fbpx

Atenção!

As postagens abaixo são de datas passadas.

Para ter acesso ao nosso conteúdo exclusivo, assine o RR.

Planos

Observatório RR

Análises técnicas e independentes produzidas por especialistas em diferentes campos de atuação. Observatório RR traz uma visão única, inovadora e independente sobre temas que pulsam nos cenários nacional e mundial.

31.03.20

Do infantilismo neoliberal para bravatas de guerra sem munição

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior.

A economia brasileira e a mundial, cada país com suas particulares, vai girar sobre os setores onde a disfunção do combate ao coronavírus impacta em escalas não paralisantes e sobre a demanda gerada pela transferência financeira do Estado aos entes que formam o sistema econômico. Não há milagre ou mágica. É isso e isso. O resto são narrativas infantis e sofismas de toda ordem. Para fazer frente ao combate “da primeira onda” do novo coronavírus, utilizando o conceito usado pelo atual ministro da economia, Paulo Guedes, na sua aparição digital no sábado 28/03, em iniciativa da XP – o Brasil já tem uma cartilha de ações e programas que ainda dependem de implementação até que o dinheiro chegue ao bolso de cada um.

A fila é grande e os sistemas, fracos ou inexistentes. Com dois milhões de pedidos de aposentadoria na fila da Previdência, o sistema não avança; nem o simulador do meu.inss.gov, descontinuado em novembro do ano passado, está funcionando. O ministro nos informa que estamos furando a primeira onda. Como bom carioca, usa uma figuração apropriada, mas não nos informa o tamanho da dita cuja; o que, para um bom surfista, significa indicar qual será a profundidade necessária do mergulho para fugir do furor da pressão de uma massa d’água quebrando sobre a cabeça. Tudo bem, talvez o ministro seja daqueles que apreciam a onda da janela ou
do conforto da areia, mas na correnteza do coronavírus todos estamos na “aventura”.

Dito isso, poderíamos estar com uma base estatística bem mais efetiva, se os kits de teste, tão falados em prosa e verso, estivessem disponíveis. Uma ferramenta dessa importância, já com mais de três semanas de epidemia em evolução, certamente os aviões cargueiros da Aeronáutica já teriam ido e retornado da China com alguma munição. Enquanto o ministro gasta o seu tempo, e o nosso, desenvolvendo “expectativas positivas”, cujo poder de disseminação fica mais para o público ideológico do que para os combatentes da primeira ordem: o sistema de saúde. Enquanto Guedes fala, o vice-presidente da República e o atual presidente da Câmara dos Deputados estão dando um show de competência, serenidade e foco! Só que ambos não têm o que o Brasil mais precisa no momento: capacidade operacional!

Falar é fácil, mas, pelo volume de declarações de altos membros do governo e do seu entorno, o dia a dia da alta cúpula do governo federal deve estar girando com dois entraves vindos daqueles que acham que “expectativa positiva” funciona no atual cenário dos motores econômicos ainda em funcionamento. Claro que na esfera psicológica tem ainda alguma força geradora de esperança, e vindo do mandatário que ainda fala e age como se a onda em formação não fosse crescer e tudo não passa de propaganda enganosa. A saída dessa guerra gera ainda mais preocupação. Na aparição digital do ministro Paulo Guedes o tema foi tratado. Assim que isso passar voltaremos aos programas estruturantes e os investimentos virão, disse ele. Com todo o respeito, o desafio de colocar o sistema econômico em marcha, pela combinação de investimentos do setor privado do público minha esperança recai sobre o bom senso do Congresso Nacional e o consumo das famílias, não será tarefa trivial. E nem o infantilismo liberal da mão invisível preenchendo todas as oportunidades com investimentos de magnitude, ocorrerá dessa forma. Mesmo porque já não vinha ocorrendo, a despeito do ministro, em sua apresentação digital, ter gasto um bom tempo falando da sua versão sobre a espetacular retomada em curso no cenário anterior à pandemia.

É urgente a criação e nomeação no âmbito do governo federal de uma assessoria especial para operacionalizar cada medida, cada demanda, cada necessidade imposta pelo momento. Chegou a hora da saída dos arquitetos e a entrada dos engenheiros. Por outro lado, assim como foi criado o Conselho Fiscal da República, o desafio econômico e social à frente do Brasil em 2021 e 2022, no mínimo, demanda a imediata criação do “Conselho de Recuperação Econômica da República”.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

27.03.20

Talvez falte um Proer para as empreiteiras

Observatório

Isaak Kaleh, macroeconomista.

Um dos grandes estragos realizados na economia do país foi a demolição da indústria pesada. A Operação Lava Jato fez o que Roberto Campos chamava de jogar o bebê fora junto com a água suja. A Lava Jato enquadrou os corruptos, mas destruiu também as empresas, que tiveram canceladas sua carteira de obras no setor público, além de suspensas as linhas de crédito com os bancos do governo. Mais de 37 mil pessoas foram demitidas e empreendimentos, paralisados. E o Brasil perdeu soberania, ficando refém do capital estrangeiro para tocar suas grandes obras de infraestrutura. Na atual circunstância, por exemplo, temos quase 1.000 obras paradas e um oceano de projetos greenfield de saneamento para serem construídos. Recursos existem.

Se deixarem, o BNDES tem R$ 100 bilhões em caixa para investimentos em capital fixo. Mas quem vai meter a mão na massa? Os chineses? Os russos? Podem esquecer. Somente se a outorga for a preço de banana e a regulamentação for um presente de pai para filho. O pior é que tínhamos algumas das empreiteiras internacionalmente mais competitivas. Curioso como os pesos e medidas foram diferentes com o setor bancário. Na quebradeira de grandes instituições financeiras no século passado, o governo fez o correto. Separou a borra do vinho. Retirou os acionistas do controle, salvou os bancos e os transferiu para outros donos.

Esse programa de recuperação foi batizado de Proer. Passados mais de 40 anos, vivemos uma crise setorial semelhante. Mas com uma diferença radical: houve uma dizimação integral da construção pesada, justo no momento em que mais precisávamos desse setor, para gerar empregos, reduzir o gap da infraestrutura e dar condições de dignidade à vida das pessoas. Talvez fosse o caso de um Proer para as empreiteiras. Muitos desempregados agradeceriam…

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

24.03.20

O desafio do coronavírus e a capacidade de organização do Brasil

Observatório

Por Francisco Ourique, economista e especialista em comércio exterior.

Todas as camadas e áreas do Brasil estarão sobre pressão. Os brasileiros terão sua capacidade de reação testada até o fim do recém nascido ciclo do coronavírus. A camisa de força do teto dos gastos, medida que nunca deveria ter existido, sucumbiu pela força dos acontecimentos. A natureza da contenção do vírus – de isolamento e interrupção das atividades sociais e seus desdobramentos econômicos -, impõe a garantia de renda mínima, agora de forma absoluta, a toda a população brasileira. Extrair os 40 milhões de brasileiros, que não precisam de qualquer auxílio por terem capacidade financeira de sobrevivência, do projeto de renda mínima pode implicar na demora de implementação, o que, na situação atual, prejudica a pronta disponibilização de recursos.

Melhor errar pelo excesso que ficar tentando bancar o burocrata competente. Sem sistemas de informação prontos e rodando, qualquer corte de precisão é puro chute. O caso da reforma da Previdência é prova cabal. Além de dois milhões de contribuintes na fila aguardando processo de “análise”, o sistema Meu INSS ainda não foi capaz, desde novembro de 2019, de colocar o simulador de cálculo de aposentadoria em funcionamento. Salvar empresas e pessoas é a missão do momento: custe o que custar. Como em todo estado de guerra, temos que deslocar capacidade ociosa industrial para produção imediata da munição e dos instrumentos necessários ao desafio.

Como um dos maiores países produtores de álcool não tem álcool gel à vontade? E máscaras cirúrgicas, forças-tarefas para desinfetar vias e transportes públicos, produção de ventiladores respiratórios e o que mais for necessário? Há um enorme esforço nacional em marcha, mas precisamos de operadores, de gente no poder que tenha a capacidade e competência de fazer as coisas básicas acontecerem. A bomba do grau de contaminação de brasileiros com coronavírus é flagrante. Como não temos kits de teste suficientes, foi criada uma “rotina” de só aplicar o teste em pacientes que atendam aos “sintomas” do coronavírus. Todos sabemos que o timing entre “sinais” de contaminação e um quadro de broncopneumonia é de dias, em alguns casos de horas.

Com 383.983 casos confirmados no mundo, produzindo 16.569 fatalidades e 105.229 curas, segundo o site Worldometer para o dia 23 de março de 2020, o modelo just in time chinês parece ser o mais bem-sucedido. Então, é o que temos que copiar e parar de tentar ser inventivo e esperto diante das restrições brasileiras. Na guerra, como sabem a meia dúzia de comandantes, agora executivos instalados no governo federal, o inimigo avança pelos flancos mais fracos. Alguns governos estaduais estão operando com rapidez e desenvoltura naquilo que lhes compete: evitar a mobilidade urbana, intermunicipal e interestadual, adaptar cobranças que lhes competem ao fluxo de caixa, ou a sua inexistência, da população. O resto da guerra, além do extraordinário combate da fileira do serviço de saúde, compete ao governo federal. Falem menos e tenham mais ação efetiva.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

17.03.20

A Nova Previdência e o fantasma do déficit financeiro atuarial

Observatório

Por Manuel Jeremias Leite Caldas, engenheiro e Doutor em Economia.

A Emenda Constitucional 103/2019, resultante da PEC 06/2019 – a nova Previdência Social –, foi sancionada, e mais uma vez a Constituição Federal de 1988 foi esquecida, o que afeta as finanças públicas e o sistema de aposentadoria, sempre mal administrado e negligenciado, independentemente de qual governo federal em exercício. Há uma omissão grave em relação ao artigo constitucional nº 201, em que é determinado o preceito: “Regime geral, de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial” (grifo nosso).

A adequação da economia ao princípio do equilíbrio atuarial mudaria o cenário de curto, médio e longo prazos da economia, e, por consequência, ainda aproveitaríamos o bônus demográfico com grande geração de empregos formais, considerando o elevado nível de desemprego de 33 milhões de desocupados e os 40 milhões em empregos informais. Esse processo comprovadamente reduz a capacidade ociosa, e, aí sim, os investidores internos e externos teriam a garantia da qualidade da reforma constitucional proposta; e tais investidores abririam seus cofres e fariam inversões de capital nos diversos segmentos produtivos. Os grandes players analisariam com certeza investimentos nos segmentos de infraestrutura, óleo e gás, logística, saneamento, consumo, e de remodelação, recuperação e embelezamento dos grandes centros urbanos e turísticos no Brasil, como o Rio de Janeiro, sendo esse estado, o ponto focal do setor de óleo e gás no Brasil, com as grandes jazidas do pré-sal.

O que não foi dito tem grande impacto nas contas públicas: o valor estimado do déficit atuarial da Previdência, com estimativas de receitas e despesas projetadas no longo prazo, até 2060, e que já consta nas demonstrações financeiras do ano de 2018 do Fundo do Regime Geral da Previdência Social – FRGPS, conforme estabelecido na Lei de Responsabilidade Fiscal de 04 de maio de 2000. Tomando por base as informações na proposta da Nova Previdência, calculamos o déficit atuarial, descontando-se os fluxos de caixa, com juros reais de 4,00% e 6,02%, em algo que oscila entre 95% e 138% do PIB. A conta abrange os regimes privados e próprios federais.

A taxa de juros de 6,02% é a empregada no cenário básico nos cálculos pelo governo federal, a mesma utilizada nas contas para o déficit atuarial no regime federal. São números superlativos, que variam entre R$ 6,326 trilhões e R$ 9,141 trilhões ao longo dos próximos 40 anos, até o ano de 2060. Sem o cumprimento do preceito constitucional, a Emenda Constitucional 103/2019 cai no vazio e vira retórica junto com o estranho termo “potencial de economia de um trilhão em 10 anos”, para fazer emergir uma capitalização obscura numa segunda fase sem parâmetros, deixando de sinalizar o espaço de tempo (10 a 20 anos) em que teríamos a situação da Previdência virtualmente equilibrada.

Com os valores definidos, precisamos traçar propostas no tempo para reerguer receitas previdenciárias, conter e reduzir despesas, além de prover outros recursos e ativos financeiros para a equalização do déficit atuarial, como o previsto no art. 68, §1º, inciso II, da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Isto posto, todos os ativos da União poderão fazer parte da equação de equilíbrio, e assim, reduzir ou acabar de forma definitiva com o uso das receitas de impostos do Orçamento Geral da União (OGU) para o equilíbrio temporário da Previdência. A segunda fase será explicitar as diversas equações de equilíbrio dos variados sistemas de aposentadoria, contributivo ou subvencionado, apurando seus déficits ou superávits individuais, e totalizando para cada uma das populações existentes.

A meta é eliminar ou reduzir significativamente os subsídios cruzados. Finalmente realizar a soma das partes, tornando nulo esse valor. Importante destacar o risco de que os beneficiários enquadrados no regime de tempo de contribuição previdenciária poderão impactar negativamente, minguar a proposta da Nova Previdência. Eles contribuem atualmente durante 35 anos, no mínimo, e na nova proposta é aumentada para 40 anos, tendo ainda que alcançar a idade mínima ora estabelecida. Diante disso, podemos afirmar que tal categoria foi eleita para subsidiar os demais participantes, segundo argumentos de expectativa de maior tempo de vida.

É uma hipótese arriscada ao aumentar o tempo de contribuição para quem se aposenta nesse grupo. Os incentivos para mudanças ficam maiores, ou criando o estímulo para a informalidade ou a busca de opções legalizadas como o MEI (microempresário individual) e o SIMPLES. Abre-se o terreno para canibalizar o sistema existente. O mesmo benefício pode ser obtido por um quinto ou metade do custo (R$ 275,00 para R$ 55,00). A aposta do governo é incompreensível, ao considerar a premissa que os mercados são segmentados e não se comunicam. Ao contrário, a experiência mostra que as pessoas e os mercados são soberanos, se comunicam e darão o veredicto.

A proposta é de zerar o valor consolidado do déficit atuarial e reduzir os subsídios cruzados de tal forma que nenhum contribuinte pagará os benefícios de outros grupos, e, caso seja necessário, o governo deve prover recursos no Orçamento da União de forma a permitir que o país cresça em ritmo sustentável. O segredo consiste em valorizar os ativos públicos, lastrear o equilíbrio atuarial e antecipar a volta dos investimentos maciços no Brasil. Os atuais contribuintes que se aposentam “por tempo de contribuição” deixarão uma poupança de R$ 3,3 trilhões para o governo financiar as demais categorias como o setor rural, BPC (Benefício de Prestação Continuada), invalidez e idade, deixando um déficit atuarial líquido de R$ 2,4 trilhões. É hora de corrigir o imenso déficit atuarial até 2060 sem que a população de baixa renda pague a conta, que pode ser obtido com mudanças infraconstitucionais transformando todos os trabalhadores em beneficiários do capitalismo, com repartição e inclusão, conforme Roberto Campos, junho de 1983.


A equação consiste no Valor Futuro das receitas de contribuições capitalizadas individualmente com juros reais durante o período de contribuição até o início da aposentadoria, menos o Valor Presente dos benefícios dos assistidos durante o período de sobrevida do casal com os parâmetros pré-definidos.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

13.03.20

Coronavírus é mais uma enfermidade para o futebol brasileiro

Observatório

Por Claudio Fernandez, jornalista.

O coronavírus ameaça provocar um estrago no PIB da bola, com sérias consequências para o futebol brasileiro. Além do impacto direto com o iminente cancelamento de eventos esportivos no Brasil e a consequente queda de arrecadação, há uma ameaça tão ou mais expressiva que vem de fora para dentro do país. A paralisia do futebol europeu poderá desencadear um efeito dominó em que as últimas peças cairão nos mercados mais frágeis da indústria do entretenimento e do esporte. Uma área de risco? A próxima janela de transferências de atletas, no meio do ano.

Como tudo que diz respeito à pandemia, os desdobramentos sobre a cadeia de negócios do esporte ainda são imprevisíveis e dependem fundamentalmente de uma variável: tempo. Até quando partidas e competições do futebol europeu permanecerão suspensas? Quanto os clubes da Europa perderão em venda de ingressos e receita de TV? Qual será a resiliência dos assinantes de pacotes de pay per view no velho Continente sem transmissões esportivas? São questões que podem interferir, em menor ou maior dosimetria, no poder de fogo dos clubes europeus ao fim desta temporada. Se houver fim da temporada.

Moeda fraca, clubes em crise crônica e, portanto, com baixo poder de barganha, menor revelação de grandes talentos… Todos estes fatores têm contribuído para achatar o valor pago pelos europeus por atletas brasileiros. Além disso, a pescaria vem caindo. O número de contratações de jogadores no Brasil diminuiu nas últimas janelas de transferência da Fifa. O coronavírus pode agravar esse quadro. Com campeonatos suspensos, bilheteiras fechadas e eventual perda de receita de TV, a tendência é que os clubes da Europa recolham os flaps e sejam bem mais comedidos no meio do ano.

No ano passado, a exceção das exceções – como em quase tudo que se trata do futebol brasileiro – foi o Flamengo. O clube contabilizou R$ 299 milhões com a venda de direitos econômicos de jogadores. O valor representou 31% da receita total, um índice atípico – basta dizer que em 2018 a soma com a transferência de atletas foi de R$ 64 milhões. Talvez o Flamengo, dono da maior receita do futebol brasileiro, não alcance nem este nível em 2020.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

11.03.20

Alberto Fernández precisa de uma parede à sua esquerda

Observatório

Por Aline Gatto Boueri, jornalista correspondente em Buenos Aires.

“À minha esquerda, a parede”. A provocação, enunciada pelos ex-presidentes Néstor (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015), em diferentes momentos, ao longo dos 12 anos em que governaram a Argentina, não estava dirigida somente à oposição mais combativa, aos partidos de esquerda, mas também à sua própria base.  A consolidação de um peronismo progressista, que se diferenciasse radicalmente do peronismo neoliberal do governo de Carlos Menem (1989-1999) renovou o moviment nas primeiras décadas do século XXI. Também somou às suas fileiras militantes jovens o suficiente para ser tataranetos de Juan Domingo Perón, morto em 1974 enquanto governava a Argentina pela terceira e última vez.

Meses antes de morrer, durante um discurso em homenagem ao 1º de maio, Perón perdeu a paciência com a juventude mais combativa de sua base, representada pelo movimento Montoneros, que fazia trabalho de base, mas também organizou uma guerrilha urbana nos anos que precederam o golpe de 1976. O general, que durante 20 anos de exílio havia dialogado tanto com a ala mais à esquerda quanto com setores mais conservadores do movimento que fundou, havia feito sua escolha. Como morreu, não foi testemunha do massacre que se seguiu àquele dia na Praça de Maio.

A perseguição aos setores mais à esquerda do peronismo – cujos integrantes eram, em sua maioria, jovens – não começou com a ditadura cívico-militar, mas se aprofundou durante o regime autoritário e deixou uma conta de 30 mil desaparecidos, segundo organismos de direitos humanos. Para o kirchnerismo, no entanto, a juventude foi a base de sua força política. A capacidade de mobilizar grandes quantidades de apoiadores em demonstrações tão massivas quanto fiéis e apaixonadas foi o que evitou que Cristina Kirchner sofresse o mesmo destino de Lula, apesar dos esforços de seus opositores por instigar a indignação – em muitos casos justa, em outros exagerada – com as denúncias de irregularidades em seu governo.

Em um ambiente dominado por homens – brancos –, como é a política institucional latino-americana, Cristina Kirchner passou por todos os cargos eletivos nacionais: foi deputada federal, deputada constituinte, senadora, presidente por dois mandatos e agora ocupa o posto de vice de Alberto Fernández. Fernández, que foi chefe de gabinete de Néstor Kirchner e chegou a ocupar o mesmo cargo no primeiro ano da presidência de Cristina, se afastou da hoje vice-presidente até o ano passado, mas sabe muito bem que não pode governar sem o carisma e gênio político de sua companheira de fórmula. Diante da terra arrasada que os indicadores econômicos anunciam na Argentina, o presidente segue os ensinamentos da mulher que foi capaz de unir todos os setores do peronismo para vencer em primeiro turno uma eleição presidencial, apenas quatro anos depois de deixar a Casa Rosada.

Em meio a uma crise econômica tão grave – Néstor Kirchner assumiu em 2003 com um quadro também dramático –, os grandes gestos políticos e os discursos épicos são capazes de mobilizar uma base leal, que Cristina Kirchner empresta ao incipiente governo. Alberto sabe disso e precisa deixar também seu legado antes que argentinos e argentinas se cansem de tanta gestualidade. A oportunidade é única: barato e com grande poder de impacto em uma base renovada nos últimos quatro anos – um movimento feminista com grande adesão jovem – o projeto de lei para a legalização do aborto será o primeiro grande desafio de ampliação de direitos individuais do governo Fernández, além de ser uma bandeira que seus antecessores peronistas não levantaram. Uma marca pessoal, pode-se dizer.  A lei vigente sobre o tema está prestes a completar 100 anos. Chega inalterada ao século XXI, apesar de tantos direitos conquistados por mulheres do mundo inteiro ao longo do século XX. Se aprovada a interrupção voluntária da gravidez, Alberto Fernández também poderá dizer que é o único presidente da América do Sul a encontrar, à sua esquerda, a parede.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

09.03.20

Coronavírus infecta mercado global de petróleo

Observatório

Por Leda Stein, economista e trader de petróleo, combustíveis e derivados.

Na sexta-feira antes do Carnaval, 21/02, os brasileiros conviviam com o Índice Bovespa acima de 113 mil pontos. Às vésperas da maior festa pagã, investidores assistiram a uma modesta queda de 0,79%. Nada ameaçador para a bolsa que vivia uma ascensão histórica e semanas antes testava a resistência dos 120 mil pontos.

Na mesma sexta-feira, um paulistano que viajava à lazer com a família retornava da Itália, o país europeu com o maior número de infectados pelo Coronavírus. Com sintomas gripais, o homem foi internado no Hospital Albert Einstein para ser examinado.

Enquanto o Brasil estava em festa, os mercados globais viviam tensão com o avanço do covid-19 para além da China. E o paulistano aguardava o resultado do exame e do teste contra-prova, que sairia na manhã da quarta-feira de cinzas. A confirmação do primeiro caso brasileiro foi apenas o jiló do bolo, pois as bolsas internacionais já amargavam quedas expressivas durante o feriado carnavalesco. O Ibov recuou 7,0% na quarta e de lá pra cá acumula queda de 13,8% em 8 dias de pregão, fechando abaixo dos 98 mil pontos na última sexta-feira.

É extremamente preocupante o desaquecimento da economia mundial em função da epidemia de Coronavírus. Dados internos da China mostram polos industriais com menos de 50% da produção em operação. Diversas cidades da província de Hubei ficaram isoladas, estimando-se que mais de 50 milhões de chineses estão em quarentena. Agora, os países europeus mais impactados estão seguindo o protocolo do isolamento. Na Itália – o país ocidental com maior número de infectados -, jogos de futebol foram cancelados, pontos turísticos estão fechados e diversas empresas passaram a adotar trabalho remoto. As ruas ficaram vazias, assim como as prateleiras dos supermercados.

Em meio a esse cenário de catástrofe cinematográfica, todas as projeções de crescimento econômico estão sendo revisadas. A OCDE calcula uma redução de 0,5 p.p. do PIB global em 2020, com impactos visíveis já no 1º trimestre. Para o PIB chinês, estima-se uma redução de 0,8 p.p. em 2020. E os cálculos ainda estão sendo atualizados…

Na quinta-feira passada, os países da OPEP reuniram-se para discutir os impactos do Coronavírus na demanda de petróleo. Antes de iniciar a reunião, a projeção de crescimento da demanda anual de petróleo era 1,1 MM bpd e, ao término do encontro, havia sido revisada para 480 MM bpd. Além disso, para tentar segurar os preços do petróleo, os países membros anunciaram redução de 1 MM bpd na produção do 1º semestre e recomendaram que os países parceiros no acordo OPEP+ reduzissem 0,5 MM bpd, sugerindo um corte adicional de 1,5 MM bpd aos 2,1 MM bpd já praticados atualmente.

No dia seguinte, os membros parceiros do OPEP+, liderados pela Rússia, rejeitaram a recomendação de corte adicional na produção de petróleo em uma reunião pouco amistosa, com direito a cancelamento da coletiva de imprensa. Com isso, na ausência de comunicação formal da OPEP, o Ministro de Energia russo declarou que nenhum país OPEP+ será obrigado a cortar produção já a partir de abril, insinuando que não irão mais manter nem o corte atual de 2,1 MM bpd. O impasse pressionou negativamente o preço do Brent, que fechou a US$ 45,50/bbl com expressiva queda de 8,9%.

No mercado brasileiro, a ausência de acordo entre os membros da OPEP e OPEP+ fez o Ibovespa cair mais 4,14%, puxado fortemente pelo volume de vendas das ações da Petrobras, que recuou 10,26% nas ordinárias (ON) e 9,73% nas preferenciais (PN).

Durante o final de semana os mercados Asiáticos derreteram mais. Há receio quanto o avanço do Coronavírus, mas o sabor mais amargo veio da decisão da Arábia Saudita de aumentar a produção de petróleo. Em retaliação à malcriação russa, os árabes estão promovendo o maior desconto no preço do barril desde a Guerra do Golfo. Analistas e traders estimam que o Brent chegará à 30 US$/bbl essa semana.

Por aqui ninguém se lembra mais do Carnaval, mas estão todos com saudades daquela sexta-feira, 21/02, antes do covid-19 invadir a nossa festa.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

06.03.20

Quando o PIB em alta rima com ajuste fiscal

Observatório

Por Isaak Kaleh, macroeconomista.

O que vem primeiro: o aquecimento do PIB ou o ajuste fiscal? Eu diria que os dois. Dependendo da intensidade, do projeto de Estado e do timing, ambos podem caminhar juntos. Para que o PIB retome o crescimento em marcha forçada, é preciso de investimento público. Com o PIB mais alto, sua relação com o déficit primário e a dívida pública bruta tende a ser mais amena. Mas não seria nenhuma trucagem. A ideia é avançar no ajuste e fazer as reformas; tudo dentro de um projeto de Estado, e não ao inverso, conforme diz o professor Roberto Mangabeira Unger.

Se o PIB é o núcleo da galáxia econômica, é preciso condicionar as metas fiscais a sua previsão de expansão, e, mais uma vez, não o contrário. Para lubrificar o crescimento com o investimento, os números fiscais poderiam cair menos drasticamente. A opção das datas de queda dos gastos públicos é um arbítrio do governo. Partem da premissa que a despoupança do Estado será compensada com recursos externos. Ocorre que mais de 80% do investimento direto estrangeiro são realizados em projetos maduros.

O greenfield fica a espera de quem o priorize. Em princípio seria o Estado, mas o setor público está amarrado pelo ajuste fiscal. E as reformas não visam gerar recursos para acelerar os investimentos e empurrar o PIB para cima. Esse trade off só existe por uma questão de escolha. Por exemplo: em vez da meta de um superávit primário em 2023 ou 2024, que se transfira o objetivo fiscal para 2026 ou 2027, e aumentem-se as aplicações em formação bruta do capital fixo. Com o Produto subindo, cairá a relação déficit e dívida/PIB.

Tudo bem, nada é óbvio nessa seara. De qualquer forma, é melhor voltar à boa e velha economia política: quando as opções buscam o equilíbrio entre o social e o financeiro. O Brasil do presente e dos últimos anos, infelizmente, fez escolhas radicais entre um e outro. O resultado está aí.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

04.03.20

O esporte olímpico brasileiro vive de “bico”

Observatório

Por Claudio Fernandez, jornalista.

Atleta dos saltos ornamentais, Ingrid Oliveira pulou do trampolim para o noticiário carnavalesco ao ser “flagrada” trabalhando como ambulante nas ruas da Zona Sul do Rio no último fim de semana. Da apoteose da Rio 2016 ao isopor onde carregava latas de cerveja vendidas a R$ 7, Ingrid é um exemplo da aridez que o esporte olímpico brasileiro atravessa, na esteira da expressiva redução dos investimentos públicos. A queda do Brasil no pódio olímpico de Tóquio no comparativo com a Rio 2016 já estava na conta. Países sedes da Olimpíada costumam somar 13 medalhas a mais do que a média do seu desempenho histórico.

No caso brasileiro, no entanto, o descolamento em relação a quatro anos atrás tende a ser ainda maior, devido ao inexorável declínio das condições de treinamento de boa parte dos atletas. O Orçamento para este ano prevê um investimento para o esporte de R$ 220 milhões, quase metade dos R$ 430 milhões do ano passado. Em comparação com o último ano de Olimpíada, 2016, a navalhada é ainda maior: passa dos 70%. O “PIB do esporte olímpico” é ainda pior do que o PIB que será entregue por Paulo Guedes neste ano.

Caso se mantenha o atual ritmo de aportes públicos, o esporte olímpico brasileiro tende a mergulhar numa espiral de maus resultados, para não falar na dificuldade de surgimento de novos nomes. Os R$ 70 milhões programados no Orçamento para o Bolsa Atleta cobrem apenas metade dos gastos do programa. Desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, a Petrobras reduziu ou suspendeu os contratos de patrocínio a confederações esportivas e atletas – em 2016, o chamado “Time Petrobras” chegou a ter 25 integrantes de diferentes modalidades.

Correios, Banco do Brasil e Eletrobras foram pelo mesmo caminho. Em 2018, sete estatais destinaram R$ 381 milhões em 73 contratos esportivos. Desses acordos, apenas oito se mantêm ativos. Aparentemente, uma exceção à regra seria o próprio BB, que ampliou seu contrato com a Confederação Brasileira de Vôlei. No entanto, trata-se de um patrocínio direto para as Superligas masculina e feminina, o que não necessariamente tem impacto direto sobre a atuação brasileira na Olimpíada. Nem os militares escaparam, não obstante o notório prestígio do estamento no governo Bolsonaro.

O investimento federal em verbas de infraestrutura e viagens de desportistas que integram o Programa Atletas de Alto Rendimento das Forças Armadas (PAAR) neste ano será de apenas R$ 600 mil, contra R$ 10 milhões em 2019. Não obstante a já aguardada queda da performance, talvez para Tóquio o impacto dos cortes de recursos ainda seja razoavelmente moderado. Mas, nesse ritmo, o esporte brasileiro tem tudo para ter um ciclo olímpico ainda mais modesto entre 2020 e 2024. O que esperar de um governo que sequer tem um Ministério do Esporte?

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.

04.03.20

O Canto do Cisne Verde

Observatório

Por Leonardo Braga, Capitão Submarinista da Marinha Brasileira.

A primeira vez que o jornalista Adam LeBor comentou com amigos que estava escrevendo um livro sobre o Bank for International Settlements (BIS), a pergunta foi: “Banco do quê?”. Se você está entre aqueles que fariam a mesma pergunta, não se sinta mal por isso. A despeito de ter exercido um papel fundamental na construção do sistema financeiro internacional e ter precedido instituições como o World Bank e o International Monetary Fund, o BIS é um ilustre incógnito. Conhecido entre os iniciados como o “Banco Central dos Bancos Centrais”, o BIS completa em 2020 oitenta anos de uma existência tortuosa, atormentada por laços com o Nazismo nas décadas de 30 e 40 e pelo risco de tornar-se irrelevante diante da ascensão de atores contemporâneos mais influentes.

LeBor, em seu livro “Tower of Basel” descreve o BIS como o clube de presidentes dos principais Bancos Centrais do mundo, que se estabeleceu como espaço de discussão privilegiado entre jantares soberbos, confidencialidade inescrutável e coordenação tácita e supracional – tudo isso sob a administração de tecnocratas muito bem pagos, que possuem na Suíça o mesmo status legal de diplomatas. Carola Westermeier em “The Bank of International Settlements as a think tank for financial policy-making” reafirma o papel complementar de think tank exercido pelo BIS, com sua pretensão (fundamentada) de subsidiar políticas públicas e orientar as estratégias dos grandes conglomerados financeiros. Dentro dessa pegada de think tank, o BIS publicou no mês passado um documento que deverá se tornar seminal nos próximos anos: “The Green Swan: Central banking and financial stability in the age of climate change”.

Ele trata do aquecimento global como ameaça à estabilidade do sistema financeiro internacional, propondo medidas mitigadoras e urgindo pela ampla e coordenada participação da sociedade na implementação das propostas. O documento se dirige principalmente aos Bancos Centrais, afirmando que, de um jeito ou de outro o problema vai cair no colo dessas instituições. Não é a primeira vez que o BIS faz isso. Num balanço de quase 10 anos da crise dos subprimes, Westermeier afirma que o BIS do pós-crise foi o pai da doutrina de medidas macroprudenciais, hoje consagrada como instrumento útil à manutenção da estabilidade dos sistemas diante do impacto de expansões ou retrações econômicas de vulto.

A expressão “Green Swan” (Cisne Verde) foi cunhada em analogia ao título do best seller “The Black Swan” de Nassim Nicholas Taleb (lançado no Brasil como “A Lógica do Cisne Negro”), obra em que o autor discute a inabilidade de seres humanos e suas instituições de prever (e obviamente se preparar para) eventos para os quais não existam precedentes e/ou que apresentem comportamento não linear (esses eventos seriam os chamados cisnes negros). O aquecimento global e suas consequências sobre a organização político-econômica do mundo são, pelos analistas do BIS, considerados tipos especiais de cisne negro, com uma distinção – nós sabemos que eles vão acontecer. Por outro lado, para Nouriel Roubini, em matéria recente no The Guardian, o aquecimento global não é um cisne negro – é um bom e óbvio cisne branco que o sistema financeiro insiste em ignorar.

Roubini está entre os poucos economistas que profetizaram a crise de 2008 e não está sozinho ao levantar suspeitas sobre as narrativas construídas em torno do assunto. Há rumores pela internet de que o BIS deseja mesmo é indicar previamente o culpado de uma crise financeira que já está a caminho, e que não tem correlação com choques externos. O que me parece é o seguinte: a cor do Cisne depende das lentes de quem olha. Mas o seu canto, por outro lado, é triste e esganiçado a qualquer ouvido atento.

Para poder comentar você precisa estar logado. Clique aqui para entrar.