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01.04.16
ED. 5339

Pesquisas reforçam discurso de Lula e Dilma contra o “golpe”

 Dilma Rousseff e Lula estão trabalhando intensamente em duas frentes de batalha que se interligam no bordão do governo: “Não vai ter golpe”. Pesquisas encomendadas pelo Planalto asseguram que a mensagem do “golpismo” tem um bom retorno na defesa do mandato de Dilma. O ex-presidente mergulhou de cabeça na repactuação da base aliada. Lula não faz só os agrados de praxe. Ele leva duas mensagens com valor de troca para o seu público: Michel Temer ainda vai experimentar do mesmo prato indigesto de vazamentos e manipulações da realidade; e, se não houver impeachment, aqueles que ficaram com o vice-presidente vão ser servidos com um repasto muito rarefeito. O trabalho de Lula é paciente como o de um tecelão, não obstante o tempo exíguo. Nos últimos dias, ele conseguiu seis importantes defecções do pretenso monólito peemedebista. Nada mais sintomático do que a declaração feita ontem por Renan Calheiros, classificando o rompimento do partido com o governo como uma “decisão precipitada e pouco inteligente”.  Em outro front, Dilma Rousseff aproveitará todas as oportunidades positivas para pendurar o discurso antigolpe – vide o evento de lançamento da terceira fase do “Minha Casa, Minha Vida”. Nesse sentido, Dilma ganhou um trunfo de onde menos se esperava: na economia. Ela começa a colher os resultados de duas árvores tidas por muitos como infrutíferas: as gestões de Joaquim Levy e Nelson Barbosa na Fazenda. O cenário que se avizinha é mais confortável. Seja em função do câmbio, seja pela própria recessão, já é líquido e certo que a inflação vai ceder. A queda dos juros também está no horizonte. O mercado espera uma redução da Selic a partir de agosto. Mas, no Planalto, a torcida é que ela venha já na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 26 e 27 deste mês. Nesse caso, a taxa cairia de 14,25% para 14%.  Do ponto de vista político e mesmo no que diz respeito à comunicação com a população, estes fatos, por si só, não têm qualquer impacto. No entanto, devidamente embalados, servem de moldura para o mantra contra o impeachment. Mais importante ainda é a folga no orçamento obtida com o adiamento das metas fiscais pelo ministro Nelson Barbosa. Parte desses recursos será remanejada para programas de cunho social e estímulo à produção. Mais uma vez, a economia poderá ser usada em prol da política na tentativa de conter a avalanche do impeachment. Enquanto Lula sussurra em Brasília, Dilma grita em alto e bom som: “Não vai ter golpe”. É o que resta. Mas pode ser que não seja pouco.

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29.03.16
ED. 5336

Ida e volta

 O ministro Nelson Barbosa está acalentando a ideia de exigir contrapartida de privatizações aos governos estaduais que se beneficiarem dos refinanciamentos das dívidas.

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28.03.16
ED. 5335

Dilma não quer saber de agenda positiva

 O roteiro original não era esse. No script previsto, com Lula postado ao seu lado, já empossado no Gabinete Civil da Presidência, Dilma Rousseff anunciaria uma no cravo e outra na ferradura, ou seja, a inclusão de R$ 80 bilhões nas despesas previstas no orçamento exclusivamente dirigidas ao deslanche da atividade econômica; e a proposição de um leque de reformas estruturais (previdência, federativa, tributária, política) com prazo de envio firme dos projetos ao Congresso. Essa última medida, entraria na conta da campanha do Lula 2018, levando a mensagem de um Brasil repaginado e moderno. Com a cassação da posse no ministério, a estratégia ficou manca. Isolada, no seu tradicional deserto de agendas positivas, Dilma esqueceu as reformas e qualquer escrúpulo macroeconômico, mandando o superávit primário às favas. Partiu para obtenção dos recursos necessários para aquecer a economia no orçamento e nas suas franjas. Para não variar jamais, agiu de forma equivocada.  A trapalhada começa com Nelson Barbosa a quem é incumbida a tarefa de caçar os recursos. Barbosa faz todo o estardalhaço a que tem direito, permitindo que a mídia transformasse o que deveria ser apresentado como um programa de recuperação econômica em uma grave irresponsabilidade fiscal. Agora, se Dilma ousar anunciá-las, ao invés de um agrado à Nação estará coonestando um crime fiscal de lesa-pátria. Em síntese, transformou o banquete em jejum. Resta saber se Lula assumirá ou se, mesmo como assessor especial, desempenhará funções parecidas. Caberá a ele reverter o jejum em banquete. Afinal, não há habilidade política que dê jeito em expectativas permanentes de um futuro pior. Lula vai ter de dar credibilidade à agenda de reformas e o porvir das contas fiscais. Na presidente, ninguém acredita.

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29.02.16
ED. 5316

O perfume de mulher da âncora cambial

  A banda cambial proposta pela economista Monica De Bolle, musa da Casa das Garças, tocou suavemente no coração de Nelson Barbosa. Pensando como o ministro, a mudança de âncora na política de estabilização seria uma forma de o governo entregar uma redução maior das taxas de juros ao PT, saciando em parte a ânsia do partido em detonar políticas econômicas com viés conservador, e ganhando algum tempo para emplacar um pacote fiscal crível. No mais, falou em controles e bandas, a atual equipe econômica diz logo “presente”. Mas nem tudo é o que parece. No regime proposto por De Bolle, os juros permaneceriam constantes, com o novo modelo de correção cambial durando o tempo necessário para que fosse feito um ajuste fiscal à vera. A banda cambial flutuante seria quase uma licença poética. Com o arsenal de reservas em moeda estrangeira disponíveis pelo Banco Central e o poder regulatório de determinar o intervalo entre as bandas e as cotações do piso e do teto do dólar/real, o câmbio, sem as firulas do economês, voltaria a ser controlado.  O modelo remonta a um velho expediente useiro e vezeiro dos economistas tucanos: combater a inflação ancorando os preços no câmbio apreciado. Gustavo Franco usou uma variante no Plano Real, que deu certo no início, mas extrapolou depois. De Bolle certamente tem a autorização tácita da fraternidade dos economistas tucanos, que pensam e conspiram em bloco. A musa das Garças ampliou o leque em suas propostas e considerações sobre a iminência do quadro de dominância fiscal, a impotência da política monetária na presente situação, a tonicidade crescente dos juros na percepção de (in)solvência do país e até mesmo a cartada de desespero do controle de capitais. O que De Bolle não se arriscou a explicitar é que seu modelo é compatível com a queda dos salários nominais durante o processo de ancoragem cambial. Essa seria a forma de aumentar a competitividade. É um ingrediente no mínimo complexo, pois se os salários estão referenciados em reais e a moeda vai se valorizar em relação ao dólar, a relação salários em reais/quantidade em dólares aumentará.  Um economista que se situa bem nas franjas da equipe da Fazenda chegou a dizer, em tom jocoso: “Se eles estão ofertando soluções é porque já se preocupam com a persistência desse jogo não cooperativo no contexto da alternância de poder. Se eles assumirem o governo, levam um mico preto”. “Eles” são Aécio Neves, tucanato, PUC-RJ, Casa das Garças, Instituto Peterson de Economia, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Monica de Bolle.., c’est la même chose. Esse pequeno rasgo de contribuição para o debate econômico, a despeito do juízo de valor que se faça sobre a qualidade da proposta, exala a melhor fragrância borrifada em uma disputa política contaminada por excessos.

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22.02.16
ED. 5311

Shutdown

 De mansinho, o ministro Nelson Barbosa empurrou o instituto do shutdown para dentro do pacote fiscal. Ele explicita as condições em que o governo suspende o pagamento ou sequestra parcialmente os recursos das despesas públicas. Os Estados Unidos são useiros e vezeiros nessa iniciativa. Simplesmente, o Executivo para de pagar e joga o problema no colo do Congresso. É uma medida forte.

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18.02.16
ED. 5309

Reforma da Previdência é a casa da mãe Joana

 Se uma boa recomendação ainda vale de algo, Dilma Rousseff deveria fazer uma convocação extraordinária do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) para discutir a reforma da Previdência e colaborar na elaboração da proposta. Ainda há tempo hábil para o governo recolocar nos trilhos a condução de seu projeto mais importante – para muitos, o único – e brecar o bate-cabeças que se criou em torno do assunto. Nos últimos dias, o noticiário vem descortinando uma série de divergências entre os ministros de Dilma, seja no que diz respeito ao modelo para a reforma, seja até mesmo em relação ao timing para a sua implantação. Nelson Barbosa sabe bem onde o calo lhe aperta e tem pressa – defende a apresentação de um projeto ainda neste semestre – ao passo que o próprio ministro do Trabalho e Previdência, Miguel Rossetto, veio a público para dizer que o tema exige diálogo e tudo deve ser conduzido com “serenidade” – ontem, durante o Fórum Nacional da Previdência Social, Rossetto botou o galho dentro e negou divergências com o titular da Fazenda.  A situação chegou a tal ponto que a própria Dilma Rousseff teve de se pronunciar para arbitrar a questão. Melhor seria se apenas e tão-somente seguisse o script anunciado e levasse o tema para ser destrinchado pelo CDES – não da maneira ligeira com que ele foi tratado pela presidente durante a reunião da entidade no último dia 28 de janeiro. O Conselhão não foi relançado e revigorado para servir de plateia de luxo, mas, sim, para validar os grandes projetos do governo. A entrada em cena do CDES, lócus natural para a discussão de uma proposta de reforma da Previdência, serviria para eliminar os ruídos que cercam a questão, angariar o apoio necessário dos mais diversos grupos da sociedade e reduzir as resistências do Congresso. Já está mais do que na hora de o governo parar de desperdiçar as oportunidades que passam à sua frente.

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28.12.15
ED. 5276

Nova velha matriz

 Mesmo com as juras de que o ajuste fiscal será mantido, o governo promete abrir o saco de bondades em 2016 – até porque é ano de eleição. Só em São Paulo, o cronograma do Minha Casa Minha Vida que será anunciado em janeiro prevê a entrega de imóveis em mais de 60 cidades ao longo do primeiro semestre. Resta saber se o novo ministro Nelson Barbosa vai comparecer às inaugurações.

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21.12.15
ED. 5273

Que a força esteja com Levy, Barbosa e todos nós

 O ministro e o ex-ministro da Fazenda, Nelson Barbosa e Joaquim Levy, acertaram uma colaboração que vai muito além da hipocrisia de praxe, na qual a autoridade que deixa o cargo elogia seu substituto, a quem detesta por sempre ter cobiçado seu lugar. A convivência dos dois não passou incólume a pegadinhas, fofocas e pequenas intrigas, sem as quais os ministérios da Fazenda e do Planejamento deveriam trocar de nome. Mas as ranhuras foram leves e o diálogo, sempre civilizado. Ambos deixaram claro o papel de reciprocidade que pretendem cumprir daqui por diante. Levy não quer ser considerado um anti-Barbosa e, portanto, contrário ao êxito do seu sucessor. E Barbosa vai refutar a imagem de gradualista e descompromissado com a prioridade ao ajuste fiscal. Há uma disposição de diálogo entre os dois, que conta com o apoio da presidente Dilma Rousseff. Ninguém é ingênuo de esperar uma colaboração corriqueira. Mas o entendimento é que deve haver alguma interlocução. Um elo entre ambos é a Fundação Getulio Vargas, que sempre será uma referência comum aos dois economistas.  Nelson Barbosa e Joaquim Levy são pessoas tremendamente diferentes. A forma de pensar a economia, porém, não é tão desigual assim. Ressalte-se que o Barbosa em consideração é aquele que estava no Ibre antes de ir para o Planejamento e não o assessor de Guido Mantega. Levy fora do governo, por uma dessas sutilezas do destino, talvez consiga contribuir para que se encontre a síntese para o falso dilema entre a intensidade e o gradualismo fiscal. Barbosa poderá se aproximar do que propunha o antecessor sem parecer que está recuando. O amálgama seriam as reformas, os marcos regulatórios e um plano de desenvolvimento que resgatasse o olhar de longo prazo. Mas Levy também estava desse lado da força. Aliás, que a força esteja com ambos. E com todos nós.

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01.10.15
ED. 5218

Mercadante deixa um legado de vilania

Não se sabe quantos Otelos e Desdemonas desfilam na versão kitsch e palaciana da peça sobre o mouro de Veneza. Mas inexistem dúvidas de que só há um vilão, pusilânime e fofoqueiro, na dramaturgia do faroeste brasiliense. Até as cigarras, com seu canto estridente, sibilam que Aloizio Mercadante é o Iago do governo Dilma Rousseff. O “Bigode” encena com requintes de perfídia essa comédia de farsas que se desenrola no Gabinete Civil da Presidência da República. Como bom Iago que é, Mercadante não tem inimigos orgânicos. São seus adversários todos que cruzem a linha que demarca o poder. Joaquim Levy é um deles. Desde que ascendeu ao posto de ministro da Fazenda, Levy tem levado rasteiras seguidas do Iago dessa trama vulgar. Mercadante acicatou Nelson Barbosa contra Levy, o desmentiu em off na imprensa várias vezes e foi responsável por uma das ações mais ofídicas na curta saga “levyniana”: Iago, aliás, Mercadante desmentiu que o governo lançaria mão da CPMF – a mesma que será relançada agora – deixando o ministro da Fazenda defendendo- a sem saber o que tinha sido dito em Brasília. Em tempo: Mercadante somente se expôs em favor de Levy no momento de uma crise quase terminal. Instado pela presidente, acompanhou o ministro da Fazenda em uma entrevista coletiva, emprestando o apoio do governo. O Iago do Planalto tem se esmerado no seu repertório de traições. O episódio da tributação do “Sistema S” supera tudo que o bardo de Stratford-upon- Avon nos legou. A ideia foi de Mercadante, que garantiu ter capacidade de convencimento do empresariado. Ato contínuo, ligou para seu amigo Benjamin Steinbruch, vice-presidente da Fiesp, comunicando a decisão em primeira mão. O assunto foi logo levado a Skaf. Soou como a mais profunda traição. Mercadante, então, tirou o corpo fora e repassou a bola para a Fazenda. Pronto, o autor do crime passou a ser Levy. Mais recentemente, Mercadante foi informado do documento de crítica à política econômica produzido pela Fundação Perseu Abramo. O desfecho da trama nos recomenda a acreditar que ele calado ouviu, calado ficou. Ninguém mais do que Mercadante estaria autorizado a contestar um documento provindo da sua origem acadêmica, a Unicamp. Pois acredite que nosso Iago mais divulgou o posicionamento do que o contestou. Talvez Joaquim Levy seja o Cássio dessa história. Talvez não haja mocinhos. Em qualquer das hipóteses, Mercadante é quem assina o tratado do ciúme e da inveja. Já vai tarde.

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11.09.15
ED. 5204

“Não fazer o que é correto é falta de coragem”

Em sua fase confucionista, Dilma Rousseff vai seguir pelo caminho do meio. A presidente tomou a decisão de fazer um blended do malte de Joaquim Levy com a cevada de Nelson Barbosa. Talvez seja possível. Dilma seguirá Confúcio, que recomenda agir antes de falar, exatamente o que ela não fez no episódio do rebaixamento pela S&P. Confúcio, em seus Analetos, dizia: “Não são as ervas más que afogam a boa semente, e, sim, a negligência do lavrador”. Ou seja, leseira é governar somente depois dos fatos e lambança é antecipar os fatos, mas ficar esperando eles acontecerem para tomar as medidas que haviam sido anunciadas antes e não foram executadas. Dilma vai pegar Levy por um braço e Barbosa por outro. Mesmo que os meninos só se olhem de soslaio, o sentido de unidade da equipe deve prevalecer nessa nova fase de ativismo junto aos meios de comunicação. Gafanhoto, eis algo a evitar: dois ministros disputando espaço na mídia e entulhando o noticiário com medidas que, na maioria das vezes, não passam de conjecturas. Dilma, a confucionista, pretende usar as palavras do filósofo para professar a quintessência da verdade: “Querem que vos ensine o modo de chegar à ciência verdadeira? Aquilo que se sabe, saber que se sabe; aquilo que não se sabe, saber que não se sabe; na verdade é este o saber.” Ou seja: o pacote de medidas do ajuste sempre esteve pronto, à disposição da mão tíbia da presidente. Portanto “quem de manhã compreendeu os ensinamentos da sabedoria, à noite pode morrer contente”. Melhor dizer: “Saber o que é correto e não fazer é falta de coragem”. Por exemplo: confundir presidencialismo de coalizão com mandarinato de servidão ou czarismo poltrão. Se estivesse vivo, Confúcio diria: “Faz o que tem de ser feito agora, que compromisso da boca para fora é semente que não germina.” Pacífica e suave como em poucas vezes, Dilma atravessaria a pé a distância que separa o Palácio do Planalto do Congresso Nacional e, acompanhada do ministro da Defesa, dos comandantes militares e do presidente do STF, entregaria solenemente sua proposta de ajuste fiscal ao presidente do Senado Federal. Ato contínuo, discursaria sobre a gravidade da crise no plenário da Câmara, pedindo a colaboração dos congressistas em transmissão direta pela TV. Remediaria com água benta uma inundação.

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01.09.15
ED. 5197

Godot espera sentado pelo orçamento de 2016

A construção do orçamento da República na gestão Joaquim Levy e Nelson Barbosa, uma peça escrita para não ser encerrada, sempre foi um jogo de despistes. Sua maior inovação foi alternar constantemente as funções do corifeu e dos coreutas na encenação do teatro originalmente grego. O corifeu, nesta tragédia, deve ser compreendido como o governo central, a quem cabe o papel de conduzir a linha mestra do drama. Os coreutas, por sua vez, seriam o correspondente do Congresso, ou seja, o coro que pontuaria o andamento da história com intervenções, ora de pesar, ora de louvor. No palco da dramaturgia orçamentária, ninguém sabe quem representa o corifeu ou os coreutas. Eles trocam de lugar o tempo inteiro. Esse espetáculo do absurdo é resultante de uma combinação nunca dantes experimentada da impotência do poder com a malversação da política. Buscando inspiração no realismo fantástico de Júlio Cortázar, é um jogo de amarelinha das impossibilidades. O envio ao Congresso da proposta de orçamento com uma previsão de déficit de R$ 30,5 bilhões em 2016 é a cena mais recente desta montagem. Mais uma vez, não se consegue distinguir o corifeu dos coreutas. À medida que Dilma Rousseff se esconde na coxia e abre mão da direção do espetáculo, mais os atores trocam de personagem diante da plateia. O resultado é um coreografado jogo de empurra. O governo lança a responsabilidade no colo do Congresso, que dissimula, posa de protagonista e devolve a bola para o governo. É incontável a quantidade de medidas que já foram cogitadas, anunciadas ou dadas como certas para nunca serem aprovadas. Basta revisitar as páginas de jornais, nas quais o teatro orçamentário é alvo de resenhas diárias. Inicialmente, a meta de superávit fiscal caiu de 1,2% do PIB para 1,1% e ali ficaria. Puro jogo de cena. Não tardou para que a Fazenda, o Planejamento e a Casa Civil surgissem com o tal do superávit com ressalvas, uma espécie de caco fiscal. A meta desceu para 0,15%, mas, na prática, uma cláusula de abatimento de até R$ 26,4 bilhões permitirá que o superávit se transforme em déficit caso haja “frustração das receitas projetadas”. Pouco depois, Renan Calheiros emprestou seu nome a uma agenda que nunca foi sua, um embrulho de mercadorias vencidas, tais como a aceleração de licenças ambientais, a cobrança diferenciada no SUS e o imposto sobre heranças. Uma parcela expressiva da Agenda Brasil foi anunciada como a salvação da lavoura, embora se soubesse desde sempre que a maioria de suas proposições carrega em si o carimbo de “inexequível”. Depois vieram propostas de taxações sobre eletroeletrônicos da Zona Franca de Manaus, imposto sobre vinhos, venda de ativos, concessões e uma ida e vinda de projetos variados de repatriação do capital. E, assim, a cenografia foi sendo tomada por blefes e balões de ensaio: mudança nas regras do IOF, reoneração da folha, reforma do PIS/Cofins e, o ápice, a recriação da CPMF. Pouco importa se a melhor medida de todos os tempos dura apenas um dia. Ontem mesmo, a proposta de orçamento do governo – “realista e adequada”, nas palavras de Nelson Barbosa – era tratada como algo absolutamente irreal no Congresso. A seu tempo, a peça orçamentária encontrará seu desfecho, mas corifeu e coreutas, nesse mimetismo cívico irreconhecível, terão muito do que se lamuriar desse comportamento imprevidente e antirrepublicano.

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11.08.15
ED. 5182

 A reforma e a reforma de Dilma Rousseff

A presidente Dilma Rousseff dorme e acorda com a ideia de uma reforma ministerial na cabeça. Mas tem dúvidas sobre qual reforma deve implementar. É uma decisão grave, porque são modelos antípodas. De um lado, a reforma “por dentro”, buscando ministros que controlem suas bancadas, defendida por Lula e por acólitos do Planalto, tal como Aloizio Mercadante e Edinho Silva; do outro, uma reforma contemplando a presença de “notáveis”, técnicos e guerreiros. O objetivo da mudança “por dentro” seria enfrentar a crise política criando trincheiras no Congresso. A novidade maior seria o uso da caneta por Dilma, aprovando os pedidos e benefícios que caracterizam a política do “é dando que se recebe”. Seria um ministério político ocupado por políticos. O critério da convocação seria o grau de influência junto à sua base e o número de votos no Congresso. Os ministros técnicos, a exemplo de Joaquim Levy e Nelson Barbosa, seriam preservados. Alguns próximos, como Mercadante e José Eduardo Cardozo, iriam para o sacrifício, abrindo vagas disputadas. Todos os demais postos seriam passíveis de troca. A outra reforma ministerial, a proposta por seu exmarido Carlos Araújo, tem um viés inteiramente contrário. Araújo é a pessoa mais influente junto a Dilma e considera que a presidenta é refém de um ministério pouco qualificado e sem vocação guerreira. Qualquer associação com o ministério de notáveis de Fernando Collor não é mera coincidência. A diferença seria a predisposição para sair no pau e governar para valer. Por essa ótica, o governo de coalizão não se daria a qualquer preço ou com uma coalizão tão obesa. Quando se sentisse chantageada, Dilma confrontaria o Congresso, vetando projetos de lei. E explicaria o ocorrido publicamente. O novo ministério buscaria o maior distanciamento dos mensaleiros e do próprio Lula. Exemplo de um ministeriável: o ex-senador Ciro Gomes, que tem chamado o deputado Eduardo Cunha de canalha nas mídias. Os empresários seriam bastante contemplados: Josué Gomes da Silva, Jorge Gerdau, Luiz Carlos Trabuco e Benjamin Steinbruch são alguns nomes. Levy e Nelson Barbosa não permaneceriam nos seus cargos. Uma fantasia que teima em perdurar: Fernando Henrique Cardoso em qualquer ministério. Ah, impossível! Para quem não se lembra, FHC foi o primeiro a se apresentar para o ministério de notáveis de Collor quando o impeachment já era pule de dez. As duas reformas ministeriais trazem propostas de como governar – e tanto num modelo quanto no outro, há muito de wishful thinking. A melhor escolha assim é se lhe parece. A pior é permanecer com a abulia decisória, ausência de governança e falta de qualificação dos quadros. Esse tem sido o governo Dilma.  

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31.07.15
ED. 5175

Perfil de um remador em sua busca incansável

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, se dá com todo mundo. É um sujeito jeitoso, meio mineiro, que se acha talhado para vender a política econômica junto aos grandes públicos. Como é o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, quem exerce esse papel, Barbosa tem trazido para si a função de negociador junto a áreas sensíveis para as principais decisões nacionais. É o caso do Congresso Nacional. Barbosa conhece os parlamentares de outras viagens, pois foi o negociador da reforma tributária no governo Lula e na primeira gestão de Dilma Rousseff. Nesse interregno, foi para a FGV, onde, entre aulas, palestras e articulações no Instituto da Cidadania, preparou-se para ser ministro. Barbosa é um aficionado pelo relacionamento com a imprensa, e o que ele pensa pode ser lido por aí quase diariamente, dito por ele ou em off the records. Preza a conversa amiúde com a presidente da República. Durante o mês de julho, despachou mais de 20 vezes com ela. Não é de brigar com os outros, é de fritar. Nesse papel, foi de grande ajuda para o então ministro Guido Mantega em suas rusgas com o expresidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Dificultou no que pôde a vida do vigoroso Meirelles. Barbosa contrasta seu 1,90 m com uma fala mansa e olhar fixo de atenção. Se fosse menos calvo e alourado, lembraria o jornalista Tintim, personagem das histórias em quadrinhos de Hergé. Sua jornada de trabalho é de uma intensidade comparável ao tempo em que era remador, no Rio de Janeiro. Defende um intervalo de flutuação sempre que se estabeleça uma meta de superávit primário, com um piso e teto para o resultado fiscal. à‰ favorável também que a meta de inflação seja estipulada para prazos mais amplos do que um ano – quatro anos de um governo, por exemplo. Implica com o BNDES desde a gestão de Carlos Lessa. Vê outro papel para o banco. Não gosta da política para o salário mínimo (“deveria subir em relação ao salário médio”). Defendeu as desonerações sobre folha de salário no passado. Hoje é contra, pois descobriu que é uma bomba de efeito retardado: se o governo cogitar em retirar, o empresário demite de antemão. Caso estivesse no manche, Nelson Barbosa daria um jeito de acelerar os programas sociais para suavizar os efeitos do desemprego e contrabalançar o impacto do ajuste. Corrobora com a tese de que foi a política cambial, e não tanto o consumo das famílias, o principal responsável pelo crescimento desmedido das importações. à‰ um entusiasta de que a hora é dos investimentos e não mais da absorção doméstica. Acha que é importante reunir a grande indústria, inclusive os empreiteiros, para afagá-los e estimulá-los. Deve ser observado de perto em suas articulações políticas. Esse é Nelson Barbosa. Para bom entendedor…

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29.07.15
ED. 5173

Reservas infinitas

O ministro Nelson Barbosa instituiu, ontem, o primado da imobilidade das reservas cambiais: mesmo que seja necessário usá-las com parcimônia, as reservas existem para serem guardadas. Faltou memória a Barbosa. Ainda recentemente, o governo vendeu uns bilhõezinhos de suas reservas. Mas pode ser que ele esteja reproduzindo a prática universal com o câmbio: não se anuncia desvalorização de véspera. O mesmo se aplica à  venda de lastro cambial.

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