08.06.16
ED. 5385

O que Temer faz não é o que Temer diz

 A Vale está prestes a levar um golpe. Um golpe que expõe a farsa dos anúncios feitos pelo presidente interino Michel Temer. Ao que tudo indica, a volta das privatizações, a gestão independente das empresas estatais, o respeito aos contratos e o primado da governança não passam de bolhas de sabão: tão logo estourem, terão servido apenas para que escorreguem no solo movediço aqueles que acreditaram em promessas. Temer pretende intervir no comando da Vale, uma empresa privada, arrombando com abuso de poder e a chutes de coturno o direito de seus acionistas majoritários. Quer destituir o presidente da mineradora, Murilo Ferreira, à revelia dos seus controladores. É o mesmo Temer que diz que irá privatizar para proteger as estatais da intervenção política do governo.  O presidente da Vale, Murilo Ferreira, é um quadro técnico, que tem enfrentado com valentia, e em silêncio, as maiores tormentas arrostadas por um dirigente do setor privado em tempos recentes. Ninguém foi mais afetado pela crise das commodities do que a Vale. Que outra grande corporação teve seu faturamento reduzido a 30% da média histórica dos últimos 20 anos? E o que dizer da tragédia da Samarco? Ferreira tem feito a sua parte. Se for atingido, será por um golpe baixo, pois sua permanência no comando da companhia já foi decidida em reunião do Conselho de Administração há dois meses. Sairia devorado pelos pantagruéis saqueadores dos cargos que não lhes pertencem. Estranha sina esta da Vale, que parece se confundir com a do Brasil. Ambos, a seu jeito e maneira, atravessaram processos de quebra da normalidade em um terço de século. Será um ato de exceção se Temer conseguir encurralar os acionistas controladores da Vale. Não vai ter golpe.

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