serviço Geológico do Brasil. Sua missão é a mesma da finada CPRM, ou seja, gerar e difundir o “conhecimento geológico e hidrológico básico necessário para o desenvolvimento sustentável do Brasil”. Da mesma forma que a CPRM, seu irmão mais velho, o Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM) também trocou de nome. Passou a se chamar Agência Nacional de Mineração (ANM), conforme lei sancionada pelo presidente Michel Temer no ano passado. Há uma diferença instigante no caso em questão.

Ao contrário da CPRM, que desapareceu quando mudou sua razão jurídica, o DNPM continuou existindo em paralelo com a ANM. A exemplo da Telebras, que deveria ter sido extinta com a privatização da telefonia e não foi, o DNPM prossegue se arrastando com a superposição de corpo de funcionários e serviços atribuídos à ANM. Esta última surge no auge da febre fiscalista do governo Temer praticamente com o objetivo prioritário declarado de aumentar os impostos do setor. Com a ANM e o DNPM transformados em hologramas, a mineração deixa de ter um órgão com alguma preocupação de fomento e passa a ser exclusivamente uma agência arrecadadora, quer seja por meio de multas e sanções, quer seja por meio do aumento dos royalties do setor. E as infindáveis reservas minerais cubadas e inferidas das quais o governo sentava em cima por pura inércia?

A título de justiça diga-se que algumas áreas foram vendidas. Mas o patrimônio mineral do Serviço Geológico do Brasil, herdado da CPRM, é superior a 300 áreas. Na verdade, esse número pode ser qualquer outro, pois já foi alterado diversos vezes, quando da divulgação de editais de licitação. Seu portfólio inclui jazidas de ouro, carvão, cobre, caulim, fosfato, gipsita, turfa, níquel, chumbo, zinco e diamantes; reservas em diversas regiões do país, sendo quatro em áreas indígenas; e ativos até então considerados estratégicos, como tório e terras raras (insumo vendido a preço caríssimo e voltado para a indústria eletroeletrônica).

Previstas para este ano estariam as licitações do fosfato de Miriri (PE-PB), cobre, chumbo, e zinco de Palmeirópolis (TO), cobre de Bom Jardim de Goiás (GO) e carvão de Candiota (RS). Desconhece-se qualquer prazo para os editais. As PPPs, que seriam uma alternativa para atração de investidores para exploração das reservas, sequer saíram dos estudos. E os promissores estudos e pesquisas juntamente com a Marinha de nódulos polimetálicos submarinos, considerados nos anos 80 uma das potenciais fortunas minerais do país, ficaram como memória de um passado cada vez mais distante. Em algum momento, o Brasil foi o subsolo cobiçado do mundo. A falência da capacidade de organização do Estado, travestida de modernidade, parece ter exaurido do país as suas riquezas minerais.

#CPRM #Mineração

Inmetro se afoga em um mar de denúncias

21/02/2018
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O RR apurou que o diretor de administração e finanças do Inmetro, Alexander Assis de Oliveira, deverá ser confirmado até a próxima quinta-feira como o novo presidente da autarquia, em substituição a Carlos Augusto de Azevedo. A nomeação não traz consigo calmaria. Oliveira carrega uma torrente de denúncias de corrupção e favorecimento a prestadores de serviços da estatal. De acordo com informações filtradas do próprio Inmetro, no último dia 6 de fevereiro, três graduados funcionários do instituto prestaram depoimento à Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro, no âmbito do inquérito policial no 0991/2017-1.

O trio não poupou munição contra Oliveira. De acordo com os depoentes, o executivo teria autorizado a contratação da Becape Automação Industrial sem licitação – o caso já gerou processos na CGU (no 00106.013093/2017-19) e no Ministério Público Federal (no 2017.0028858/2017), conforme o RR informou em 27 de dezembro. Procurado pelo RR, o Inmetro não se pronunciou até o fechamento desta edição. Segundo os depoimentos colhidos pela PF, em reunião realizada em novembro de 2016, Alexander Oliveira teria proposto o pagamento de R$ 140 mil à Becape, mesmo sem um contrato formal de prestação de serviços.

No mesmo encontro, na presença de outros dirigentes do Inmetro, teria sugerido que o repasse poderia ser feito por meio do contrato da autarquia com outra empresa, a Eletrodata. Alexander de Oliveira tem relações pessoais com Bernardo Almeida, filho do dono da Becape, Peterson de Lima Almeida. Ambos foram sócios de uma empresa chamada Câmara de Comércio Brasil-Cuba (Cambrac). Procurado pelo RR, Bernardo confirmou a antiga sociedade. Ele garante, no entanto, que a Becape jamais prestou serviços ao Inmetro ou recebeu qualquer pagamento do órgão, direta ou indiretamente. A Eletrodata não se manifestou.

Segundo as denúncias de funcionários do Inmetro à Polícia Federal, Alexander de Oliveira teria utilizado outro prestador de serviços, a Liderança Limpeza, para a contratação de pessoas vinculadas à Igreja Presbiteriana. Também procurada pelo RR, a Liderança não se pronunciou. As acusações têm gerado investigações internas. Segundo o RR apurou, há 20 procedimentos/ processos administrativos em curso na autarquia envolvendo acusações de corrupção e outras irregularidades. As apurações, no entanto, caminham a passos de quelônio, sem qualquer efeito prático, relatórios concluídos e muito menos sanções. As acusações contra Alexander de Oliveira poderão respingar no prefeito Marcelo Crivella, um dos principais artífices da sua indicação à presidência do Inmetro. A nomeação passa obrigatoriamente pelo PR, de Crivella, partido que comanda o Ministério da Indústria e Comércio. O executivo, por sinal, tem pontos de conexão com Crivella que vão além das vinculações partidárias. Oliveira é pastor evangélico, da Igreja Presbiteriana.

#Inmetro

A nova vida de Gerdau

11/01/2018
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Livre das atribuições de CEO da Gerdau, André Gerdau Johannpeter deverá se dedicar, entre outros projetos, a startups na área de educação. Vai ser bom para turbinar a WOW, incubadora da família, e esquecer um pouco a Operação Zelotes, que vive nos seus calcanhares.

#Gerdau #Operação Zelotes

O dia em que José Dirceu recebeu a graça de Lula

28/12/2017
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O comandante José Dirceu de Oliveira e Silva acordou no dia 1 de janeiro de 2019 como se fosse a primeira data do resto da sua vida. Tinha o hábito de dormir de pijama no estilo Príncipe de Gales. Levantou com trejeitos de um militar cubano para fazer a higiene bucal. Era a hora de abrir o corrediço de nome slide fastener, um dos mais antigos e tradicionais zíperes do mundo, inventado em 1917 pelo sueco Gideon Sundback. Durante anos o fecho éclair foi de uma ajuda e tanto para manter os lábios cerrados. Uma exceção se deu na véspera do Natal de 2017, em uma espécie de minicomício na internet, na página Nocaute, do escritor e amigo Fernando de Moraes. No decorrer de 2018, Dirceu cometeu novos hiatos nesse silêncio, estimulando a candidatura de Lula.

O ex-presidente não é só um companheiro de viagem ou correligionário. É sua chave para a vida. É Lula presidente e Dirceu livre para voar. E governar, por que não? No fundo da imaginação, ele ouve o estribilho: “Dirceu guerreiro, comandante do povo brasileiro”. Lula atravessou a segunda instância, o STJ e o STF. Cumprida essa epopeia, tinha chegado a hora do indulto. Foram 7.665 dias de prisão e 607 dias de cárcere privado, trocando com Lula mensagens cifradas. Durante esse tempo inteiro, Dirceu estudou de ponta a ponta o roteiro jurídico da sua alforria, que passava obrigatoriamente pelo retorno de Lula ao Palácio do Planalto. Em seu Artigo 84, Inciso XII, a Constituição dá ao Presidente da República o direito de conceder indulto e comutar penas. São instrumentos de alcance coletivo, por meio do qual o presidente estabelece prerrogativas para a extinção da punibilidade de um determinado grupo de condenados; todos aqueles que se encaixam nas normas estabelecidas estão livres do cumprimento da pena.

A tradição no país é que as regras para o indulto ou comutação sejam propostas pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), passem pelo Ministério da Justiça e sejam, por fim, sancionadas por decreto presidencial. Há ainda um instituto mais forte. Como presidente da República, Lula poderia conceder a José Dirceu a graça, perdão individual que remete a um poder imperial. Trata-se de um expediente raríssimo, assim como foi o domínio do fato.

São tempos de especiarias juridicantes. Dessa vez, não poderiam aludir que Dirceu cometeu a prática da tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, terrorismo ou os crimes definidos como hediondos, casos nos quais não se aplica a graça. A sua anistia estava bem protegida pela Constituição. Qualquer protelação jurídica contra um presidente consagrado pelas urnas, aí sim, o povo iria para as ruas. Uma questão de tempo. Dirceu abriu o zíper que lhe selava a boca. Mordaça nunca mais.

#José Dirceu #Lula

Denúncias transbordam das balanças do Inmetro

27/12/2017
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O Inmetro é uma torrente de denúncias. A toda hora, a todo o minuto, chegam ao Relatório Reservado acusações contra a gestão da estatal, notadamente o diretor de Administração e Finanças, Alexander Assis de Oliveira. Os relatos de irregularidades na autarquia não caberiam em uma única edição do RR. Um dos casos mais rumorosos envolve o contrato de locação da atual sede do Instituto em Brasília – alvo de investigações do MPF (Processo no 2017.0044993/2017) e da CGU (Processo no 00106.016746/2017- 11).

Em novembro de 2016, o Inmetro foi informado de que deveria deixar o imóvel que ocupava, pertencente ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Pouco antes, já ciente de que o contrato de locação não seria renovado, a estatal designou uma equipe – à frente o então chefe da divisão de Engenharia, Ivan Reis Gama – para vistoriar três imóveis na capital federal. Após a inspeção, todos foram considerados inaptos. Ainda assim, um dos imóveis, situado no Setor de Indústrias Gráficas, Quadra I, no 985, salas 101, 102, 104, 105, foi alugado.

A determinação teria partido de Alexander Assis de Oliveira. Pouco tempo depois, Ivan Reis, que havia sido contrário à locação do imóvel, foi exonerado da chefia da divisão de Engenharia. Ao que parece, o Inmetro tinha pressa. A estatal efetuou a mudança para a nova sede entre os dias 20 de fevereiro e 10 de março deste ano. Ocorre que o contrato de locação com a Harpia Negócios Imobiliários e Serviços Ltda. só viria a ser assinado mais de um mês depois, em 18 de abril, o que configura ato ilegal na administração pública. Por sinal, segundo o site Infoplex, a Harpia pertence a Nelson Ribeiro Neves, sócio do presidente do Senado, Eunício de Oliveira, em outra empresa, a Manchester Serviços – que já foi acusada de ter firmado contratos de R$ 57 milhões com a Petrobras sem licitação. A nova sede do Inmetro em Brasília parece “encantada”.

As suspeitas de irregularidade envolvem também a empresa responsável pela mudança. O contrato firmado com a Forma Office Comércio de Móveis e Interiores (no 003/2017) especifica apenas os serviços de montagem e desmontagem de paredes divisórias, e não o transporte e deslocamento de mobiliários, que teria sido efetivamente executado pela citada empresa. O episódio foi denunciado aos órgãos de controle do próprio Inmetro, gerando um processo interno (no 52600.00012143/2017), aberto em 16 de junho. No entanto, o caso parece ter sido esquecido em alguma gaveta.

O último trâmite se deu em 26 de julho. O diretor Alexander Assis de Oliveira está ainda no centro das acusações de favorecimento à Becape Automação Industrial, também objeto de processo na CGU (no 00106.013093/2017-19) e no MPF (no 2017.0028858/2017). Entre 31 de outubro e 3 de novembro de 2016, a Becape teria realizado serviços na tentativa de recuperação de dois equipamentos de climatização industrial sem processo licitatório e sem contrato com a autarquia. Oliveira teria autorizado o pagamento de R$ 140 mil à empresa. É difícil distinguir onde terminam as necessidades do Inmetro e começam as relações pessoais de Alexander de Oliveira.

Em conversa com seus pares na própria autarquia, por mais de uma vez Oliveira teria se referido a Bernardo dos Santos Almeida, diretor da Becape, como seu amigo da Igreja Presbiteriana – o diretor da estatal é pastor auxiliar da congregação. Os laços entre ambos iriam além da fé. De acordo com o site Consultasocio, os dois apareciam como sócios na empresa Cambrac (Câmara de Comércio, Indústria e Turismo Brasil-Cuba). Hoje, o nome de Oliveira já não mais consta como acionista da Cambrac.

Em julho deste ano, surgiram na imprensa as primeiras suspeitas de irregularidades envolvendo a Becape. À época, o Inmetro informou que a empresa não prestou serviço e não recebeu “qualquer centavo” da autarquia. Consultada pelo RR, a Becape também nega ter trabalhado para a estatal e afirma não ter recebido qualquer pagamento. Bernardo Almeida garante não pertencer à mesma congregação religiosa de Oliveira, mas confirma ser “amigo pessoal” do dirigente do Inmetro e também que foi seu sócio na Cambrac, que, segundo ele, ” nunca operou ou emitiu nenhuma nota fiscal desde sua fundação”. Também procurado, o Inmetro não se pronunciou.

#Inmetro

Cuba e Andrade Gutierrez seriam um Frankenstein improvável

25/10/2017
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Quando se achava que tudo estava terminando é que se encontra mais. O Ministério Público está fuçando obras da Andrade Gutierrez em Cuba, que, até então, não constavam da lista das “top suspeitas”. De obras em Cuba somente se falava no Porto de Mariel, a cargo da Odebrecht, que representa um dos maiores financiamentos do BNDES no setor de exportação de serviços de engenharia. Segundo a fonte do RR, a suspeição é que a Andrade Gutierrez teria feito uma inusitada triangulação financeira entre países, realocando para projetos em Cuba empréstimos originalmente concedidos pelo BNDES para empreendimentos em Angola. Seria um Frankenstein sem tamanho, uma exótica combinação que envolveria superfaturamento de obra, incompetência, para se dizer o mínimo, do banco de fomento para avaliar empréstimos – uma hipótese na qual o RR não acredita –, e uma estranha troca de chumbo entre dois países de governos ditatoriais. Estranho, mas não impossível. Consultado, o BNDES informou que não financiou projetos da Andrade Gutierrez em Cuba, mas confirmou ter concedido crédito para contratos da companhia em Angola.

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Nota da Redação: a Andrade Gutierrez preferiu não responder às perguntas enviadas sobre o assunto. Ao contrário: seu diretor de comunicação, André Moragas, optou por fazer maledicências e associações desonrosas ao Relatório Reservado, esquecendo-se que procurou o RR em diversos momentos para repassar informações sobre empreiteiras concorrentes. Apesar das grosserias, o RR permanece aberto aos esclarecimentos de Moragas, toda vez que ele assim considerar necessário.

#Andrade Gutierrez #BNDES #Odebrecht

O homem que “engavetou” o comandante Che

18/10/2017
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O jornalista Ib Teixeira, que por mais de duas décadas escreveu para a revista Conjuntura Econômica, publicação do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), faleceu na semana passada levando consigo uma instigante história inédita. Ib foi a Cuba fazer uma série de matérias sobre a revolução, entre elas uma entrevista com o presidente do BC cubano, Che Guevara. Havia bastante curiosidade sobre como o médico guerrilheiro faria a gestão da moeda.

As reportagens foram escritas, mas a entrevista nunca chegou a ser publicada. Segundo Ib, Che não entendia bulhufas de economia e muito menos de política monetária. O depoimento seria uma entrevista ao avesso, ou seja, um texto sobre o seu desconhecimento radical em relação aos rudimentos necessários  para o exercício daquela função.

Ib preferiu, então, não divulgar a entrevista. Uma pena. São pequenos detalhes como estes que fazem o bordado da História. Em tempo: à época, o redator-chefe da Conjuntura Econômica era Paulo Rabello de Castro, atual presidente do BNDES. Ib era militante ferrenho do partidão e foi atraído para o lado contrário da força pelo encantador de serpentes, Roberto Campos, que adorava converter comunistas.

#FGV

Fertilizante da Petrobras aduba os negócios da Yara no Brasil

16/06/2017
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Enquanto a joia da coroa, a BR, segue guardada na redoma, Pedro Parente está retomando a venda de ativos da Petrobras pelas peças de menor quilate. Parente reuniu-se, no fim de maio, com executivos da Yara para tratar da negociação da operação de fertilizantes nitrogenados da estatal. Segundo o RR apurou, as conversas envolvem a transferência, em um só pacote, dos três complexos industriais localizados na Bahia, em Sergipe e no Paraná.

Os valores sobre a mesa somam algo perto de US$ 1,5 bilhão. Do lado dos noruegueses, o sinal verde para as negociações foi dado em março, quando o chairman mundial da Yara, Leif Teksum, esteve no Brasil. Diga-se de passagem, nas reuniões com o presidente da subsidiária brasileira, Lair Hanzen, ele não tratou apenas de Petrobras. A companhia não esconde o interesse na unidade de nitrogenados da Vale em Cubatão (SP).

A Yara já detém uma respeitável operação no Brasil, com três fábricas de matérias-primas e 32 unidades misturadoras – boa parte herdada com a aquisição dos ativos da Bunge, em 2013. O faturamento, em torno de R$ 10 bilhões, representa quase 30% das vendas globais do grupo. Na Petrobras, o assunto é conduzido de forma muito cuidadosa.

O receio é que a Justiça atravesse novamente o caminho, como tem ocorrido na negociação de outros ativos. É bem verdade que a companhia teve uma vitória neste sentido na semana passada. A 1a Vara Federal de Três Lagoas (MS) suspendeu a ação civil pública que impedia a negociação da fábrica de fertilizantes na cidade.

#Bunge #Pedro Parente #Petrobras #Yara

Presídios do Rio incubam ovo da serpente

13/01/2017
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Depois dos massacres nos presídios de Manaus e de Boa Vista, o novo lócus de apreensão do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, é o Rio de Janeiro. A preocupação se deve aos informes que têm sido remetidos ao Ministério pela Secretaria de Administração Penitenciária do Rio, dando conta de uma estranha movimentação entre a população carcerária do estado. Até ontem à tarde mais de 500 detentos de Bangu 4 e do presídio Ismael Pereira Sirieiro, em Niterói, vinculados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) haviam pedido à direção das respectivas unidades sua transferência para outras alas – informação confirmada ao RR pelo presidente do Sindicato dos Servidores do Sistema Penal do Rio, Gutembergue de Oliveira.

Os presos alegam que temem ser alvo de ataques em represália à matança orquestrada pelo PCC em Roraima – por sua vez, uma reação ao massacre no Amazonas. Esses detentos dizem que querem se manter na “neutralidade”, à margem de qualquer facção – no peculiar sistema de divisão territorial das penitenciárias, há alas específicas para os “sem partido”. De acordo com informações repassadas pelas Secretaria Estadual ao Ministério da Justiça, há evidências de que os dissidentes do PCC não pretendem ficar na “neutralidade”, como alegam. Tudo indica que esse contingente é a proxy de uma sexta facção nas cadeias do Rio, que passaria a rivalizar não só com o forasteiro PCC, mas também com grupos criminosos nativos, como Amigo dos Amigos (ADA), Terceiro Comando Puro (TCP), Comando Vermelho (CV) e Povo de Israel (PVI).

O Ministério da Justiça e o governo do Rio devem discutir nos próximos dias medidas para mitigar os riscos de confronto nas cadeias do estado. Toda a cautela é bem-vinda. Seja pelo tamanho da população carcerária, seja pelo poder de ressonância do Rio, eventuais conflitos em penitenciárias do estado teriam uma dimensão ainda maior. Além das lições recentes, não faltam exemplos do passado. Quando o Povo de Israel se formou, em 2004, marcou sua estreia com um violento motim no presídio Hélio Gomes, até então mapeado como uma unidade “neutra”: 19 detentos ficaram feridos; um foi assassinado. Cinco agentes carcerários foram mantidos como reféns ao longo de um dia.

#Alexandre de Moraes #Ministério da Justiça

Réveillon 2

5/01/2017
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No vai e vem entre Curitiba e Rio de Janeiro, Claudia Cruz e as filhas de Eduardo Cunha tiveram um réveillon discreto. Bem diferente da passagem de 2015 para 2016, quando desfrutaram do conforto e luxo de um resort em Cuba, com direito às imagens de praxe nas redes sociais.

#Eduardo Cunha

Gasoduto de Alckmin evapora

21/12/2016
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As seguidas sinalizações da Petrobras de que pretende suspender a garantia firme de compra do gás a ser transportado pelo gasoduto Bacia de Santos-Cubatão está tirando do sério o tradicionalmente sereno Geraldo Alckmin. Há poucos meses era líquido e certo que a Gas Brasiliano, distribuidora controlada integralmente pela estatal, ficaria com uma parcela do insumo. Sem a participação da Petrobras, o empreendimento de R$ 2 bilhões será cancelado.

#Gás Brasiliano #Geraldo Alckmin #Petrobras

Hasta la victoria

29/11/2016
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• O ex-presidente Lula ainda não decidiu se irá a Cuba para o funeral do amigo Fidel Castro. Seus advogados recomendam que não. Sua saída do Brasil neste momento, sobretudo pelo destino em questão, alimentará as maiores fantasias.

#Fidel Castro #Lula

Eduardo Saverin de bagagem

12/08/2016
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 O bilionário brasileiro Eduardo Saverin está trazendo para o país sua incubadora de startups. O foco é a área de tecnologia. Um dos fundadores do Facebook, Saverin tem uma fortuna estimada em US$ 2 bilhões.

#Facebook #startups

Desalinhado

24/06/2016
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O ministro José Serra vai trocar o embaixador do Brasil em Cuba. Cesário Melantonio Neto é visto no Itamaraty como muito petista.

#José Serra

O inferno astral de Eduardo Plass

5/08/2015
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Uma conjugação de fatos inconvenientes, para se dizer o mínimo, trouxe o banqueiro Eduardo Plass de volta aos holofotes com uma intensidade que não se via desde os seus tempos de Pactual. De um lado, Plass vê seu nome citado no SwissLeaks, como um dos brasileiros que supostamente mantiveram contas irregulares no HSBC da Suíça; do outro, o TG Bank, banco de sua propriedade com sede no Panamá, foi intimado pela PF a prestar esclarecimentos sobre as empresas Golden Rock e Blue Diamond, suas clientes – ambas suspeitas de fazer pagamentos ilícitos a políticos brasileiros. E, no meio de tanta tormenta, a reestruturação em curso na sua gestora de recursos, a Opus, parece não ter fim. Nos últimos meses, a Opus praticamente exterminou a equipe de renda fixa e reduziu à metade a divisão de renda variável. O alvo agora seria a operação de private equity. Segundo uma fonte bem próxima a Plass, além de novas demissões, a Opus vai reduzir gradativamente sua carteira de participações. Oficialmente, a gestora nega o enxugamento da área de private equity. No entanto, de acordo com a mesma fonte, Plass estaria em busca de um comprador para a sua fatia de 16% na Ideiasnet. As ações já teriam sido oferecidas à Itaú Asset Management, também acionista da incubadora de empresas de internet.

#BTG Pactual #Eduardo Plass #Ideiasnet #Opus #SwissLeaks

Walmart intervém na operação brasileira

26/05/2015
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Quantos Neymar seriam necessários para higienizar a imagem de uma companhia estigmatizada por cortes de investimento, demissões, processos milionários na justiça trabalhista, denúncias de suborno a autoridades (ver RR no 5.042) e uma reestruturação que parece não ter fim. Talvez nem Pelé conseguisse tamanha proeza. O fato é que, justo no momento em que negocia um acordo de patrocínio com a CBF no valor de aproximadamente R$ 10 milhões, o Walmart ensaia uma brusca guinada em sua gestão. O grupo está prestes a nomear um executivo egresso da matriz para a presidência da subsidiária, no lugar de Guilherme Loureiro. A medida representa uma intervenção do Walmart na operação brasileira. Para os norte-americanos, está mais do que provado que a tropicalização da gestão da subsidiária não funcionou. A maior prova é o interminável rodízio de nomes no cargo de presidente desde o fim da década passada, um cenário bem distinto daquele observado nos primórdios do Walmart no Brasil. Durante seus 11 primeiros anos no país, a rede varejista teve apenas um CEO, o espanhol Vicente Trius, que, antes, havia feito carreira nos Estados Unidos. Depois da saída de Vicente Trius, o Walmart passou a apostar apenas em executivos locais – o cubano Hector Nua±ez, que ocupou o cargo entre 2008 e 2010, mora no Brasil desde o início da década de 90 e entra nesta conta. Desde então, ninguém esquentou a cadeira. Guilherme Loureiro é o terceiro CEO do Walmart Brasil em apenas sete anos. E o que o grupo acumulou nesse período? Prejuízos, erros de gestão, investimentos equivocados, margens declinantes e uma incrível dificuldade para cair no gosto do brasileiro. Este distanciamento, aliás, se manifesta de forma absolutamente corriqueira. Em algumas regiões do país, os consumidores sequer sabem dizer corretamente o nome da empresa – “Valmárti” é a pronúncia mais comum. Haja logomarca na camisa canarinho!

#Walmart

Placebo

8/04/2015
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 Sucess fee não é exatamente um termo que se aplique aos pagamentos feitos pela EMS a  empresa de consultoria de José Dirceu – R$ 7,9 milhões entre 2009 e 2013. Nesse período, Dirceu prospectou parcerias para o laboratório farmacêutico em Cuba e na Venezuela, mas nenhum projeto saiu do tubo de ensaio. Ao menos, Carlos Sanchez, dono do EMS, tornouse um dos empresários do setor farmacêutico com maior trânsito junto ao governo.

#Carlos Sanchez #EMS

Gasoduto paulista pega desvio para longe do “petrolão”

11/03/2015
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O vácuo deixado pela Petrobras em alguns negócios de médio porte começa a ser preenchido. Ao menos é o caso do projeto de construção de um gasoduto entre a Bacia de Santos e Cubatão, orçado em aproximadamente R$ 2 bilhões. Shell, Total e Galp são fortes candidatas a ocupar o lugar da estatal. A tríade está em negociações com o governo de São Paulo para desembarcar no empreendimento, assumindo a instalação e a operação do pipeline. O projeto, conduzido pela Secretaria de Energia do estado, foi originalmente concebido para ser pendurado na Petrobras, a principal fornecedora de gás para as três distribuidoras que operam em terras paulistas – Comgás, Gás Natural Sul e Gas Brasiliano, da qual, inclusive, a estatal é uma das sócias. No entanto, havia um “petrolão” no traçado do gasoduto – como, aliás, de tantos outros investimentos da companhia sob risco de serem carregados pela Lava Jato. Na reta final da gestão Graça Foster, a Petrobras formalizou sua saída do negócio, alegando não se tratar de um empreendimento estratégico. O que está em jogo é a instalação de uma estrutura com capacidade para o transporte de 16 milhões de metros cúbicos diários de gás, praticamente metade do Bolívia-Brasil. Caso Total, Shell e Galp assumam o investimento, este será um dos poucos entre os tantos projetos de gasodutos tracejados nos últimos anos que efetivamente sairão da prancheta. De igual porte, até o momento, só deve vingar o pipeline de 450 quilômetros no Triângulo Mineiro, que será usado para abastecer a fábrica de amônia da própria Petrobras em Uberaba. Os três grupos europeus entrarão no negócio com uma dupla identidade: atuarão tanto com o chapéu de operadores do duto quanto o de fornecedores de matéria-prima – todos têm participação em blocos de gás na Bacia de Santos. O projeto passa obrigatoriamente pelo Palácio Bandeirantes. Além de responsável pela cessão da chamada faixa de servidão por onde passará o gasoduto, o governo paulista poderá ter uma participação no equity do negócio. Muito provavelmente seu ingresso na operação se dará por meio da Empresa Metropolitana de aguas e Energia (EMAE), que, inclusive, já dispõe de uma área de servidão próxima ao traçado idealizado para o gasoduto, por onde passam tubulações de água.

Rumo a Cuba

27/01/2015
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 Carlos Sanchez, dono do EMS, acompanha com especial atenção o afrouxamento do bloqueio econômico a Cuba. Sanchez tem feito intensas gestões para produzir medicamentos na ilha dos Castro a partir de 2016. Não custa lembrar que o empresário tem ótimo trânsito junto ao governo Dilma Rousseff.

#Carlos Sanchez #EMS

Dilma faz varredura nos processos das estatais

10/11/2014
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Dilma Rousseff pretende aproveitar o bonde do saneamento das despesas públicas para implementar uma ampla auditoria de processos nas principais empresas estatais do país. O objetivo não revelado da varredura é evitar a repetição dos desastres ocorridos na Petrobras. A motivação a ser dita, por sua vez, é que Dilma planeja levar a ferro e fogo o discurso de campanha, ou seja, de que vai investigar e punir. Desta forma, espera não ser mais surpreendida com o vazamento de procedimentos criminosos somente apurados muito depois da consumação do dolo. Isso não significa dizer que Banco do Brasil, Caixa Econômica, as estatais do setor elétrico, entre outras, tenham incubado um serpentário similar ao da Petrobras. Mas Dilma não quer e nem pode correr o risco de que as oposições tomem a dianteira e, num ambiente politicamente conturbado, chamem para si o pedido dessas auditorias como resultado da sua suspeição. A própria Petrobras é a nascente deste rio que desaguará nas demais estatais. O Conselho de Administração da companhia já anunciou medidas similares, na esteira das supostas revelações feitas por Paulo Roberto Costa. O governo pretende avançar em relação a  auditoria convencional, que avalia tãosomente a correção das demonstrações financeiras a  luz dos padrões contábeis. A ideia é mergulhar no sistema circulatório das estatais e vasculhar todas as práticas e procedimentos realizados nestas companhias. A medida é tão elementar que o mais curioso, neste caso, não é a decisão do governo, mas, sim, o fato de que as empresas do setor público ainda não tenham adotado este tipo de conduta. A auditora de processos é uma ação absolutamente de praxe na iniciativa privada, notadamente em casos de mudanças de gestão e de controle. Ressalte-se que, no caso das estatais, há ainda outro efeito colateral positivo neste expediente. Por tabela, estes procedimentos possibilitarão um melhor azeitamento dos controles fiscais, ao permitir uma apuração mais eficiente de desperdícios e incongruências organizacionais. Essa tomografia das estatais ganha ainda mais sentido por conta do sistema político brasileiro. Com o presidencialismo de coalizão, há uma inexorável distribuição de cargos em razão de acordos partidários. Uma forma de tentar proteger essas empresas é se antecipar a  nova gestão com o mapeamento de todos os processos. Com a iniciativa, ganham as estatais, a democracia e o Brasil. Mas ganham também – e muito – as grandes empresas de auditoria internacionais, como Ernst & Young, KPMG, PwC e Deloitte, naturalmente os agentes a serem contratados para essa inspetoria.

Remédio cubano

3/10/2014
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A Eurofarma – controlada por Maurizio Billi, um dos empresários do setor mais próximos do governo – estaria mantendo conversações com a estatal cubana Cimab para a produção de medicamentos na ilha de Fidel. Procurado pelo RR, o laboratório negou o projeto. Não custa lembrar que Eurofarma e Cimab já mantêm convênios operacionais.

Cohiba

16/09/2014
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O presidente da Capemisa, José Augusto da Costa Tatagiba, tem muita história para (não) contar sobre os contorcionismos que a seguradora precisou fazer para iniciar suas operações em Cuba.

Incubadora

29/07/2014
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Um grupo de investidores da Califórnia ligados a Larry Page, cofundador do Google, está montando um fundo de venture capital no Brasil. O objetivo é financiar startups na área de TI.

Porto Maravilha

22/07/2014
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O bilionário cubano Jorge Pérez, o rei dos condomínios em Miami, está conquistando território no Brasil. Além de dois prédios de luxo em São Paulo, negocia a compra de um terreno na área do Porto Maravilha, no Rio. Seu objetivo é construir duas torres comerciais.

Brasil é o adubo da Mosaic na América Latina

6/06/2014
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A Mosaic vive o seu cio da terra. No que depender do apetite dos norte-americanos, a recente compra dos ativos em fertilizantes da ADM foi apenas o aquecimento para uma operação capaz de adubar ainda mais seus negócios no Brasil. O alvo da vez é a Heringer, a última grande fabricante nacional ainda imune ao processo de consolidação do setor. Pertencente ao empresário Dalton Dias Heringer, a companhia fatura por ano cerca de R$ 4,5 milhões. É dona de duas dezenas de misturadoras de matérias-primas, com capacidade total de seis milhões de toneladas. Significa dizer que, com a aquisição, a Mosaic duplicaria a sua produção no país, chegando a 25% das vendas de fosfatados no mercado brasileiro – a Vale, líder do setor, detém aproximadamente 40%. Herdaria da própria Heringer o posto de segundo maior produtor do país. Como contrapeso, seria obrigada a assumir uma dívida de longo prazo da ordem de R$ 1 bilhão, o equivalente a duas vezes o Ebitda – já foi pior: em 2012, esta relação chegou a ser de três para um. A Mosaic, resultado da associação entre a Cargill e a IMC, está decidida a concentrar no Brasil todos os seus investimentos em fertilizantes na América Latina. Os norte-americanos já anunciaram a disposição de vender suas operações de fosfato no Chile e na Argentina. Neste último caso, além de uma decisão motivada por critérios de ordem geoeconômica, pesam também os seguidos prejuízos causados pelo mau desempenho da atividade agrícola em terras argentinas. Tanto que sua fábrica de fosfatados na região de Rosário, que gera por ano mais de US$ 300 milhões, estaria avaliada em apenas US$ 50 milhões. Além da recente aquisição dos ativos da ADM e da eventual ofensiva sobre a Heringer, a Mosaic também aposta no greenfield. Recentemente, os norte-americanos desembolsaram US$ 120 milhões na expansão de sua capacidade instalada e na modernização de terminais portuários. O grupo já anunciou também a instalação de uma nova planta industrial em Cubatão (SP), em parceria com a Cesari, empresa da área de logística. Além disso, ao adquirir a Heringer, caberia também a  Mosaic levar adiante o projeto da empresa de construir duas novas unidades misturadoras, uma em Candeias (BA) e outra em Rio Grande (RS).

BNDES e Odebrecht sofrem com a politização vulgar

28/05/2014
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Existe um megafone em cada esquina berrando que a exportação de serviços entrou no raio de destruição da campanha eleitoral e do “antidilmismo”. O BNDES é o alvo principal. O banco é responsável pelo financiamento da totalidade dessas operações e está sendo acusado de aumentar a dívida pública com “finalidade torpe”. Mas a agência de fomento não está só. A politização grosseira e vulgar que grassa no país elegeu três grandes inimigos do Brasil: a Petrobras, que não passaria de uma “organização criminosa”; o BNDES, que suga a seiva financeira do Estado para distribuir o dinheiro a plutocratas; e as empreiteiras, que são “corruptoras do governo”. Na visão da oposição, o banco e as empreiteiras, melhor dizer indústria da construção pesada, estariam trocando investimentos no Brasil pelo exterior, deixando de gerar empregos aqui em benefício de mais postos de trabalho nos países importadores. Essas acusações são do tempo do onça. Quando já pareciam ter virado bobice, eis que voltam a  baila, no bico dos seus defensores de outrora. As exportações de serviços envolvem a comercialização de mais de 500 mil itens da indústria nacional, que criam dezenas de milhares de empregos. Além de gerar divisas curativas das feridas do balanço de pagamentos. São poucos os setores da indústria que têm uma cadeia de produção tão ampla, envolvendo um número de unidades tão grande. Na africa, cer- ca de 600 empresas brasileiras foram beneficiadas; nas obras do Porto Mariel, em Cuba, serão mais de 400. O peso das operações no orçamento do BNDES, uma das outras críticas, é baixo – não chega a 3% -, e é grão de areia se comparado ao montante investido pelas agências de crédito e pelo Eximbank dos outros países. É certo que a campanha contra as exportações de serviços está pegando uma carona na circunstância peculiar que atravessa a Odebrecht, líder absoluta nesse segmento. A empreiteira baiana, primeira também no ranking da construção de obras estruturantes do país, foi arrastada para o centro de episódios controversos, como a Petrobras e o Itaquerão. A oposição vem chupando os dois casos de canudinho. Tanto a Petrobras quanto a Odebrecht pagam o ônus das corporações com megaescala, onde sempre existe o joio, por maior que seja o trigal. No momento, o que a interessa a  plateia é o joio. Paciência! O fato é que o BNDES, por meio do financiamento da exportação de serviços, tem feito uma política industrial singular, por via transversa, cujo único demérito é a ausência de divulgação dos seus benefícios para o país. Quanto a  Odebrecht, depois do Itamarati a empreiteira é a maior representante do Brasil no estrangeiro, o que não é pouca coisa. Porém, nada disso interessa se o objetivo maior são as urnas. Até outubro, a ordem é “malhar o Judas”.

Mais uma empresa brasileira

20/03/2014
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Mais uma empresa brasileira pretende montar uma cabeça de ponte em Cuba. A Copersucar estuda produzir açúcar e etanol na ilha.

Gás boliviano vira a carta-trunfo de Dilma Rousseff

18/02/2014
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Em meio ao tiroteio de informações e de prognósticos alarmistas que tomou conta do setor elétrico nos últimos dias, um ponto em especial tem passado praticamente despercebido: o fator Bolívia. O Brasil nunca esteve em uma posição tão privilegiada para renegociar as condições que regem o fornecimento do gás boliviano, responsável por suprir quase a metade da demanda nacional pelo insumo. Segundo alta fonte do Ministério de Minas e Energia, Evo Morales vem tentando de todas as formas antecipar a renovação do acordo de venda e transporte do combustível pelo Gasoduto Bolívia-Brasil, que só vence em 2019. De acordo com o informante do RR, a questão foi discutida no recente encontro entre Morales e Dilma Rousseff em Cuba, por ocasião da realização da II Cúpula da Celac. O presidente boliviano, que também enfrentará as urnas em outubro, quer criar um fato político relevante capaz de estancar a perda de popularidade entre os seus. Este fato seria a extensão do atual acordo com o Brasil por mais 20 anos, garantindo, desde já, uma receita imprescindível para as contas públicas da Bolívia. A disposição do governo Dilma Rousseff é estressar as negociações, de forma a arrancar o máximo possível de vantagens, notadamente no que diz respeito a s tarifas e ao prazo do acordo. Em vez dos 20 anos previstos no acordo original, o Brasil quer esticar a corda por mais 30 anos, o que daria uma folga ainda maior para o planejamento de longo prazo da matriz energética. Em relação aos preços, de acordo com a fonte do RR, haveria espaço para uma redução de até 20% para as distribuidoras, o metro cúbico do gás boliviano custa algo em torno de R$ 0,86. As tratativas, ressalte-se, deverão ser conduzidas pela Petrobras, oficialmente a parte compradora do combustível produzido no país andino. Não custa lembrar que, na condição de Secretária de Petróleo e Gás do Ministério de Minas e Energia e de diretora de petróleo e gás da estatal, Maria das Graças Foster participou de alguns dos momentos mais críticos nas negociações entre os dois países desde a construção do gasoduto Bolívia-Brasil. Diferentemente do que ocorreu na década de 1990, quando a Bolívia deu as cartas e praticamente ditou as regras para a assinatura do contrato de venda do gás, o Brasil se encontra hoje em uma situação de flagrante superioridade. Além da esquálida situação da economia boliviana, o governo brasileiro tem a  mão outros instrumentos de pressão. Poderá alegar que a YFPB não tem conseguido aumentar a produção de gás na velocidade prevista, a ponto de colocar em risco o pleno cumprimento do acordo. Outro trunfo são as recentes descobertas de reservas de gás natural, sobretudo o Campo de Libra, que, a médio e longo prazos, deverão reduzir a dependência do Brasil em relação ao combustível boliviano.

Acervo RR

Raízen amplia octanagem na área de aviação

12/03/2012
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Rubens Ometto e Shell estão pintados para uma batalha aérea. A Raízen vai investir cerca de R$ 200 milhões com o objetivo de expandir suas operações na distribuição de querosene de aviação. Trata-se de um desembolso que não estava nos planos do grupo. O investimento quase compulsório é consequência da recente decisão do Cade, que obrigou a companhia a vender uma série de ativos no setor. A operação se tornou um ovo da serpente. A Raízen acabou incubando dentro de casa o crescimento de seu maior concorrente. A Air BP, que comprou as operações forçosamente colocadas na vitrine pelo Cade, pulou de 10% para quase 20% das vendas de querosene de aviação no país. Encostou de vez na própria Raízen, vice do ranking, com aproximadamente 25% de market share. A obrigatoriedade de venda dos ativos e a consequente expansão da Air BP caíram como um galão de combustível incandescente sobre os planos de crescimento da Raízen. A empresa não conseguiu reduzir a distância da gigante BR, dona de 70% do mercado, e ainda viu um concorrente de peso crescer no seu retrovisor. Ainda que a contragosto, Ometto e Shell se viram obrigados a colocar a mão no bolso e reagir. Até porque a própria Air BR já sinalizou que não se contentará com a compra das instalações da Raízen. Os britânicos teriam reservado mais R$ 100 milhões para ampliar sua estrutura de distribuição no Brasil. Hoje, a empresa está presente em 18 dos maiores aeroportos do Brasil – terminais que concentram 70% das vendas de querosene de aviação do mercado nacional.

Tereos

4/01/2012
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A parceria entre a Petrobras e a francesa Tereos vai cruzar novas fronteiras. Além de Moçambique, a dupla estuda produzir etanol em Angola e em Cuba. Procuradas pelo RR, as duas empresas preferiram não se pronunciar.

Acervo RR

Benjamin aduba CSN com a antipatia alheia

18/10/2011
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Pergunta que atormenta dez entre dez empresários que conhecem bem o empresário Benjamin Steinbruch: como um personagem tão intragável e reconhecidamente de inamistosa convivência consegue alcançar tamanho sucesso empresarial? É claro que o enigma tem resposta. Como se ouve em vários corredores do grande capital -Bradesco, entre eles – Benjamin é hoje o maior empresário do Brasil, só rivalizando, talvez,com Marcelo Odebrecht, que,pela sua juventude, ainda é um Neymar da seleção do big business. O fato é que Benjamin está apostando fichas cada vez mais altas no processo de diversificação da CSN. Após consolidar sua posição nas áreas de mineração e de cimento, o grupo prepara sua entrada na produção de fertilizantes. Benjamin não vai começar o trabalho de aragem do zero. Pretende partir para aquisições. Dentro da CSN, o nome mais falado é o da Copebras, fabricante de matérias-primas para a indústria de fertilizantes controlada pela Anglo American.Com faturamento anual na casa de R$ 1,5 bilhão, a Copebras talvez tenha se tornado o ativo mais cobiçado do setor no Brasil após a venda das operações da Bunge para a Vale.Com fábricas em Catalão (GO)e em Cubatão (SP), tem capacidade anual de 1,35 milhão de toneladas. Há anos, a Anglo American caminha sobre a corda bamba, sempre hesitante entre vender ou não vender a empresa. Talvez ainda não tenha recebido a oferta certa na hora certa. Os ingleses estariam pedindo cerca de US$ 1,2bilhão. É bom lembrar que Benjamin tem um baú de ouro chamado Casa de Pedra. Um pedacinho da sua mina de ferro vale para a Anglo American uma penca de empresas de fertilizantes. Mas o mundo não é tão linear assim. Outras empresas, ainda que de menor porte, aparecem no radar da CSN, como Heringer e Nutriplant.Pouco a pouco, Benjamin Steinbruch está reestruturando o grupo sem recuar um milímetro na siderurgia, seu core business.Recursos não lhe faltam.A CSN tem dinheiro em caixa que se acumula desde a tentativa de compra da Corus, há quatro anos. Sua disponibilidade de recursos próprios beira os R$ 12bilhões, com potencial de alavancagem de dar calafrio. Esta condição tem permitido ao empresário avançar simultaneamente em fronts distintos. De um lado, ele estica o elástico e força a barra para uma potencial aquisição da Usiminas – convicto deque a CSN, empresa mais rentável do setor, é a melhor solução para o grupo mineiro; do outro, intensifica um processo de diversificação operacional no qual muitos não acreditavam, dada a sua incompatibilidade com ativos -diferentes- vide as frustradas experiências na Light e na Vale, onde se enrolou com problemas de alavancagem financeira e pela dificuldade de adotar uma governança compartilhada.Coincidência ou não, ainda que por vias transversas,Benjamin volta a esbarrar com a Vale por conta do processo de multiplicação dos seus negócios. Primeiro, os investimento sem mineração. Agora, a área de fertilizantes, setor no qual a Vale tem feito pesados a portes. Nos sonhos de Benjamin Steinbruch, existe uma quarta e inusitada área de iversificação: TV a cabo e negócios na internet. Tem conversado cada vez mais amiúde sobre o assunto com um ex-executivo da Oi e da Net. Difícil mesmo vai ser ele fazer o greenfield nessa área. Promessa de mais um novo capítulo de caneladas, cotoveladas e cascudos de Benjamin em quem quer que venha pela frente. É um craque, mas botocudo.

Petrobras

29/06/2011
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Vai ser breve o adeus da Petrobras a Cuba. A estatal, que, em março, suspendeu a exploração de um bloco pé rapado no país, negocia com o governo cubano seu retorno em duas novas áreas. Dessa vez, parece que tem petróleo na jogada.

Acervo RR

Doce Cuba

21/06/2011
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Rubens Ometto quer fazer um melaço nas terras de Fidel. Vai investir na produção de açúcar e álcool em Cuba. O negócio tem o dedo, ou melhor, a mão inteira de José Dirceu.

Acervo RR

Google in Brazil

18/04/2011
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Larry Page reassumiu a presidência do Google com um olho e meio no Brasil. A empresa pretende fechar parcerias com universidades brasileiras com tradição na área de tecnologia. O objetivo é criar uma incubadora de empresas voltadas a soluções na área de buscas, comércio eletrônico e publicidade online. O Google vai desembolsar até US$ 80 milhões no negócio.

Acervo RR

Buena vista

31/01/2011
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O cubano Hector Nua±ez, ex-presidente do Walmart no Brasil, é o nome mais falado nos corredores das Lojas Colombo para assumir a gestão da rede gaúcha. O empresário Adelino Colombo se prepara para deixar a presidência executiva – ver RR – Negócios & Finanças edição nº 4.038. Nua±ez é casado com uma brasileira e permaneceu no país mesmo sair do Walmart

Queiroz Galvão

30/07/2010
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A Queiroz Galvão prepara sua primeira grande investida em águas internacionais. Negocia sua participação em um consórcio para a exploração de óleo e gás em águas cubanas no Golfo do México. A operação deverá ser encabeçada pela russa Gazprom.

El comandante

28/05/2010
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Rubens Ometto voltou a falar em investir na produção de álcool e açúcar em Cuba. Deve ser efeito das suas relações cada vez mais figadais com o Planalto.

Acervo RR

Cubanet

2/03/2010
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O insaciável Rubens Ometto está envolvido em um projeto para a produção de álcool e açúcar em Cuba. As más ? ou boas ? línguas dizem que as articulações têm a assinatura de José Dirceu. É, pode ser.

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