17.11.16
ED. 5497

José Dirceu articula união das esquerdas

O ex-líder estudantil, ex-subversivo, ex-guerrilheiro, ex-stalinista, ex-ministro e atual presidiário, “comandante Zé Dirceu”, tem trocado valiosa correspondência com interlocutores escolhidos a dedo. São os pombos-correio do “Zé” junto ao que ele considera “agentes galvanizadores” da esquerda. Esses bons agitateurs, digamos assim, levariam, em uma pequena cartilha, uma proposta organizada para a esquerda pensar seus rumos, buscando por meio do debate das ideias consolidar bandeiras comuns e – quem sabe? – uma estratégia unificada de luta política. Dirceu prevê uma arrasadora hegemonia dos conservadores no mundo. Mas considera que os ciclos de ocupação do poder vão ser mais curtos, devido à velocidade de fadiga de material das políticas. No curto e médio prazos, a disputa se daria, portanto, entre direita e extrema-direita. O Brasil pode ser uma exceção, considera o ex-ministro.

 Apesar do estrago produzido nas esquerdas com o mensalão e o petrolão, a nova coalizão partidária no poder não é carismática, não é populista, não é moralmente hígida, simplificou em demasia os problemas do país e deverá encontrar um cenário de adversidades bem pior do que previa. Só lhe restaria o autoritarismo, para o qual também não existem condições concretas. Dirceu é cético em relação aos resultados efetivos de uma discussão sobre ideias ou mesmo à formação de uma frente de partidos de esquerda ou à realização de prévias independentes. Mas acredita piamente que é hora do show. A sacada seria a instituição de versão cabocla da “Internacional Socialista”, algo como o “Fórum Brasiliano da Esquerda”. A recomendação é pensar grande, pensar no Maracanã, pensar na representação de todos os partidos (PCdoB, PT, PSOL, PSTU, PCB, PDT e – por que não? – o Rede) e seus quadros e simpatizantes de maior expressão, pensar em dias de cobertura jornalística, pensar que a sinistra reunida é muito mais sedutora do que a destra, pensar em uma das poucas iniciativas que aparentam ser capazes de atrair parcela da centro-esquerda que se rebelou com a desconstrução do PT.

 Os partidos teriam mantidas suas identidades e ideias, mas seriam afinadas as bandeiras comuns, aquelas que jamais pertencerão à direita, a começar pela erradicação da pobreza e inclusão democrática das minorias. E tome de Lula, Ciro Gomes, Marina Silva, Jandira Feghali, Marcelo Freixo, João Pedro Stédile, Chico Buarque, Stepan Nercessian, Jorge Mautner, Maria da Conceição, Gregório Duvivier, Neca Setubal, Wagner Moura, Guilherme Leal, Caetano Veloso, Marieta Severo, dezenas, centenas reunidos no “frentão do bem”. Possivelmente, o megaevento teria um papel de importância na consolidação do candidato da esquerda. Seria a hora de Lula, caso não esteja preso, fazer sua autocrítica pública, e se confirmar como pule de dez da esquerda. Ou não. O show tem de continuar. O “comandante Zé” tem as motivações que estão fincadas no seu coração rubro, mas se sobrepõe o projeto de poder viver livre o restante da sua vida. Para que isso ocorra, só mesmo com um indulto presidencial. E, é claro, de um presidente de esquerda.

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