10.07.15
ED. 5160

Ajuste fiscal está intacto nos neurônios de Levy

 O cenário econômico mudou, é bem verdade – Grécia, China, escalada do desemprego, arrecadação cadente, impacto da crise política etc. Mas o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, permanece firme em sua disposição de elevar o superávit primário o mais próximo possível da meta de 1,1% do PIB. Levy se sente jogando um Candy Crush macroeconômico, onde as frutas deletadas ressurgem ou se multiplicam de forma caótica. Nada parece ter sentido nesse universo. Exemplo: as instituições de mercado apostam em uma revisão da meta entre 0,8% e 0,6% do PIB, propondo, inclusive, uma banda para o marco fiscal do calendário; Dilma Rousseff, trasanteontem, rebate os ímpios e declara que perseguirá a meta com rigor; meia dúzia de horas após o embarque da presidente para a Rússia, o senador Romero Jucá, um dos porta vozes do governo, anuncia que apresentará ao Congresso projeto de lei com o objetivo de reduzir a meta para 0,4% do PIB. É como se qualquer um dos movimentos no tabuleiro fiscal fosse neutralizado, quer seja pela oposição, quer seja pelo fogo amigo, quer seja pelos grupos de interesse, quer seja pelo mercado e, finalmente, pelo próprio Congresso. Levy sabe que parte da sabotagem vem de bolsões radicais, porém sinceros – apud presidente Ernesto Geisel. A maioria tem como objetivo a desestabilização pura e simples do governo com vistas a 2018. Não são majoritários, pelo menos ainda, os lobbies dos perdedores circunstanciais com o ajuste: empresários e trabalhadores. Levy vai perseguir a meta como um cavaleiro errante, não admitindo que a batalha foi perdida: caso seja aprovada a redução do superávit primário, tudo bem, essa é uma decisão de governo. Mas o ministro vai continuar no encalço da meta original, sem caracterizar esse compromisso como uma bravata ou um recado de abandono do cargo. A perseverança é o discurso para as entrevistas, encontros empresariais e, principalmente, para as agências de rating. Levy tem conhecimento de que, nesse momento, sua credibilidade é um ativo importante para as classificadoras de risco. É preciso transparecer convicção. O ministro da Fazenda acredita sinceramente que, mesmo não sendo possível entregar um superávit alvissareiro, dá para ir além das raspas previstas pelo mercado. Por isso, a palavra de ordem é a extração de riquezas – quem leu o RR nas últimas semanas está por dentro do assunto. É nesse contexto que se enquadra o Refis, incluindo processos administrativos – Carf -, o que permitirá o abatimento das dívidas por créditos tributários e a repatriação de recursos. A Fazenda acha que, se pedalar, no bom sentido, pode chegar até a R$ 64 bilhões em receitas extraordinárias (captação de recursos não previstos, desmobilizações, anistias), o que significaria um aumento de R$ 20 bilhões em relação a  previsão original. Até ontem, esse era o cenário. Mas, para mudar, não custa. Afinal, Levy continua jogando o bizarro Candy Crush com os vampiros da desestabilização econômica.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.