04.10.17
ED. 5718

“Valemig” é um facho de luz na área de geração

Agora que a Cemig perdeu seus anéis e a Vale ficou de fora da competição pelas quatro usinas da estatal mineira – São Simão, Miranda, Jaguara e Volta Grande – pode ter chegado a hora de decisão se a parceria entre ambas foi pontual e fugidia. Melhor seria se a Aliança Energia, joint venture entre as duas companhias que ficou escanteada no leilão, desse lugar a uma “Valemig”, empresa consolidadora, mais capitalizada, com baixa alavancagem e sem as amarras estatais. Tudo aquilo que a Cemig não é hoje e a Vale pode oferecer. Uma fonte do RR disse que o assunto tem vida própria e paira no ar. Se non è vero, è ben trovato.

Está faltando um player de energia nacional mais forte na geração, algo que a Cemig chegou a ser, antes de a gestão entortar e a companhia e se meter em relações perigosas, envolvendo políticos e empreiteiros. Não é de hoje que se discute a possibilidade de a Vale diversificar seu core business. Nos idos de Roger Agnelli, um caminho buscado foi o carvão, mas os negócios não tiveram a combustão que originalmente prometiam. Há alguns anos, a ideia da Vale ser também uma companhia de energia passeava nas reuniões de diretoria.

A “Valemig”, por sua vez, traria a estatal mineira de volta ao jogo. Hoje, a Cemig parece viver um apagão. Perdeu as quatro usinas retomadas pelo governo federal, que respondiam por quase um terço da sua produção de energia. Ao mesmo tempo, tem sido forçada a desmobilizar ativos para reduzir seu nível de alavancagem – equivalente a quatro vezes o Ebitda. Só a Cemig Geração e Transmissão carrega uma dívida da ordem de R$ 11 bilhões. A Vale é acionista de três hidrelétricas e quatro PCHs. A Cemig, por sua vez, controla ou tem participações em 82 hidrelétricas e PCHs – fora projetos ainda em andamento –, além de três térmicas e 32 usinas eólicas. Para completar, há ainda as sete hidrelétricas e um parque eólico, em construção, compartilhados pela dupla por meio da Aliança Energia.

A capacidade somada destas geradoras gira em torno de 9 GW. Ainda que a companhia mineira se desfizesse de algumas participações – dando sequência ao seu plano de desmobilização de ativos –, a “Valemig” não ficaria muito distante da franco-belga Engie (7,2 GW) e da China Three Gorges (8 GW), os dois maiores grupos privados de geração do país. À frente, apenas as subsidiárias da Eletrobras. Pensando na musculatura financeira e na consequente competitividade do negócio, o formato ideal de associação traria a Vale numa posição majoritária, como, aliás, é o caso da própria Aliança Energia – a mineradora tem 55% do capital e a Cemig, o restante.

Este desenho permitiria à “Valemig” ter acesso a crédito internacional mais barato e contar com uma gestão profissional, protegida de ingerências políticas. De quebra, funcionaria como um modelo cleaner da imagem da Cemig, que nos últimos anos ricocheteou entre interesses públicos e privados – não necessariamente o bom interesse privado. A hipótese contrária exigiria que a Vale aceitasse ser minoritária de uma estatal. Neste caso, entre pesos e contrapesos, a perda da posição de controle se justificaria pela possibilidade de ser sócia de um grande conglomerado da área de geração, o que permitiria à mineradora adicionar valor a ativos que estão fora do seu core business. Apenas como referência, a “Valemig” já nasceria com uma receita estimada entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões ao ano.

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